Brincando com fogo

790 Words
Maya Eu sabia que estava brincando com fogo. E não era aquele tipo de fogo que a gente usa para iluminar o caminho, era o tipo que consome tudo, que reduz barraco a cinzas e gente a saudade. Mas a voz dele, aquele tom frio e calculista que ele usou na sala de aula para me calar, ainda estava cravada no meu ouvido como uma farpa. O porque dele ter me chamado tanto a atenção eu não sei dizer. Mas tinha algo nele que me intrigava. Gabriel não era um professor simplesmente. Não com aquele olhar. Não com aquele sangue frio. Tinha algo a mais ali, eu tinha escondida em baixo daquele olhar. — p**a que pariu, Maya... você não sossega, né? — Tico resmungou, chutando uma pedrinha enquanto subíamos para um dos mirantes menos movimentados do morro. Tico era o que eu tinha de mais próximo de um melhor amigo. Crescemos dividindo o mesmo prato de comida e as mesmas fugas da polícia. Hoje, ele era um dos olhos e ouvidos do DG, mas, para mim, ele ainda era o garoto que chorava quando perdia no videogame. E eu sabia, que sua lealdade embora estivesse no DG também estava em mim. — Eu estou falando sério, Tico. Tem alguma coisa errada com o "professor" — falei, parando e cruzando os braços. — Ele mora num buraco, mas fala como se fosse dono do Leblon. Ele não treme pra fuzil e, o mais estranho... ele esta sempre analisando e lendo as pessoas. Tico parou, ajeitando o rádio na cintura, e me olhou com uma seriedade que raramente mostrava. — Maya, o morro já tem problemas demais. Se o cara é estranho, avisa pro DG. Ele manda os moleques darem um "sacode" no professor ou despachar ele pro asfalto num saco preto. Pra que você quer se meter nisso? — Porque eu não quero dar alarme falso! — rebati, rápido demais. — Imagina se o DG mata um cara que é só... esquisito? O projeto social acaba, a escola fecha e a culpa é minha. Eu só quero saber de onde ele veio. O nome real, o que ele fazia antes de vir pra cá. — Sei... — Tico estreitou os olhos, me analisando. — Ou você só quer saber por que ele é o único cara que não abaixa a cabeça pra você. — Não é isso... — Tem certeza? Senti meu rosto esquentar e dei um tapa no ombro dele. — Cala a boca e me escuta. Você tem os contatos lá embaixo. Conhece os caras que puxam ficha, que veem placa de carro, que sabem quem é quem no asfalto. Puxa a vida desse Gabriel. Tico suspirou, passando a mão pelo rosto suado. — Se o DG sonha que eu estou fazendo serviço por fora pra você, ele me pendura naquele poste, Maya. É perigoso. Se o cara tá fugindo de alguma coisa, ele pode ser gente grande. — Por isso mesmo estou pedindo pra você. Porque eu confio em você — segurei o braço dele, suavizando a voz. A fragilidade que eu escondia do professor agora era minha arma com o Tico. — Por favor. Só uma pesquisa rápida. Se não tiver nada, eu esqueço que ele existe. Prometo. Tico olhou para o horizonte, onde as luzes da cidade começavam a piscar. Ele sabia que eu não ia desistir. — Tá bom, tá bom! Eu vejo o que consigo. Mas me faz um favor? Fica longe daquele lugar onde ele mora. Vielas escuras não são lugar pra princesa do morro, ainda mais perto de um cara que a gente não sabe quem é. — Eu sei me cuidar, Tico. — Sabe nada. Você é marrenta, mas é coração. Esse cara... ele tem cara de quem não tem coração nenhum — Tico murmurou, já pegando o celular para mandar uma mensagem. — Me conta o que descobrir ok? — Maya.... por favor, toma cuidado tá. — Tico pede. — Você é uma irmã para mim, não quero você em problemas. — Eu não vou me meter em problemas. Prometo. Saí dali com o peito acelerado. Eu tinha dado o primeiro passo. Em breve, eu saberia o que Gabriel escondia sob aquelas camisas bem passadas e citações literárias. Eu disse a mim mesma que estava fazendo isso pelo DG. Pela segurança da minha família. Mas, enquanto eu descia a ladeira, a imagem do Gabriel recuando na sala de aula, aquele momento em que o "assassino" quase escapou pelos olhos dele, não saía da minha cabeça. Eu queria proteção? Ou eu queria um motivo para entender por que, pela primeira vez na vida, eu me sentia mais viva perto de um homem que podia ser a minha sentença de morte?
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