Gabriel
Maya soltou uma risada curta, mas não havia alegria nela. Ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço com uma audácia que me fez tencionar os ombros. O cheiro de perfume doce e fumaça de novo — uma fragrância que eu já estava começando a associar ao perigo.
— Você adora o som da própria voz, não é, professor? — Ela sibilou, os olhos castanhos fixos nos meus, faiscando. — Vive falando de máscaras, de segredos, de Machado de Assis... Mas já parou pra se olhar no espelho hoje?
Permaneci imóvel, mas senti uma pontada de alerta na base da nuca.
— Eu não estou aqui para ser o tema da aula, Maya.
— Ah, mas você é o melhor exemplo dela! — Ela exclamou, gesticulando com desdém para a sala vazia. — Você fala que eu sou a irmã do traficante, que eu me escondo atrás do poder do DG. Mas e você? Um homem com as suas mãos, com esse seu jeito de quem já viu o inferno de perto, morando num lixo de kitnet no alto do morro? Você não está aqui por caridade, Gabriel. Você está escondido.
O ar na sala pareceu subitamente escasso. Eu não desviei o olhar, mas o peso do meu segredo pareceu ganhar toneladas.
— Você está projetando suas frustrações, Maya. — tento disfarçar.
— Não venha com psicologia barata para cima de mim! — Ela explodiu, a voz subindo um tom, as faces coradas. — Eu vejo o jeito que você olha por cima do ombro. Eu vejo como você trava quando ouve um rojão. Você não está fugindo do asfalto, você está fugindo de algo que fez lá embaixo. Quem você matou, Gabriel? Ou quem está querendo te matar?
As palavras dela bateram em mim como projéteis. A imagem do carro na estrada, o brilho do metal, o sangue quente nas minhas mãos... tudo voltou em um flash violento que me fez perder o fôlego por um segundo.
Essa garota estava só jogando verde. Foi um ataque de sorte. Ela só está buscando algo para que possa dizer que também sabe ler nas entrelinhas.
— Chega — minha voz saiu baixa, cortante como vidro quebrado.
— O quê? A verdade dói? — Ela se aproximou mais, o rosto a centímetros do meu, um sorriso c***l nos lábios. — Você é um hipócrita. Não é? Quer me "salvar" da minha vida enquanto a sua parece estar por um fio. Você é só um covarde que se veste de intelectual para não encarar o monstro que carrega na mochila. Dá para ver Professor Gabriel. dá para ver que você carrega amis do que quer admitir.
O silêncio que se seguiu foi asfixiante. Por um instante, o assassino que eu tentava enterrar quis saltar para fora. Meus dedos formigaram, a vontade de segurar aquele rosto bonito e calar aquela boca atrevida era quase incontrolável. Mas então, a realidade me atingiu como um balde de água gelada.
O que eu estava fazendo? Batendo boca com a irmã do dono do morro? Atraindo atenção para o exato ponto que eu precisava manter nas sombras? Se ela desconfiasse demais, se ela falasse para o DG... minha vida terminaria antes mesmo de eu terminar de apagar o quadro.
Eu precisava recuar.
Respirei fundo, forçando meus músculos a relaxarem. Dei dois passos para trás, criando uma distância segura e profissional. A máscara de mestre, fria e impessoal, voltou ao lugar com uma precisão cirúrgica.
— Você tem uma imaginação fértil, Maya. Talvez devesse usar isso para escrever suas redações em vez de criar teorias da conspiração — falei, minha voz agora desprovida de qualquer emoção. — Seus problemas de comportamento e atrasos serão reportados à direção se persistirem. Agora, saia. Tenho materiais para organizar.
Maya parou, o choque da minha mudança repentina de postura visível em seus olhos. Ela esperava uma briga, uma confissão ou talvez um surto. O meu gelo a pegou de surpresa.
— É assim? — Ela perguntou, a voz subitamente pequena, a fragilidade que eu tanto conhecia espiando pelas frestas da raiva. — Você vai simplesmente fingir que não ouviu?
— Eu ouvi uma aluna indisciplinada tentando desviar o foco de sua própria negligência — respondi, sem olhar para ela, pegando meu apagador. — Nada mais.
Ela ficou parada por mais alguns segundos, a respiração pesada. Eu sentia o olhar dela queimando minhas costas, mas não me virei. Ouvi o som da mochila sendo puxada com força e os passos rápidos em direção à porta. Ela saiu e a bateu com tanta força que o vidro da janela estremeceu.
Só então, soltei o ar que estava segurando. Minhas mãos tremiam levemente.
Ela estava certa. Eu era um covarde escondido. E o pior de tudo não era ela ter descoberto que eu fugia de algo... era perceber que ela era a única pessoa naquele morro capaz de me fazer esquecer de que eu deveria continuar correndo.
Eu tinha vindo para o inferno em busca de paz. Mas Maya Albuquerque era um incêndio. Um incendio do qual eu precisava me manter longe.