Fragmentos

1241 Words
Maya Eu ainda sentia o gosto amargo da indiferença de Gabriel na garganta quando atravessei os portões da escola. A humilhação de ter sido rejeitada com aquela frieza profissional queimava mais do que qualquer tiro de raspão. Não consigo acreditar que para ele o que aconteceu foi um nada. Pode ser sim um erro, mas nós dois estávamos lá e sei o que sentimos. O meu foco mudou assim que vi Tico encostado em uma moto, a poucos metros da saída. Ele não estava com a cara de deboche de sempre. Estava tenso, os olhos vasculhando a rua antes de se fixarem em mim. Ele apenas balançou a cabeça, um sinal silencioso: Temos o que você pediu. — Sobe aí — ele disse, entregando-me o capacete. — A gente conversa na sua casa. Aqui as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm fuzis. — Espero que sejam boas noticas. — A gente conversa assim que chegar. — avisa. Me acomodo na mota e passo minhas mãos por sua cintura. Tico é meu amigo de infância, então sabemos que não ha problemas com isso. Se relance, vejo de canto de olho o Professor Gabriel saindo da escola. Seu olhar estava na minha direção, mas nem tive tempo de me importar porque Tico logo arrancou com a moto dali. Fui o caminho todo em silêncio, sentindo o vento bater no rosto, mas a minha mente estava a quilômetros dali, presa naquele armário de limpeza. Assim que entramos na mansão e garantimos que Douglas ainda estava na rua resolvendo as pendências da invasão, Tico tirou um envelope pardo de dentro da jaqueta. Estava amassado, como se tivesse sido escondido às pressas. — Maya, eu vou te falar uma coisa e quero que você leve a sério — Tico começou, jogando o envelope sobre a mesa de centro. — Eu tive que acionar um contato pesado na civil pra conseguir isso. O cara quase caiu da cadeira quando puxou o nome. Abri o envelope com as mãos trêmulas. Dentro, havia algumas folhas de papel sulfite com o timbre da Secretaria de Segurança, mas muitas partes estavam tarjadas de preto. Uma foto de Gabriel — mais jovem, de barba feita e um olhar que parecia carregar o peso do mundo — grampeada no topo. — "Gabriel Souza Lima" — li em voz alta. — Isso é... comum demais. — Exatamente. Um nome pra passar batido — Tico apontou para uma das linhas não rasuradas. — Olha a formação dele. Ele não é só historiador, Maya. O cara passou por uma academia militar de elite antes de cursar letras. Tem registro de baixa por "motivos psicológicos e disciplinares" há cinco anos. Mas olha o que vem depois. Meus olhos correram pelas linhas. Havia um hiato de três anos onde não constava nada. Nenhuma compra, nenhum endereço, nenhum emprego. Nada. — Ele sumiu do mapa? — perguntei, sentindo um frio na espinha. — Ele não sumiu. Ele foi limpo. O CPF dele ficou inativo por quase mil dias. E quando voltou a aparecer, ele estava em outra cidade, com esse diploma de professor sob o braço. Mas tem uma coisa que o meu contato conseguiu pescar no sistema interno de ocorrências arquivadas. Tico hesitou, olhando para a porta antes de se aproximar mais. — Teve um incidente em uma unidade de elite no Sul. Algo que foi abafado pelo alto comando. Envolvia uma operação que deu errado e uma contagem de corpos que não batia com o relatório oficial. O nome dele estava lá, mas foi removido por "sigilo de segurança nacional". Olhei para a foto dele. O Gabriel daquela imagem não era o professor que recitava poemas; era o homem que me prensou contra a parede e disse que eu estava acordando um monstro. — O que ele fez, Tico? Ele matou alguém que não devia? — Ou foi ele quem atirou ou então ele viu alguém matando. O ponto é: o homem que está dando aula de literatura lá embaixo é um fantasma, Maya. Ele tem treinamento de inteligência e combate. Se ele está aqui, escondido no morro, é porque quem está atrás dele tem poder suficiente para derrubar até o DG se souber onde ele está. Fechei o envelope, sentindo o peso do papel nas minhas mãos. Gabriel não era apenas um homem fugindo do passado; ele era um segredo de estado caminhando entre nós. — Ele disse que eu não deveria abrir portas que não podem ser fechadas — sussurrei para mim mesma. — Ele tem razão — Tico me olhou com gravidade. — Maya, se o Douglas descobre que você está escondendo um cara com esse tipo de bagagem aqui dentro, ele apaga o professor hoje mesmo. E se quem está atrás dele descobrir que ele está aqui... a invasão de ontem vai parecer brincadeira de criança. Larga isso. Esquece esse cara. — Eu não posso — respondi, guardando o envelope debaixo da minha almofada. — Maya, por favor. Não posso esconder isso do DG.— Tico deu um passo à frente, o rosto suado e o olhar suplicante. — Minha cabeça também tá na reta. Se acontece uma merda e o patrão descobre que eu sabia de quem era esse cara... — Pode sim — disse a ele, levantando-me e parando na frente dele, sustentando o olhar. — Tico, por favor. Finge que nunca viu esses documentos. Por favor, pelo menos até eu ter mais informações sobre ele. . Ele soltou um suspiro frustrado, passando a mão pelo cabelo raspado. — Maya, não me diz que você... que você tá sentindo alguma coisa por esse fantasma. — Eu nada, Tico. Não inventa história — rebati rápido demais, a defensiva clara na minha voz. — Eu só quero saber com quem estamos lidando antes de causar uma guerra desnecessária. O DG é impulsivo, você sabe. Se ele souber da metade disso, ele mata o Gabriel e atrai a atenção de quem quer que esteja atrás dele direto para o nosso portão. É segurança, só isso. Tico me encarou por um longo tempo, o silêncio sendo preenchido apenas pelo som distante de um escapamento de moto lá fora. Ele sabia que eu estava mentindo, e eu sabia que ele sabia. — Tá bom — ele cedeu, a voz carregada de uma derrota amarga. — Eu vou ficar de bico calado. Mas escuta o que eu tô te dizendo: esse cara não é um homem, Maya. Ele é uma granada sem pino. E você está segurando ela com as mãos nuas só pra ver quando vai explodir. Ele saiu sem dizer mais nada, a porta batendo com um estalo seco que pareceu um aviso. Fiquei sozinha. Caminhei até a janela e olhei para o morro lá embaixo, as luzes começando a piscar conforme a noite caía. Gabriel estava em algum lugar daquelas vielas, escondido em sua kitnet, lendo seus livros e fingindo que não era uma arma de guerra. Pressionei a mão contra a almofada onde a ficha estava escondida. Eu tinha acabado de trair a confiança do meu irmão por um homem que, horas antes, me tratou como uma estranha na sala de aula. Eu estava jogando um jogo perigoso, e o prêmio era um mistério que poderia me destruir. Mas, enquanto eu lembrava da força dos dedos de Gabriel na minha cintura, eu soube que não voltaria atrás. Se ele era uma granada, eu queria estar bem perto quando o pino finalmente caísse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD