Helena nunca gostou muito de aniversários. Havia neles algo de artificial, como se as pessoas se obrigassem a lembrar de que estavam envelhecendo em conjunto, mascarando o desconforto com bolo e balões. Mas Clara era incansável. Desde a época da faculdade, insistia que celebrar a vida era uma forma de resistir ao peso dos dias. E Helena, já acostumada à persistência da amiga, sempre acabava cedendo. Naquela noite, o pequeno apartamento de Clara estava iluminado por luzes coloridas penduradas nas prateleiras, o cheiro de vinho e temperos se misturava ao ambiente, e uma música suave preenchia os espaços entre as conversas. Helena usava um vestido simples, azul-marinho, que combinava com seu jeito discreto. Recebia abraços, sorrisos, parabéns ditos em tom alegre, mas por dentro mantinha um d

