Toca do Lobo

804 Words
Maya. O jantar com Douglas foi estranhamente normal, considerando que a escola ainda tinha marcas de bala nas paredes e o morro ainda parecia em alerta total. Comemos em silêncio por um tempo e depois assuntos aleatorios surgiram. Sabia que meu irmão estava cansada dos ultimos dias, mas ele jamais assumiria isso de forma tão aberta. Não demorou para avisar que ia subir pro quarto. Arrumei o que precisava e logo subi, o encontrei se arrumado, perfumado e com aquele relógio de ouro que ele só usava quando queria impressionar alguém. — Vai sair de novo, chefia? — provoquei, encostada no batente da porta do quarto, tentando manter a voz leve, quase divertida. — Quem é a vítima da vez? Alguma moradora nova ou as antigas resolveram te dar uma chance? Douglas riu, ajeitando a gola da camisa social escura. O rosto dele, geralmente endurecido pelo crime, suavizava um pouco quando estávamos só nós dois. — É só mais uma, pequena. Na verdade não é daqui. — Jura? E a onde a conheceu? — Por ai. — Hummm... por isso tá todo arrumado assim. — digo rindo. — Preciso me regular e esquecer essas merda um pouco, entende? O clima anda pesado, hoje eu só quero uma bebida gelada e uma companhia que não me peça relatório de carga, ou que fique babando o meu ovo porque sou o dono do morro. Quero alguém mais normal dessa vez. — Sei bem como é — dei um sorriso cúmplice, embora meu estômago desse um nó só de pensar no envelope escondido lá em cima. — Volto amanhã pro café, tá? — Ele beijou o topo da minha cabeça, um gesto de carinho que sempre me lembrava que, para o mundo, ele era o DG, mas para mim, ele ainda era o irmão que me defendia na infância. — Tranca tudo. Pedi pro Tico deixar dois moleques de ronda no portão de baixo. Qualquer coisa, me liga no rádio. — Pode deixar. Divirta-se, "Don Juan" do morro. Pera... ela sabe que você é o dono daqui né? — Mais ou menos. — diz divertido. — Se cuida tá. — Tá. Aproveita a sua noite. Vou trancar tudo, tomar um banho e dormir. Amanha não tem aula, mas a sempre serviço na comunidade esperando a gente. — Isso é uma verdade. Douglas se despediu mais uma vez e saiu. Esperei o som do motor da caminhonete dele sumir ladeira abaixo. O silêncio que se seguiu na mansão era ensurdecedor. Subi as escadas correndo, recuperei o envelope pardo debaixo da minha almofada e senti o peso daquela decisão. Eu estava indo contra todos os alertas do Tico, contra a ordem do meu irmão e, principalmente, contra o bom senso que gritava que eu deveria ficar longe daquele homem. Mas a imagem de Gabriel me prensando contra a parede do armário era um fantasma que eu não conseguia exorcizar. Vesti um casaco escuro com capuz, ascendi e apague algumas luzes só para que os seguranças vissem que eu estava indo dormi. Saí pelos fundos, conhecendo cada atalho que os seguranças não vigiavam. O morro à noite era um organismo vivo; o cheiro de churrasco, o som dos paredões de som ao longe e o brilho das luzes improvisadas. Desci as vielas com pressa, o coração batendo na garganta, até chegar à parte mais baixa e sombria, onde as kitnets se amontoavam umas sobre as outras. Tomei todo o cuidado para não ser vista. Parei diante da porta de madeira descascada. Não havia número, mas eu sabia que era ali. O silêncio vindo de dentro era absoluto. Respirei fundo e bati três vezes. Firmes. Sem volta. Ouvi um movimento súbito lá dentro. Passos rápidos, quase imperceptíveis, seguidos pelo estalo metálico de uma trava sendo liberada. A porta se abriu com um solavanco. Gabriel apareceu no vão, mas não era o professor de literatura que eu conhecia. Ele estava sem camisa, o suor brilhando nos ombros largos, e seus olhos... seus olhos estavam dilatados, injetados de uma adrenalina pura e letal. Em uma fração de segundo, vi a mão dele recuar de algo que parecia ser uma arma em cima da mesa atrás dele. Ele parecia assustado, como se estivesse esperando a morte bater à sua porta, mas, ao mesmo tempo, estava pronto para a guerra. Quando suas pupilas focaram e ele percebeu que era eu, o choque transformou sua expressão em algo ainda mais perigoso. — Maya? — A voz dele saiu como um rosnado, entrecortada. — O que diabos você está fazendo aqui a essa hora? Eu não respondi com palavras. Apenas levantei o envelope pardo, deixando que a luz fraca do corredor iluminasse o timbre da Secretaria de Segurança. O rosto dele empalideceu no mesmo instante. O jogo de gato e rato tinha acabado. Agora, era sobrevivência pura.
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