CAPÍTULO 19

654 Words
A noite caiu lenta sobre a cobertura, envolvendo tudo num silêncio espesso. Ana estava sentada à mesa de vidro, o notebook aberto diante dela, a tela iluminava o rosto tenso. Documentos antigos, anotações soltas, nomes riscados, fragmentos de uma vida que ela jurou investigar, agora espalhados como fantasmas que se recusavam a descansar. Ela passou a mão pelo cabelo, exausta. Aquilo já não era apenas jornalismo. Nunca tinha sido. Desde que aceitara o pacto, algo dentro dela havia mudado. Não era só medo era conforto perigoso. Segurança comprada com silêncio. Proteção trocada por limites borrados. Ana fechou os olhos por um instante e se perguntou, pela primeira vez com honestidade c***l. Em que momento eu deixei de querer a verdade, e passei a querer ele? O som de passos a fez estremecer. Victor surgiu na porta do escritório improvisado, sem anunciar presença. Vestia uma camisa escura, mangas arregaçadas, o olhar atento pousando imediatamente na tela do notebook. — Você ainda guarda isso — disse, sem acusação, apenas constatação. Ana respirou fundo. — São anotações antigas. Victor se aproximou lentamente, parando atrás dela. Não tocou. Ainda assim, ela sentiu o corpo reagir à presença dele, como se estivesse sendo envolvida por uma sombra quente. — Antigas não significa mortas — murmurou ele. Ela girou a cadeira para encará-lo. — Você prometeu que não iria me impedir de pensar. — E não impeço — respondeu. — Mas penso junto. Victor apoiou uma mão na mesa, inclinando-se levemente. Os olhos escuros percorreram os arquivos abertos. — Você está se perguntando se cruzou uma linha que não tem volta. Ana engoliu em seco. — Estou me perguntando se traí tudo o que eu acreditava. Victor se endireitou, cruzando os braços. — Moralidade é um luxo para quem nunca precisou sobreviver — disse com frieza. — Você viveu tempo demais achando que o mundo se divide em certo e errado. Ela sentiu um nó se formar no peito. — E você acha que não existe certo e errado? Victor a encarou por longos segundos. — Acho que existe poder, e consequências. Ele se aproximou mais, parando à frente dela. — Você quer continuar investigando? — perguntou, direto. — Ou quer continuar comigo? A pergunta não era um ultimato explícito. Era pior. Era um espelho. Ana sentiu o peso daquela escolha esmagar seus pensamentos. Investigar significava expor Victor. Significava romper o pacto. Significava se colocar novamente em risco e admitir que tudo o que sentia por ele talvez fosse uma mentira conveniente. Mas ficar. Ficar significava enterrar verdades. Silenciar a própria consciência. Aceitar que o fascínio, o desejo e a proteção tinham vencido. — Eu não sei quem estou me tornando — ela confessou, a voz baixa. Victor estendeu a mão e segurou seu queixo, obrigando-a a olhar para ele. O toque não foi bruto, mas foi definitivo. — Você está se tornando alguém que entende o mundo como ele realmente é — disse. — E isso assusta. Ana fechou os olhos, sentindo a respiração dele perto demais. — E se eu me perder nisso? Victor encostou a testa na dela, a voz quase um sussurro. — Então eu te encontro. Ela abriu os olhos, o coração disparado. Aquela promessa era tudo ao mesmo tempo, proteção, ameaça, dependência. Victor soltou o queixo dela e se afastou. — Decida com calma — completou. — Mas saiba de uma coisa, Ana. Se você continuar cavando, vai encontrar ossos demais. Alguns não merecem ser desenterrados. Ele saiu, deixando o silêncio tomar conta do espaço. Sozinha outra vez, Ana encarou o notebook. O cursor piscava na tela, insistente, como se pedisse uma escolha. Ela percebeu então a verdade que mais temia admitir, a maior batalha já não era entre ela e Victor, era entre a mulher que buscava a verdade, e aquela que começava a desejar a escuridão. E talvez apenas talvez alguns segredos estivessem sendo enterrados não por medo, mas por vontade própria.
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