ENCONTRO EM NOVA YORK

1715 Words
Capítulo 1 – Encontro em Nova York O céu de Manhattan exibia tons dourados e rosados, anunciando o fim de mais um dia agitado. As luzes dos prédios começavam a acender-se uma a uma, como se competissem com as cores do entardecer. Era outono, e as árvores do Central Park formavam um corredor de folhas alaranjadas que se desprendiam ao menor sopro do vento. Vanessa Lourenço caminhava com um propósito. Tinha acabado de sair de uma reunião desgastante com um cliente indeciso e precisava de uma dose de inspiração — ou pelo menos de paz. Foi então que se lembrou da exposição que acontecia numa galeria discreta, na 57th com a Lexington. Arte era o seu refúgio. Entrou na galeria de vidro, sentindo o calor acolhedor do ambiente contrastar com o frio lá fora. A iluminação suave, as molduras minimalistas e os quadros cheios de emoção falaram diretamente ao seu espírito. Estava absorta diante de uma tela em tons de vinho e cobre quando sentiu alguém se aproximar. Não com passos — mas com presença. — Interessante como algo aparentemente caótico pode transmitir tanto equilíbrio, não acha? A voz era firme, grave e aveludada, com um leve sotaque estrangeiro. Vanessa virou-se, encontrando um homem de postura impecável, cabelos escuros bem cortados e olhos de um cinza intenso, como céu de tempestade. — Eu diria que é a arte imitando a vida — respondeu ela, num tom meio brincalhão. Ele sorriu de leve, como se apreciasse a resposta. Estendeu a mão. — Rafael Venturini. — Vanessa Lourenço. Ao toque, algo entre eles pareceu estalar. Um calor sutil percorreu os dedos dela, e por um instante, Vanessa teve a sensação de já tê-lo encontrado antes — ou talvez fosse apenas aquela aura impossível de ignorar. — Você é artista? — ele perguntou. — Designer de interiores. Tento traduzir histórias através dos espaços. — Então transforma sentimentos em paredes, móveis e luz. Ela sorriu, surpresa com a sensibilidade da observação. — Nunca pensei por esse ângulo. Mas é uma boa definição. Conversaram por alguns minutos, como se o tempo ao redor tivesse desacelerado. Rafael não revelou muito, mas ouvia com atenção. Não fazia perguntas invasivas, mas seus comentários indicavam um homem observador, inteligente e com uma mente profundamente analítica. Vanessa, acostumada a lidar com pessoas que falavam demais e escutavam de menos, sentia-se curiosamente à vontade. — Vai levar alguma obra? — ele perguntou, quando ela voltou a observar o quadro inicial. — Ainda não sei. Acho que esta ainda está escolhendo se quer ir comigo — respondeu, divertida. Rafael inclinou a cabeça, analisando-a com um misto de admiração e cautela. Em seguida, tirou um cartão do bolso do sobretudo e lhe estendeu. — Se decidir visitar a Itália algum dia, tenho um projeto que pode lhe interessar. Está no início, mas exigirá uma mente sensível. E visão artística. Ela pegou o cartão. “Villa di Fiore — Rafael Venturini.” O nome soava como uma promessa envolta em mistério. — Obrigada. Mas isso parece coisa grande. Projeto pessoal? — De família. Mas escolho com quem trabalho com muito cuidado. Havia uma tensão suave na troca de olhares. Algo não dito, mas claramente compreendido. — Foi um prazer te conhecer, Rafael Venturini — disse ela, após alguns instantes. — Todo meu, Vanessa Lourenço. Ela saiu da galeria com o coração disparado e o cartão preso entre os dedos como um convite silencioso ao improvável. Não sabia se voltaria a vê-lo. Mas a lembrança dos olhos cinzentos e da voz que soava como um sussurro elegante ficaria gravada. Mal sabia ela que aquele encontro seria apenas o primeiro traço de uma nova história — e que seu destino já começava a ser redesenhado na paisagem de uma vila italiana onde o amor, como a arte, desafiaria todas as lógicas. Capítulo 2 – A Chegada à Villa di Fiore O carro serpenteava pelas estradas estreitas da Toscana enquanto Vanessa absorvia, maravilhada, a paisagem. As colinas cobertas por vinhedos, ciprestes perfeitamente alinhados e casinhas de pedra com janelas floridas pareciam tiradas de um cartão-postal. Ela se sentia dentro de um sonho antigo — um que nunca teve, mas que agora parecia seu por direito. O motorista, um senhor simpático chamado Ettore, indicou com um gesto a estrada de cascalho que levava à propriedade dos Venturini. — Villa di Fiore. A Signora Donatella está esperando — disse ele com um sorriso. Ao ver o portão de ferro forjado se abrir, Vanessa inspirou fundo. O casarão era de uma beleza clássica e imponente, com heras subindo pelas paredes e jardineiras transbordando flores. Tudo exalava elegância atemporal. Donatella Venturini, uma mulher de cabelos grisalhos impecavelmente penteados, vestido de linho e olhos afiados, a recebeu com os braços abertos. — Finalmente! Já ouvi muito sobre você, Signorina Lourenço. — Espero que só coisas boas — respondeu Vanessa, sorrindo com leve nervosismo. — Rafael tem bom gosto. Em muitas coisas. A frase ficou no ar, ambígua, enquanto Donatella conduzia a jovem para dentro. No salão principal, Vanessa m*l teve tempo de se acomodar quando um homem entrou. O