Língua afiada

1004 Words
Maya O sol de meio-dia castigava o asfalto, mas no "escritório" do meu irmão, o clima era sempre gélido. Eu estava sentada em um banco alto, observando o movimento dos radinhos, fingindo que estava concentrada em um jogo qualquer no celular, mas meus ouvidos estavam atentos a cada passo que subia a ladeira. Eu não deveria estar ali, mas o DG tinha acordado com um humor estranho. E, no mundo dele, humor estranho significava "ficar de olho em tudo". DG as vezes estava mais protetor do que o normal. Isso nem é mais novidade para mim. Principalmente se ouves-se algum algo em suas costas. O que significava que haveria um alvo nas minhas também. Eu entendo a pressão que ele sofre. Crescemos juntos e eu sei o quanto o comando da favela exige dele. Nunca errar, nunca vacilar, nunca dar as costas, nunca confiar demais em ninguém. Ser o dono tinha seu benefícios, mas estava longe de ser simples. Perdemos nossos pais cedo, o que significa que a responsabilidade do DG veio cedo também. — Ele está chegando — um dos vapores anunciou, ajeitando o fuzil no ombro e me tirando dos meus pensamentos. Meu coração deu um solavanco. Eu sabia de quem ele estava falando. Ouvi DG mandando chamar por ele. Meu irmão sempre no controle de tudo, então é claro que mais cedo ou mais tarde ele ia mandar chamar o novo morador. Tentei manter minha expressão de tédio, mas minhas mãos ficaram frias. Gabriel apareceu na entrada da sala. Ele ainda usava a camisa de botão, mas as mangas estavam dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e com algumas tatuagens. Não sabiam o que eram, não dava para ver com clareza. Ele caminhava entre os homens armados com uma calma que beirava o insulto. Me pergunto de onde esse homem saiu afinal? Ele não olhava para o chão. Ele olhava nos olhos de cada soldado, como se estivesse contando quantos passos faltavam para o perigo. Ele nem sequer vacilava com as armas expostas. Quando ele me viu, seus olhos castanhos brilharam por um microssegundo, mas ele não parou. Ele não me cumprimentou. — Então você é o cara que lê livros — a voz do DG ecoou, grave e carregada de deboche. Meu irmão estava sentado em uma cadeira de plástico, com uma cerveja na mão e a pistola sobre a mesa. — Chega aí, professor. Gabriel parou a dois metros dele. A postura dele era impecável. — Me disseram que você queria falar comigo. Como posso ajudar? — a voz de Gabriel era tão despreocupada que me assustava. O DG deu uma risada curta e seca, trocando um olhar com os seguranças. — Eu quero saber que tipo de homem sobe aqui pra ensinar poesia ganhando miséria, tendo um currículo de faculdade de elite. O que você está escondendo, Gabriel? Sou cria de longa data para saber quando alguém está se escondendo. E você parece alguém com motivos para isso. O ar pareceu sumir do lugar. Eu me levantei lentamente, tentando parecer indiferente, caminhando até a mesa como se fosse apenas buscar uma água. — Só estou em busca de um lugar calmo. — Calmo? — DG caiu na risada — Está ai duas palavras que não cabem na mesma fresa. Calma e favela. — Talvez no meu modo de ver as coisas, essas palavras caibam sim —diz tranquilo. — Deixa o cara em paz, Douglas — falei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — É só um professor. Não gasta sua saliva com quem não oferece perigo. e está bem na cara que ele não oferece perigo algum. Lancei um olhar cortante para Gabriel, um aviso silencioso para que ele ficasse de boca fechada e fosse embora. Mas ele não aceitou a minha ajuda. — Sua irmã tem razão, DG — Gabriel disse, e o jeito que ele pronunciou "sua irmã" fez meu estômago dar voltas. — Eu sou apenas um professor. — Um professor que esconde algo — DG fala com um sorriso de canto de boca. — Mas, sobre o que eu escondo... todos nós temos nossos túmulos particulares, não temos? Eu imagino que os seus sejam bem mais profundos que os meus. O silêncio que se seguiu foi de morte. Ouvi o clique de uma trava de segurança sendo liberada por um dos soldados atrás de Gabriel. Meu irmão inclinou-se para frente, os olhos fixos nos de Gabriel. O desafio estava lançado. — Você tem a língua afiada — DG murmurou, um sorriso perigoso surgindo nos lábios. — Gosto de gente que não se borra. Mas cuidado... aqui no morro, a gente corta línguas que falam demais. — Eu só falo o necessário — Gabriel rebateu, e pela primeira vez, ele olhou diretamente para mim. Não era um olhar de socorro. Era um olhar de... reconhecimento. — E o necessário hoje é dizer que a Maya é a melhor aluna que eu já tive. Seria um desperdício se o ambiente dela a impedisse de voar. DG gargalhou. — Voar? Ela é uma Albuquerque, professor. Ela não voa, ela comanda. Pode ir. Mas saiba que eu estou te lendo. Se eu encontrar uma vírgula errada na sua história... você vira ponto final. Gabriel assentiu, deu meia volta e começou a descer a ladeira. Eu fiquei ali, parada, sentindo o rastro do perfume dele lutar contra o cheiro de pólvora do lugar. — Ele é diferente, não é, pequena? — DG perguntou, me observando com uma intensidade que me deu calafrios. — Ele é um i****a que vai acabar morto se não aprender a fechar a boca — respondi, tentando disfarçar o tremor nas minhas mãos enquanto voltava para o meu celular. Mas, por dentro, eu estava em chamas. Gabriel tinha acabado de encarar o homem mais perigoso do Rio de Janeiro sem piscar. E o pior: ele nem mesmo parecia se importar. Eu estava ligada àquele homem por um fio invisível de perigo, e eu não tinha a menor vontade de cortá-lo.
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