CAPÍTULO 21

674 Words
O silêncio depois da violência era sempre o pior. Ana estava sentada no sofá da cobertura, abraçando os próprios joelhos, enquanto a cidade seguia viva do outro lado das janelas. Sirenes distantes, buzinas, risos abafados , o mundo não tinha parado, mesmo depois do sangue derramado no clube. Mas ela tinha parado. Algo não encaixava. Desde o ataque, Victor estava diferente. Atencioso demais. Presente demais. Não a deixava sozinha nem por minutos. Sempre havia alguém por perto,um segurança discreto no corredor, um carro seguindo à distância, portas que se fechavam sozinhas com códigos que ela não conhecia. Proteção, ele dizia. Mas Ana sentia aquilo se transformar lentamente em cerco. Ela tentou ignorar a sensação. Disse a si mesma que era o trauma falando. Que ver Victor matar havia distorcido sua percepção. Que o medo precisava de um alvo, e o mais fácil era ele. Mesmo assim, a suspeita crescia como um veneno lento. Victor entrou na sala sem fazer barulho. Ela percebeu sua presença antes de vê-lo sempre assim. Ele tinha esse efeito sobre o espaço. — Você não dormiu — disse ele, observando-a. — Nem você — respondeu Ana, sem levantar os olhos. Victor se sentou à frente dela, apoiando os antebraços nos joelhos. — O ataque te abalou mais do que eu esperava. Ana finalmente o encarou. — Não foi só o ataque. Ele permaneceu em silêncio, esperando. — Parece que tudo já estava, preparado — continuou ela, escolhendo as palavras com cuidado. — Como se você soubesse que algo ia acontecer. Os olhos de Victor se estreitaram quase imperceptivelmente. — Eu sempre espero o pior. — Não — ela rebateu. — Você reagiu rápido demais. Seus homens estavam posicionados. As saídas foram fechadas em segundos. Victor se levantou, caminhando até a janela. — Isso se chama experiência. Ana sentiu o nó no estômago apertar. — Ou controle absoluto da situação. Ele se virou devagar. O olhar não era agressivo, mas havia algo novo ali. Avaliação. — O que você está insinuando? — perguntou. Ana respirou fundo. — Que talvez aquele ataque não tenha sido tão inesperado quanto pareceu. O ar ficou pesado. Victor caminhou até ela, parando à sua frente. A mão dele subiu lentamente até o rosto dela, tocando sua bochecha com cuidado demais para aquele momento. — Você acha que eu colocaria você em risco de propósito? — perguntou, a voz baixa, perigosa. Ela engoliu em seco. — Eu não quero achar isso. Victor segurou o rosto dela com mais firmeza agora, obrigando-a a encará-lo. — Então não ache. Os olhos dele eram intensos, profundos e indecifráveis. — Ana — continuou — o mundo em que você entrou é feito de testes. De lealdade. De sobrevivência. — O polegar dele deslizou sob o queixo dela. — E você está sendo testada agora. O coração dela disparou. — Testada por quem? Victor sorriu de leve. — Pela realidade. Ele se afastou, deixando-a com a pergunta ecoando na mente. Mais tarde, sozinha no quarto, Ana revisitou mentalmente cada detalhe do ataque. O momento exato em que as luzes falharam. O homem com quem Victor conversava segundos antes do primeiro tiro. A expressão dele calma demais. E se aquilo tivesse sido um aviso? Ou pior, uma encenação? Ana sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Não. Victor era brutal, sim. Letal. Controlador. Mas usá-la como peça de um jogo maior, isso ela se recusava a aceitar. Ela se levantou e foi até o espelho. O reflexo que encontrou a encarava com olhos mais duros, mais atentos. Talvez o teste não fosse apenas dela. Talvez fosse dele também. E, naquele jogo silencioso de desconfiança e desejo, Ana percebeu a verdade mais inquietante de todas. Quando se ama um homem como Victor Moretti, a linha entre proteção e manipulação é fina demais para ser vista a tempo. E se ela estivesse errada, o preço seria a própria sanidade. Mas se estivesse certa, então o perigo nunca esteve do lado de fora. Estava de pé, diante dela, sorrindo como quem já sabia o resultado do teste.
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