Prólogo: As Mãos Sujas de Tinta e Sangue

327 Words
Gabriel O sangue nas minhas mãos não cheirava a ferro. Tinha um odor adocicado e metálico, como vinho derramado sobre um lençol de seda. Não importava quantas vezes eu lavasse, esfregasse ou tentasse apagar; a mancha invisível continuava ali, me definindo, me transformando no homem que eu nunca quis ser. Era madrugada. O asfalto da Rodovia Presidente Dutra estava úmido, refletindo as luzes vermelhas e azuis da sirene que se aproximava. Eu estava no volante de um carro roubado, com o coração batendo uma marcha descompassada no peito. A adrenalina pulsava nas minhas veias, misturada ao torpor do choque e ao gosto amargo da liberdade recém-conquistada. Liberdade que veio a um preço alto demais. No banco do passageiro, um exemplar rasgado de "Dom Casmurro" estava aberto na página 127, com uma marca de sangue na borda. Ironia do destino: eu sempre fui o mestre das palavras, o professor que acreditava no poder da redenção através dos livros. Agora, minhas mãos estavam sujas de um tipo de tinta que nenhum papel seria capaz de absorver. — Por que você fez isso, Gabriel? — a voz feminina, fria e calculista, ecoava na minha mente. A dona daquela voz estava a quilômetros de distância agora, talvez até debaixo da terra, mas suas palavras eram uma sentença que eu carregaria para sempre. Eu pisei no acelerador, deixando o passado para trás como um rastro de fumaça e pneus queimados. Meu destino era um lugar onde ninguém me conhecesse, onde o nome "Gabriel" fosse apenas um eco sem significado. Um lugar onde os meus crimes se perdessem em meio a outros, maiores e mais visíveis. Eu estava fugindo. Fugindo da lei, da culpa, e principalmente, da imagem daquele rosto que me assombraria por todas as noites. Eu ia para a favela. Não para salvar ninguém, mas para tentar me esconder de mim mesmo. Eu era um professor que tinha se tornado um assassino. E o inferno daquela noite ainda estava por começar.
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