mesmo rosto que vira em Nova York. Ela se levantou num salto. — Rafael? O homem arqueou a sobrancelha e sorriu de lado. — Luciano. Mas já vi que meu irmão te impressionou. Ela ficou vermelha, sem saber para onde olhar. — Me perdoe, vocês são idênticos. Luciano deu uma risada baixa. — Não se preocupe. Acontece o tempo todo. Donatella, que observava com divertimento contido, tomou a palavra. — Rafael é canhoto, minha cara. Luciano, destro. Simples assim. Vai descobrir rápido que, apesar da aparência, são opostos. Vanessa riu sem graça, tentando recuperar o controle. Mas a confusão que a invadira tinha outra origem — mais profunda, mais íntima. --- Capítulo 3 – Um Projeto, Dois Mistérios Nos dias seguintes, Vanessa mergulhou no projeto do hotel com determinação. Rafael mantinha-se distante, surgindo apenas em reuniões breves, sempre com postura firme e palavras precisas. Ele evitava contato visual por tempo demais e nunca se demorava perto dela. Era como se estivesse em guarda — ou fugindo. Luciano, em contrapartida, era presença constante, simpático, curioso. Fazia comentários sobre as escolhas de tecido, sugeria alterações — sempre de forma leve, provocativa. Vanessa gostava dele, mas algo nela sabia que o homem do olhar tempestuoso ainda era o que mexia com seu equilíbrio. Certa tarde, enquanto revisava amostras no salão envidraçado, Rafael entrou silencioso. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e um caderno de anotações. Canhoto, sim. Confirmado. — Precisamos conversar sobre os painéis do saguão. Ela assentiu, tentando parecer profissional. Mas quando os dedos dele tocaram a amostra de mármore ao mesmo tempo que os dela, uma corrente percorreu seu braço. Ele também sentiu — Vanessa viu no pequeno tremor do maxilar. — Eu gostei da sua escolha — disse ele, a voz um pouco rouca. — Pensei em algo que trouxesse aconchego sem perder a sofisticação. — Você conseguiu. Mas há algo mais que quero mostrar. Ela o seguiu até os fundos da propriedade. Passaram por um pomar, um pequeno lago com carpas e chegaram a uma estufa. Rafael destrancou a porta de ferro e abriu caminho. Lá dentro, rosas de todas as cores — mas especialmente vermelhas — perfumavam o ar com uma doçura quase irreal. — Eu cultivo elas há anos. Ninguém sabe disso, exceto minha mãe e… agora você. Vanessa o olhou surpresa. — Você é mesmo um homem de segredos. Ele encarou-a por um instante. — Alguns merecem ser guardados. Outros… talvez compartilhados, se a pessoa certa aparecer. --- Capítulo 4 – Bilhetes e Silêncios Na manhã seguinte, Vanessa encontrou um buquê de rosas vermelhas em sua porta. Preso ao laço, um bilhete escrito à mão: “Penso em você mais do que deveria. – R.” Ela guardou o cartão no diário, o coração batendo descompassado. Nos dias que seguiram, outros buquês chegaram, às vezes acompanhados de chocolates artesanais, outras apenas com frases simples: “Você está maravilhosa hoje.” “Seu sorriso ilumina a sala.” “Ainda quero te mostrar um pôr do sol daqui. Em silêncio.” Vanessa começou a procurá-lo com o olhar sempre que passava pelos corredores. Em suas reuniões, Rafael mantinha o semblante sério, mas os olhos... ah, os olhos o traíam. Donatella apareceu certa manhã com uma bandeja de chá. — Minha cara, Rafael nunca enviou flores a ninguém antes. — Como sabe que são dele? — Porque só ele escreve com aquela leve inclinação para a esquerda. E porque ele só envia flores que cultivou. Vanessa sorriu, apertando o cartão junto ao peito. — Ele está tentando me dizer algo? Donatella pousou a mão sobre a dela. — Rafael não tenta. Ele sente. Profundamente. E com medo. Mas quando ama, minha querida… ama para sempre. --- Capítulo 5 – Sob o Céu da Toscana Era fim de tarde quando Vanessa subiu ao terraço do casarão para ver o pôr do sol, como fazia sempre que precisava respirar. Mas naquela vez, Rafael já estava lá, apoiado na balaustrada, olhando o horizonte tingido de fogo. — Vim roubar seu lugar — disse ela com um sorriso tímido. — Não, você chegou exatamente na hora certa. O silêncio que se instalou entre eles era confortável. As folhas sussurravam histórias com o vento. Pássaros cortavam o céu em revoada. — Nunca trouxe ninguém para esta parte da casa — ele falou, por fim. — Por quê? — Porque nunca quis dividir o que é mais meu. Ela se virou para ele, com o rosto suavemente iluminado pela luz dourada do entardecer. — E por que agora? Rafael não respondeu com palavras. Em vez disso, estendeu a mão, oferecendo uma rosa vermelha recém-colhida. — Porque, mesmo que eu tente negar, você já está aqui — disse ele, tocando suavemente o lado esquerdo do peito. Vanessa sentiu os olhos marejarem. Pegou a flor, levou ao nariz, depois ao coração. — E se eu disser que também já estou em você? Ele se aproximou, a tensão entre eles pulsando como um fio invisível. Quando seus lábios se tocaram, foi como se o mundo inteiro se curvasse em silêncio, respeitando aquele instante. O céu da Toscana, pintado de laranja e violeta, testemunhou o primeiro beijo de um amor que já era inevitável.
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