O silêncio depois da violência era sempre o pior.
Ana estava sentada no sofá da cobertura, abraçando os próprios joelhos, enquanto a cidade seguia viva do outro lado das janelas.
Sirenes distantes, buzinas, risos abafados , o mundo não tinha parado, mesmo depois do sangue derramado no clube.
Mas ela tinha parado.
Algo não encaixava.
Desde o ataque, Victor estava diferente.
Atencioso demais.
Presente demais.
Não a deixava sozinha nem por minutos.
Sempre havia alguém por perto,um segurança discreto no corredor, um carro seguindo à distância, portas que se fechavam sozinhas com códigos que ela não conhecia.
Proteção, ele dizia.
Mas Ana sentia aquilo se transformar lentamente em cerco.
Ela tentou ignorar a sensação.
Disse a si mesma que era o trauma falando.
Que ver Victor matar havia distorcido sua percepção.
Que o medo precisava de um alvo, e o mais fácil era ele.
Mesmo assim, a suspeita crescia como um veneno lento.
Victor entrou na sala sem fazer barulho.
Ela percebeu sua presença antes de vê-lo sempre assim.
Ele tinha esse efeito sobre o espaço.
— Você não dormiu — disse ele, observando-a.
— Nem você — respondeu Ana, sem levantar os olhos.
Victor se sentou à frente dela, apoiando os antebraços nos joelhos.
— O ataque te abalou mais do que eu esperava.
Ana finalmente o encarou.
— Não foi só o ataque.
Ele permaneceu em silêncio, esperando.
— Parece que tudo já estava, preparado — continuou ela, escolhendo as palavras com cuidado.
— Como se você soubesse que algo ia acontecer.
Os olhos de Victor se estreitaram quase imperceptivelmente.
— Eu sempre espero o pior.
— Não — ela rebateu.
— Você reagiu rápido demais. Seus homens estavam posicionados. As saídas foram fechadas em segundos.
Victor se levantou, caminhando até a janela.
— Isso se chama experiência.
Ana sentiu o nó no estômago apertar.
— Ou controle absoluto da situação.
Ele se virou devagar.
O olhar não era agressivo, mas havia algo novo ali.
Avaliação.
— O que você está insinuando? — perguntou.
Ana respirou fundo.
— Que talvez aquele ataque não tenha sido tão inesperado quanto pareceu.
O ar ficou pesado.
Victor caminhou até ela, parando à sua frente.
A mão dele subiu lentamente até o rosto dela, tocando sua bochecha com cuidado demais para aquele momento.
— Você acha que eu colocaria você em risco de propósito? — perguntou, a voz baixa, perigosa.
Ela engoliu em seco.
— Eu não quero achar isso.
Victor segurou o rosto dela com mais firmeza agora, obrigando-a a encará-lo.
— Então não ache.
Os olhos dele eram intensos, profundos e indecifráveis.
— Ana — continuou — o mundo em que você entrou é feito de testes. De lealdade. De sobrevivência. — O polegar dele deslizou sob o queixo dela.
— E você está sendo testada agora.
O coração dela disparou.
— Testada por quem?
Victor sorriu de leve.
— Pela realidade.
Ele se afastou, deixando-a com a pergunta ecoando na mente.
Mais tarde, sozinha no quarto, Ana revisitou mentalmente cada detalhe do ataque.
O momento exato em que as luzes falharam.
O homem com quem Victor conversava segundos antes do primeiro tiro.
A expressão dele calma demais.
E se aquilo tivesse sido um aviso?
Ou pior, uma encenação?
Ana sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
Não. Victor era brutal, sim. Letal. Controlador.
Mas usá-la como peça de um jogo maior, isso ela se recusava a aceitar.
Ela se levantou e foi até o espelho.
O reflexo que encontrou a encarava com olhos mais duros, mais atentos.
Talvez o teste não fosse apenas dela.
Talvez fosse dele também.
E, naquele jogo silencioso de desconfiança e desejo, Ana percebeu a verdade mais inquietante de todas.
Quando se ama um homem como Victor Moretti, a linha entre proteção e manipulação é fina demais para ser vista a tempo.
E se ela estivesse errada, o preço seria a própria sanidade.
Mas se estivesse certa, então o perigo nunca esteve do lado de fora.
Estava de pé, diante dela, sorrindo como quem já sabia o resultado do teste.