O Fio da Navalha

885 Words
Gabriel O corredor da escola cheirava a morte, pólvora e poeira de gesso. Mas nada ali era tão perigoso quanto o silêncio do dono do morro, o DG. Ele estava parado a poucos metros, o fuzil atravessado no peito, as mãos sujas de graxa e sangue seco. Seus olhos iam de mim para Maya, e de Maya para a porta entreaberta do depósito de limpeza atrás de nós. Eu me mantive firme. Meus ombros estavam tensos, mas meu rosto era uma máscara de gelo. Eu já encarei fuzis maiores que o dele em desertos muito mais distantes, e aprendi cedo que o medo é um cheiro que predadores como o DG sentem à distância. Eu não ia recuar e nem mesmo abaixar a cabeça. — Alguém tem alguma coisa pra me dizer? — A voz dele saiu baixa, vibrando com uma ameaça que fez os "crias" ao redor dele se ajeitarem, desconfortáveis. Percebi o movimento de Maya ao meu lado. Ela abriu a boca, o peito ainda subindo e descendo freneticamente, pronta para soltar alguma desculpa impulsiva que nos condenaria. Tomei a frente antes que ela pudesse falar. — A escola foi atacada, como você mesmo está vendo. Esse lugar virou um campo de guerra. — falei, minha voz saindo estável, desprovida de qualquer tremor. Dei um passo à frente, ocupando o campo de visão do DG. — As salas começaram a ser metralhadas sistematicamente. Não havia protocolo, não havia saída. Precisávamos de um lugar seguro. DG inclinou a cabeça, os olhos estreitos focados nos meus. Ele deu um passo lento na minha direção, o cano da arma balançando levemente. Ele tentava me intimidar com o olhar, mas o que DG não sabia é que nada mais nessa vida me intimidava. A não ser a pequena figura parada atrás de mim. — Um lugar seguro. Tipo um armário de vassouras, professor? — O armário era o único lugar com paredes de concreto maciço e sem janelas — respondi, sem vacilar um segundo. — Ficamos presos entre o fogo cruzado do pátio e o avanço dos caras pelo corredor principal. Sair dali seria um banho de sangue, e eu não ia deixar a sua irmã virar estatística no chão desta escola. E eu não estava afim de morrer hoje. O dono do morro soltou um sorriso curto, sem nenhum rastro de humor. Ele parou a centímetros de mim, o cheiro de suor e guerra emanando dele. — Você é muito herói para um professor de poesia, Gabriel. Qual é a sua intenção com a minha pequena? Tá querendo ganhar um bônus com o chefe? Senti o sangue pulsar na minha têmpora, mas mantive o olhar travado no dele. — Minha única intenção era manter a nós dois vivos. Se você acha que eu estava aproveitando o tiroteio para fazer política, você está subestimando o tamanho da merda que aconteceu aqui fora. Não quero bónus DG. O clima esquentou. Um dos soldados do DG deu um passo à frente, mas Maya se atravessou entre nós, empurrando levemente o braço do irmão. — Para com isso, Douglas! — Ela exclamou, a voz recuperando a autoridade de "patroa", embora ainda houvesse um resquício daquela urgência do beijo no fundo dos seus olhos. — O Gabriel me tirou da linha de tiro. Eu ia sair correndo para o pátio como uma i****a, e ele me segurou. Eu só estou aqui, inteira, porque ele encontrou aquele lugar e me obrigou a ficar lá. — Disse que estava segura. — Porque ele achou um lugar que me mantivesse segura. DG encarou a irmã por um longo tempo. A tensão era tão densa que eu quase esperava que o ar entrasse em combustão. Lentamente, ele relaxou a pegada no fuzil e soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto sujo. — Tá certa, pequena. Se você tá dizendo... — Ele voltou a olhar para mim, mas desta vez não havia apenas fúria; havia um reconhecimento relutante. — Obrigado por proteger ela, professor. De verdade. Minha irmã é que tenho de mais importante. Ele se aproximou e bateu com a mão pesada no meu ombro, um gesto que parecia um agradecimento, mas que eu senti como um aviso de posse. — Mas fica o aviso: eu agradeço uma vez. Mas eu também estou de olho. Sempre. Se eu descobrir que esse armário guardava mais do que produtos de limpeza, a gente vai ter uma conversa bem diferente. — Entendido — assenti, sentindo o peso daquela sentença. Mas o fato de eu não vacilar um instante se quer pareceu convencer DG. DG deu a ordem para os homens limparem a área e puxou Maya pelo braço. — Vamos embora. O morro ainda tá quente. Maya foi levada, mas antes de dobrar o corredor, ela olhou por cima do ombro. O olhar que trocamos não foi de professor e aluna, nem de protetor e protegida. Foi o olhar de dois cúmplices que tinham acabado de escapar da morte e mergulhado em algo muito mais perigoso. Eu fiquei ali, sozinho no corredor destruído, sentindo o rastro do perfume dela ainda impregnado na minha pele. Eu tinha sobrevivido à invasão, mas sabia que, a partir daquele beijo no escuro, minha sentença de morte já tinha sido assinada. E o pior: eu não me arrependia de nenhuma vírgula.
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