Gabriel
Caminhar pela favela à luz do dia era uma experiência sensorial diferente. Se à noite o morro era um organismo sombrio e perigoso, de manhã ele era um formigueiro humano. Mas, mesmo entre o vai e vem de trabalhadores e crianças com uniformes escolares, eu sentia o peso.
O olhar vigilante dos "olheiros" nos cantos dos becos me seguia. Eles não escondiam os rádios comunicadores na cintura. Eu mantinha a cabeça erguida, os livros apertados contra o peito como um escudo. Eu sabia que cada passo meu estava sendo relatado para alguém.
Sou novo aqui, mas sei como as coisas funcionam. O comando desse lugar sabia quem eu era, embora, eu não fizesse ideia e quem eles são. Sei apenas que a favela é comandada por um tal de DG. Seus homens estão espalhados por aqui, e são justamente eles quem me vigiam.
Sem contar que, ser a novidade sempre chama a atenção e embora eu quisesse correr para longe de atenção, é impossível. Todos aqui me olham de forma curiosa e eu só tento me manter nas sombras a todo o momento
A escola comunitária era um prédio de dois andares, com paredes pintadas de um azul descascado e desenhos de grafite que tentavam dar cor àquele lugar cinza. Assim que cruzei o portão de ferro, o ambiente mudou. O barulho das crianças correndo no pátio abafava o som das motos lá fora.
— Professor Gabriel? — Uma mulher de meia-idade, com óculos pendurados no pescoço e um sorriso cansado, veio ao meu encontro. — Sou a Dona Vera, a diretora. Estávamos ansiosos. Não é todo dia que alguém com o seu currículo aceita subir aqui.
— O prazer é meu, Dona Vera. Eu precisava de um novo começo — respondi, e a ironia daquela frase quase me fez amargar a voz.
— Bom, espero que se de bem.
— Só quero um local para trabalhar tranquilo — respondo perdido em pensamento.
Percebi dona Vera parar e me encarar.
— Tranquilidade e favela geralmente não andam juntos. — me disse voltando a andar.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, senti outros pares de olhos. Duas professoras que conversavam perto da sala dos mestres interromperam o assunto para me observar passar. Elas sorriram, um burburinho discreto acompanhando minha passagem. Em qualquer outra vida, eu talvez tivesse retribuído com um charme casual, mas ali, eu só sentia o desconforto de ser notado demais. Para um homem que precisava ser invisível, eu estava chamando atenção demais.Começava a me questiona se me esconder em meio a favela teria sido uma boa opção.
— Sua sala é a 4-B. Terceiro ano do ensino médio — Vera explicou, abrindo a porta de madeira rangente. — Eles são… intensos, Professor Gabriel. Mas têm bons corações. Se precisam de cuidado e atenção... Boa sorte.
Entrei na sala. O giz espalhado pelo chão, as carteiras riscadas e o ventilador de teto que girava com um barulho metálico me deram uma estranha sensação de paz. Era um cenário que eu dominava. Comecei a organizar meus livros sobre a mesa de carvalho antigo, sentindo o suor secar na gola da minha camisa de botão.
Os alunos começaram a entrar. Grupos de garotos rindo alto, meninas trocando segredos, o caos típico de uma manhã de segunda-feira. Eu cumprimentava cada um com um aceno de cabeça, tentando gravar os rostos, procurando por um disfarce de normalidade entre eles.
— Bom dia, professor. Você é o novo? — um rapaz perguntou, sentando-se na primeira fila.
— Sou eu mesmo. Gabriel — respondi, abrindo o diário de classe ainda em branco.
Eu estava organizando os volumes de poesia que usaria na aula quando o barulho da sala subiu de tom e depois, subitamente, suavizou. Foi como se a pressão atmosférica tivesse mudado.
Levantei os olhos do material e a vi.
Ela estava parada no vão da porta, com uma mochila de couro pendurada em um ombro só. Desta vez, não havia moto, nem poeira, nem fuzis à mostra. Ela vestia a camiseta branca do uniforme da escola, mas mesmo aquela peça comum parecia diferente nela. O cabelo estava preso em um r**o de cavalo alto, revelando a linha delicada do seu pescoço, mas o olhar… o olhar continuava o mesmo. Defensivo. Intenso. Melancólico.
O resto da sala pareceu sumir. Ela caminhou em silêncio, ignorando os sussurros dos colegas, e sentou-se na última carteira, ao lado da janela.
Eu a observei por um segundo a mais do que o profissionalismo exigia. Ela pegou um caderno, mas não olhou para mim. Ficou encarando a paisagem de barracos lá fora, com os dedos brincando nervosamente com o pingente de ouro no pescoço.
Abri o diário de classe na primeira página. Meu dedo deslizou pela lista de nomes até parar na letra M.
Eu finalmente saberia quem ela era. Não que isso importasse. Não importa.
— Bom dia a todos — comecei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Vamos começar a chamada.
Eu precisava ler aquele nome em voz alta. Eu precisava quebrar o silêncio entre nós.