O clube pulsava como sempre.
Luzes baixas, corpos se movendo em sintonia com a música grave, o cheiro de álcool caro e perigo misturado no ar.
O Dono da Noite parecia intocável, uma fortaleza disfarçada de prazer.
Ana observava tudo de um dos níveis superiores, apoiada no parapeito, tentando convencer a si mesma de que aquela noite seria comum.
Mas o pressentimento veio cedo demais.
Não foi um grito.
Nem um disparo imediato.
Foi o silêncio estranho que precedeu o caos , uma falha mínima no ritmo da música, um segundo a mais de escuridão quando as luzes piscaram.
Victor estava no centro do salão, conversando com um homem que Ana não reconhecia.
Ele parecia relaxado demais.
Alertas demais, percebeu ela tarde demais.
Então aconteceu.
O primeiro tiro ecoou seco, rasgando o som da música.
Vidros estilhaçaram.
Gritos explodiram como uma reação em cadeia.
O clube mergulhou no caos em segundos.
— Victor! — Ana gritou, mas sua voz se perdeu no pânico.
Ela viu homens surgirem das laterais, armas em punho, avançando com precisão.
Aquilo não era um assalto.
Era um ataque planejado.
E foi então que ela viu Victor mudar.
O homem que até então dominava com palavras e olhares desapareceu.
O que surgiu em seu lugar foi algo frio, letal, absoluto.
O olhar dele escureceu, o corpo se moveu com uma velocidade assustadora.
Não havia hesitação.
Não havia emoção.
Apenas execução.
Victor puxou uma arma de onde Ana nem sequer percebeu que ele carregava.
Deu ordens rápidas, secas.
Seus homens responderam instantaneamente, como uma extensão da vontade dele.
— Fechem as saídas. Protejam o perímetro — disse, a voz firme, mortal.
Ana recuou, o coração disparado, observando enquanto Victor avançava sem medo algum.
Ele não se escondia.
Ele caçava.
Um dos invasores tentou surpreendê-lo por trás.
Victor não olhou.
Apenas se virou no último segundo e atirou.
Sem piedade. Sem dúvida.
O corpo caiu pesado no chão.
O sangue se espalhou pelo piso reluzente do clube como uma assinatura silenciosa do que Victor realmente era.
Ana sentiu o estômago revirar.
Ela nunca tinha visto alguém matar daquele jeito, não como um ato desesperado, mas como uma decisão natural.
Outro homem tentou fugir. Victor o alcançou com facilidade, prensando-o contra a parede.
Não houve discussão.
Apenas uma pergunta curta, fria.
— Quem mandou?
O homem cuspiu sangue, rindo nervoso.
Victor atirou antes que ele terminasse de rir.
Ana levou a mão à boca, lutando para não gritar.
Esse é o homem que eu beijei.
Esse é o homem em quem eu confiei.
Quando tudo terminou, o clube parecia um campo de guerra.
Sirenes distantes se aproximavam.
Os corpos eram retirados rapidamente.
O caos foi substituído por uma eficiência assustadora, como se aquilo já tivesse acontecido antes.
Victor subiu as escadas em direção a ela.
Quando seus olhos encontraram os de Ana, algo mudou.
O predador cedeu lugar ao homem que a conhecia.
Mas a mancha de sangue em sua camisa era real demais para ser ignorada.
— Você está bem? — perguntou, segurando o rosto dela com firmeza.
Ana tremia.
Não sabia se de medo, choque ou da brutal clareza que acabara de nascer dentro dela.
— Eles morreram — sussurrou.
— Porque escolheram o lado errado — respondeu ele, sem emoção.
Ela afastou o rosto, lágrimas queimando seus olhos.
— Você matou sem pensar.
Victor segurou o queixo dela, obrigando-a a encará-lo.
— Eu pensei. — A voz saiu baixa.
— Pensei em manter você viva.
O silêncio entre eles era pesado demais.
— Agora você entende — continuou ele.
— O mundo em que entrou não tem portas de saída. Só sobreviventes.
Ana sentiu algo se quebrar dentro dela.
Não era mais ignorância.
Não era mais fascínio cego.
Era consciência.
Ela tinha visto o monstro.
E ele não tentou escondê-lo.
— Eu não posso fingir que isso não aconteceu — disse ela, a voz fraca.
Victor aproximou a testa da dela, a respiração ainda carregada de adrenalina.
— Não quero que finja — murmurou.
— Quero que aceite.
Ana fechou os olhos.
Naquele momento, compreendeu a verdade que mudava tudo, envolver-se com Victor Moretti não era um risco, era uma sentença.
E, ainda assim, quando abriu os olhos e encontrou o olhar dele, percebeu o que mais a aterrorizava.
Ela não queria fugir.
A virada tinha acontecido.
E o caminho de volta, já não existia.