A Vila, o Hotel e o Coração

1475 Words
A Vila, o Hotel e o Coração Vanessa acordou com a luz dourada filtrando-se pelas cortinas de linho do quarto da Casa Venturini. O aroma suave de café fresco e pão assado vinha da cozinha, acompanhado por sons abafados de vozes em italiano. Aquele era um dos seus primeiros dias na vila, e, apesar de tudo ainda parecer novo, havia algo estranhamente familiar na atmosfera acolhedora. Ela se espreguiçou devagar, sentindo no peito uma calma que há muito não experimentava. Desceu as escadas e encontrou Donatella na cozinha, cantarolando baixinho uma canção antiga enquanto arrumava a mesa para o café. — Dormiu bem, cara mia? — perguntou ela, com um sorriso gentil. — Como uma pedra — respondeu Vanessa, rindo. — Esta casa é mágica. — É o coração de tudo isso aqui. E você é bem-vinda nele. Vanessa agradeceu com o olhar. Sentou-se, e logo Donatella a serviu com café forte, queijo fresco, figos cortados e uma fatia de bolo caseiro. — Hoje você vai visitar o hotel, não é? — perguntou a matriarca, sentando-se ao seu lado. — Sim. Rafael... quer que eu conheça os espaços antes da reforma. Ele mencionou que tem um salão com vista para o lago. Donatella arqueou uma sobrancelha, com aquele ar de mãe que sabe mais do que diz. — Ah, sim... aquele salão é especial. Foi onde o pai deles pediu minha mão em casamento. Vanessa se surpreendeu. — Sério? — Sim. Rafael herdou o jeito dele — disse Donatella, tocando o colar no pescoço com carinho. — Silencioso, intenso... mas quando ama, ama com tudo. Vanessa desviou os olhos, mordendo um pedaço de figo, tentando esconder o rubor. Aquilo era exatamente o que ela sentia: que Rafael já carregava esse tipo de amor — mesmo sem palavras. --- Mais tarde, Rafael a esperava em frente ao hotel — um edifício antigo, de pedra clara, com janelas arqueadas e varandas floridas. A construção precisava de restauração, mas havia alma em cada detalhe. Ele usava uma camisa azul escura e calças de linho cinza. Estava encostado no capô de um carro antigo, e assim que a viu, seus olhos brilharam de forma contida, como se sorrissem antes mesmo dos lábios. — Pronta para o grande tour? — perguntou ele, abrindo a porta para ela. — Sempre. Dentro, a luz natural preenchia os corredores e os salões vazios. Havia tapeçarias antigas desbotadas, móveis envelhecidos e tetos altos com detalhes de gesso que precisavam de cuidado. — Quero manter o charme original — explicou Rafael, enquanto caminhavam. — Mas trazer conforto moderno. Serão doze suítes. Um restaurante com chefs locais. Um jardim de inverno para eventos. E este… — ele abriu duas portas duplas com ferragens douradas — é o salão principal. Vanessa entrou devagar. O espaço era amplo, com janelas do chão ao teto, cortinas de veludo empalidecidas pelo tempo, e uma lareira central de pedra talhada. Mas o que a fez parar foi a vista. — Uau... Diante das janelas, o lago se estendia como um espelho prateado, cercado por colinas verdes e vinhedos. Havia cisnes nadando, e flores silvestres cresciam à beira da água. — Rafael... isso é de tirar o fôlego. Ele não respondeu de imediato. Ficou observando o reflexo dela na janela. — Imagine casamentos aqui. Votos trocados ao pôr do sol. Música ecoando por este salão. Vanessa virou-se para ele, sentindo o ar se transformar entre os dois. — Está planejando tudo isso sozinho? — Não mais — respondeu ele, com os olhos presos aos dela. — Agora tenho você. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pela brisa suave entrando pelas janelas abertas. Vanessa deu um passo à frente, sem saber se era a arquitetura, a paisagem ou ele que a fazia se sentir tão... entregue. — Acho que esse salão será o coração do hotel — disse ela, com um sorriso. — E vamos começar desenhando em torno disso. — É exatamente o que eu esperava ouvir — respondeu Rafael, pegando um dos blocos de desenho e um lápis que havia deixado sobre a mesa improvisada no canto. Ele a estendeu a ela com um olhar provocador. — Mostre-me como você vê esse lugar. Vanessa pegou o lápis e começou a esboçar. Em segundos, esqueceu que ele a observava, concentrada em formas e traços. Mas Rafael não tirava os olhos dela. Ela era arte e artista ao mesmo tempo. Quando terminou o esboço