CAPÍTULO 8

987 Words
Ana ainda sentia os lábios de Victor nos seus, o gosto dele gravado em sua pele como um pecado irremovível. Mas a verdade era clara: aquele beijo não foi apenas desejo. Foi uma advertência. Victor Moretti não era um homem qualquer. Ele era um predador meticuloso, um rei em um trono de sombras, alguém que movia peças no tabuleiro da cidade como se fosse o dono de tudo. E agora, de alguma forma, ele a tinha em suas mãos. Os dias seguintes foram um turbilhão. Ana tentou retomar sua investigação, buscando qualquer pista que ligasse Victor aos crimes sussurrados pela cidade. Mas, quanto mais cavava, mais percebia o quanto ele era intocável. Seu nome nunca aparecia diretamente em nada ilegal. Empresas de fachada, laranjas, contratos blindados. Cada fio solto que ela puxava levava a um beco sem saída. Era frustrante. E mais do que isso assustador. Porque Victor Moretti não era apenas poderoso. Ele era onipresente. Seus contatos se espalhavam por toda parte polícia, políticos, empresários. Ele não só influenciava o jogo; ele escrevia as regras. E isso ficou ainda mais claro quando ele a chamou naquela noite. O Dono da Noite estava mais vivo do que nunca. As luzes vermelhas refletiam nos copos de cristal, o cheiro de álcool e desejo flutuava pelo ar. Mas, diferente das outras vezes, Ana não se sentia apenas uma intrusa. Agora, todos olhavam para ela de um jeito diferente. Sussurros seguiam seus passos. Curiosidade. Inveja. Medo. Ela não era apenas uma jornalista tentando se infiltrar. Agora, era a mulher que Victor Moretti havia reivindicado. E aquilo a fazia sentir-se inquieta. Ela foi conduzida até o mezanino privado, onde ele a esperava. Dessa vez, não havia sorrisos, não havia flertes. Apenas um olhar intenso, carregado de domínio e algo que ela não conseguia decifrar. — Sente-se. — Ele ordenou, e Ana obedeceu antes mesmo de perceber. O poder dele era assim. Silencioso. Irresistível. Victor pegou um copo de uísque, girando o líquido âmbar entre os dedos antes de encará-la. — Você está tentando descobrir coisas sobre mim, Ana. O coração dela parou por um segundo. Frio percorreu sua espinha. Mas ela manteve a compostura. — Isso é paranoia sua, Moretti? Ele sorriu, um sorriso lento e perigoso. — Não preciso de paranoia quando já sei a verdade. Ana sustentou o olhar dele, tentando manter o controle. — E o que vai fazer sobre isso? Victor se inclinou para frente, os olhos cravando-se nos dela. — Vou te dar uma escolha. Ela engoliu em seco. — Que escolha? — Ou você para essa investigação… — Ele deslizou um dedo pelo braço dela, um toque leve, mas carregado de aviso. — Ou eu faço questão de te mostrar o que significa realmente estar no meu mundo. Ana sentiu a garganta seca. — E se eu disser que não tenho medo? Victor riu baixo, a voz grave ressoando no peito dela. — Então, dolcezza, eu terei que te ensinar. E naquele momento, Ana percebeu algo ainda mais perigoso do que o poder de Victor. Ela queria aprender. ******** Ana não deveria estar ali. Ela sabia disso no instante em que percebeu que não estava sozinha no corredor reservado do clube. A música distante abafava os sons reais da noite, criando uma falsa sensação de segurança. Mas algo estava errado. Vozes. Baixas. Tensões contidas. Ela se manteve na sombra, o coração acelerado, quando avistou Victor do outro lado do salão privado. Ele não estava relaxado como de costume. Seu corpo estava rígido, o olhar frio, intransponível. Não havia charme, não havia sedução, Apenas poder cru. Diante dele, um homem ajoelhado. Tremendo. — Eu te avisei. — A voz de Victor era baixa, controlada e infinitamente mais assustadora por isso. — Ninguém me rouba, Ninguém me trai. Ana sentiu o estômago se revirar. Aquilo não era um teatro. Era uma sentença. O homem tentou falar, gaguejou desculpas, promessas vazias. Victor não reagiu, Não gritou, Não perdeu o controle. Ele apenas observava, como um juiz que já decidiu o destino do réu. Com um simples gesto de mão, dois seguranças avançaram. O som seco do impacto ecoou pelo espaço fechado. Um grito foi contido. Outro pedido de misericórdia morreu no ar. Ana levou a mão à boca, o corpo paralisado. Victor se aproximou lentamente do homem caído, agachou-se à sua frente e segurou seu queixo com firmeza. — Você esqueceu quem manda na escuridão. Ele soltou o rosto do homem como quem descarta algo sem valor e se levantou, ajeitando o paletó com calma, Nenhuma emoção, Nenhum arrependimento. Ana sentiu medo, Um medo real, visceral. Mas junto dele. algo ainda mais perturbador. Fascinação. Porque aquele não era um monstro descontrolado. Victor era pior. Ele era consciente, Preciso, Dono de si. E então, ele virou o rosto. Os olhos de Victor encontraram os dela na penumbra. Por um segundo apenas um o tempo parou. Ana soube. Ele sempre soube que ela estava ali. Victor não demonstrou surpresa. Apenas caminhou em sua direção, os passos firmes, o olhar escuro e intenso. Os seguranças se afastaram imediatamente, deixando-os sozinhos. — Você viu mais do que devia. — Ele disse, sem raiva, Apenas constatação. Ana tentou falar, mas a voz falhou. — Está com medo? — Victor perguntou, aproximando-se até que ela pudesse sentir o calor dele. Ela assentiu, incapaz de mentir. Ele ergueu a mão e tocou o rosto dela com os dedos frios, contrastando com o incêndio que aquele toque provocou. — É bom. — Ele murmurou. — O medo mantém você viva. E ligada a mim. Ana sentiu as pernas fraquejarem. — Esse é o seu mundo.— Ela sussurrou. Victor inclinou-se, os lábios próximos demais. — Agora é o seu também. E naquele instante, Ana entendeu a verdade mais perigosa de todas. Ela não estava apenas investigando Victor Moretti. Ela estava sendo lentamente puxada para dentro da escuridão dele. E, mesmo apavorada, ela não conseguiu se afastar.
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