A noite caiu lenta sobre a cobertura, envolvendo tudo num silêncio espesso.
Ana estava sentada à mesa de vidro, o notebook aberto diante dela, a tela iluminava o rosto tenso.
Documentos antigos, anotações soltas, nomes riscados, fragmentos de uma vida que ela jurou investigar, agora espalhados como fantasmas que se recusavam a descansar.
Ela passou a mão pelo cabelo, exausta.
Aquilo já não era apenas jornalismo. Nunca tinha sido.
Desde que aceitara o pacto, algo dentro dela havia mudado.
Não era só medo era conforto perigoso.
Segurança comprada com silêncio.
Proteção trocada por limites borrados.
Ana fechou os olhos por um instante e se perguntou, pela primeira vez com honestidade c***l.
Em que momento eu deixei de querer a verdade, e passei a querer ele?
O som de passos a fez estremecer.
Victor surgiu na porta do escritório improvisado, sem anunciar presença.
Vestia uma camisa escura, mangas arregaçadas, o olhar atento pousando imediatamente na tela do notebook.
— Você ainda guarda isso — disse, sem acusação, apenas constatação.
Ana respirou fundo.
— São anotações antigas.
Victor se aproximou lentamente, parando atrás dela.
Não tocou.
Ainda assim, ela sentiu o corpo reagir à presença dele, como se estivesse sendo envolvida por uma sombra quente.
— Antigas não significa mortas — murmurou ele.
Ela girou a cadeira para encará-lo.
— Você prometeu que não iria me impedir de pensar.
— E não impeço — respondeu.
— Mas penso junto.
Victor apoiou uma mão na mesa, inclinando-se levemente.
Os olhos escuros percorreram os arquivos abertos.
— Você está se perguntando se cruzou uma linha que não tem volta.
Ana engoliu em seco.
— Estou me perguntando se traí tudo o que eu acreditava.
Victor se endireitou, cruzando os braços.
— Moralidade é um luxo para quem nunca precisou sobreviver — disse com frieza.
— Você viveu tempo demais achando que o mundo se divide em certo e errado.
Ela sentiu um nó se formar no peito.
— E você acha que não existe certo e errado?
Victor a encarou por longos segundos.
— Acho que existe poder, e consequências.
Ele se aproximou mais, parando à frente dela.
— Você quer continuar investigando? — perguntou, direto.
— Ou quer continuar comigo?
A pergunta não era um ultimato explícito. Era pior. Era um espelho.
Ana sentiu o peso daquela escolha esmagar seus pensamentos.
Investigar significava expor Victor.
Significava romper o pacto.
Significava se colocar novamente em risco e admitir que tudo o que sentia por ele talvez fosse uma mentira conveniente.
Mas ficar.
Ficar significava enterrar verdades.
Silenciar a própria consciência.
Aceitar que o fascínio, o desejo e a proteção tinham vencido.
— Eu não sei quem estou me tornando — ela confessou, a voz baixa.
Victor estendeu a mão e segurou seu queixo, obrigando-a a olhar para ele.
O toque não foi bruto, mas foi definitivo.
— Você está se tornando alguém que entende o mundo como ele realmente é — disse.
— E isso assusta.
Ana fechou os olhos, sentindo a respiração dele perto demais.
— E se eu me perder nisso?
Victor encostou a testa na dela, a voz quase um sussurro.
— Então eu te encontro.
Ela abriu os olhos, o coração disparado.
Aquela promessa era tudo ao mesmo tempo, proteção, ameaça, dependência.
Victor soltou o queixo dela e se afastou.
— Decida com calma — completou.
— Mas saiba de uma coisa, Ana.
Se você continuar cavando, vai encontrar ossos demais.
Alguns não merecem ser desenterrados.
Ele saiu, deixando o silêncio tomar conta do espaço.
Sozinha outra vez, Ana encarou o notebook.
O cursor piscava na tela, insistente, como se pedisse uma escolha.
Ela percebeu então a verdade que mais temia admitir, a maior batalha já não era entre ela e Victor, era entre a mulher que buscava a verdade, e aquela que começava a desejar a escuridão.
E talvez apenas talvez alguns segredos estivessem sendo enterrados não por medo, mas por vontade própria.