inicial e ergueu os olhos, Rafael estava mais perto. Muito mais perto. — Você transforma tudo que toca — murmurou ele. Ela sentiu o ar esquentar. — E você... me deixa sem chão. Ele sorriu de leve, inclinando-se. Não a beijou ainda. Mas havia algo mais íntimo naquele olhar do que qualquer beijo já dado. — Isso é só o começo, Vanessa Lourenzo. E ela soube, com o coração batendo forte, que ele tinha razão. Capítulo 4 – Entre Promessas e Passados Vanessa caminhava pelas ruas de paralelepípedos da vila com o caderno de desenhos colado ao peito. A manhã estava clara, perfumada com lavanda e terra molhada. Ao seu redor, as casas com varandas floridas e roupas estendidas ao vento pareciam saídas de um sonho. Mas havia algo martelando dentro dela. Um sentimento bom, avassalador. Algo que a fazia sorrir sozinha — e ao mesmo tempo, temer o próximo passo. Ela estava se apaixonando. Por Rafael. Pela vila. Por aquele projeto que, mais do que uma reforma, estava virando um capítulo inteiro da sua vida. Chegando à Casa Venturini, ela passou pelo portão de ferro forjado e encontrou Donatella no jardim, colhendo flores. — Buongiorno, mia cara — disse a matriarca com aquele sotaque doce. — Como foi no hotel ontem? — Incrível. Rafael tem uma visão clara... e confia no meu trabalho. É raro. Donatella sorriu e entregou-lhe uma rosa vermelha. — Confiança é a semente do amor. Vanessa recebeu a flor com um sorriso agradecido. — A senhora acha que... é cedo demais para sentir isso? — O tempo pouco importa quando os corações se reconhecem — respondeu Donatella, voltando-se para as flores. — E você sabe quem é quem agora, não sabe? Vanessa riu. — Sim. Rafael é canhoto. E ele tem aquele olhar... como se carregasse poesia nos olhos. — Exatamente como o pai dele. --- Naquela tarde, Rafael a levou para visitar o vinhedo da família. Era um campo aberto, de verdes infinitos, com parreiras se estendendo sob o céu dourado. — Quando eu era garoto, costumava correr por aqui com Luciano — disse ele, tocando uma folha com carinho. — Meu pai dizia que as uvas escutavam as conversas. Então aprendemos a guardar segredos até sairmos do vinhedo. Vanessa riu, encantada com a lembrança. — E hoje? Ainda tem segredos? Rafael olhou para ela com intensidade. — Talvez. Mas quero que você descubra todos. Caminharam por entre as parreiras, os dedos roçando de leve. Nenhum dos dois disse mais nada. O silêncio era confortável. Quase mágico. Mas quando voltaram à casa, a paz foi interrompida. --- Luciano os esperava na varanda com o celular na mão e a expressão fechada. — Rafael, precisamos conversar. Rafael franziu a testa, mas assentiu. Entraram, deixando Vanessa com Donatella. Minutos depois, ele voltou com o rosto mais sério do que o habitual. — Aconteceu algo? — perguntou Vanessa, se aproximando. — Uma ligação de Nova York — respondeu ele. — Uma construtora quer comprar o terreno do hotel. E estão dispostos a pagar muito. Vanessa ficou sem palavras. — Mas... e o projeto? Tudo o que você sonhou? — Eu não aceitei nada — disse ele, firme. — Mas o conselho da família quer que eu ao menos escute a proposta. Vão enviar alguém para conversar pessoalmente. — E o que você quer? Ele a olhou como se procurasse a verdade dentro dela. — Eu quero esse hotel. Com você. Quero ver cada detalhe tomar forma pelas suas mãos. Quero te ver criando aqui... vivendo aqui. Vanessa sentiu o coração bater mais forte. Mas algo dentro dela se apertou. E se aquilo tudo fosse tirado deles? — Então lute por isso, Rafael. Lute por nós. Ele sorriu, pegando sua mão. — Isso já está decidido. Eu só precisava ouvir isso de você. --- Mais tarde naquela noite, Vanessa estava em seu quarto, revendo os esboços. Mas sua mente estava longe. Uma notificação no celular a tirou da distração. “Oferta confirmada. Ligaremos amanhã para fechar os termos.” Era um e-mail da empresa onde ela trabalhava antes. Uma proposta para retornar a Nova York com um novo cargo — e um salário dobrado. Ela fechou o e-mail com o coração em conflito. Ali estava ela. Dividida entre duas vidas. Entre um sonho antigo... e um amor novo. E sabia que, a partir daquele momento, tudo o que sentia por Rafael seria posto à prova.
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