Ana
A cobertura estava silenciosa demais.
Não era um silêncio de paz, mas de controle.
Cada porta, cada câmera discreta, cada sombra parecia existir para lembrar Ana de uma verdade incômoda, ela não estava ali por acaso estava ali porque Victor permitia.
Ela caminhava pela sala ampla quando ouviu passos atrás de si. Não se virou. Já sabia quem era.
— Você tentou fugir — disse Victor, a voz grave, sem raiva, apenas constatação.
— E voltou.
Ana fechou os olhos por um instante.
— Não porque quis.
Ele parou a poucos metros.
— Não importa. — Uma pausa pesada.
— O que importa é que o mundo lá fora ficou pequeno demais para você.
Ela se virou então, encarando-o.
— Você me prendeu aqui.
Victor inclinou a cabeça, analisando cada microexpressão dela.
— Eu te mantive viva.
A frase caiu como um peso no peito de Ana.
— Você acha mesmo que isso é proteção? — ela perguntou.
— Ou é só obsessão disfarçada?
Victor caminhou lentamente até ela, como se cada passo fosse uma decisão calculada.
— Eu não disfarço o que sinto — respondeu.
— Nunca fiz isso.
Ele parou diante dela. Não a tocou. A proximidade já era suficiente para dominá-la.
— Há pessoas que sabem demais — continuou.
— E pessoas que se tornam vulneráveis por amar demais. — O olhar dele escureceu.
— Você conseguiu fazer as duas coisas.
Ana sentiu o estômago revirar.
— Então esse é o seu jogo? Me manter perto para me controlar?
— Para te proteger — corrigiu.
— Dos meus inimigos. Dos seus erros. — A voz baixou.
— E de você mesma.
Ela soltou uma risada curta, amarga.
— E quem me protege de você?
Por um instante, algo quase imperceptível passou pelo rosto de Victor.
Algo que não parecia controle, mas conflito.
— Ninguém — respondeu com honestidade c***l.
Victor se afastou, caminhando até o bar, servindo dois copos de uísque. Entregou um a ela.
Ana hesitou, mas pegou.
— Quero te fazer uma proposta — disse ele.
— Um pacto.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Pactos com você nunca são simples.
— Não — ele concordou.
— Mas são claros.
Victor a encarou com intensidade absoluta.
— Você fica. Para de fugir, para de me desafiar em segredo.
Em troca, eu garanto que ninguém toca em você.
Nenhuma ameaça chega perto. Nenhuma consequência cai sobre a sua cabeça.
Ana apertou o copo entre os dedos.
— E o preço?
Victor deu um meio sorriso.
— Honestidade. — Aproximou-se outra vez.
— E lealdade.
— Você quer que eu confie em você — ela murmurou.
— Quero que entenda — corrigiu.
— Enquanto estiver ao meu lado, você é intocável.
Ana respirou fundo.
Cada instinto gritava perigo.
Cada célula reconhecia a armadilha.
Ainda assim, havia verdade nas palavras dele.
Victor não prometia liberdade. Prometia segurança à sua maneira distorcida.
— E se eu aceitar — ela começou
isso significa que pertenço a você?
Victor não respondeu de imediato. Apenas ergueu a mão e tocou de leve o pulso dela, sentindo a pulsação acelerada.
— Significa — disse por fim que você para de fingir que não estamos ligados.
O silêncio se alongou. Ana percebeu que aquele momento definiria tudo.
Ela sabia:
Aceitar significava proteção mas também submissão emocional.
Recusar significava liberdade, e um perigo real.
— Eu fico — disse finalmente, a voz firme apesar do medo.
— Mas não porque você manda. Porque eu escolho.
Victor sorriu. Um sorriso lento, satisfeito, perigoso.
— Ótimo. — A mão dele subiu um pouco mais pelo braço dela.
— Então este é o nosso pacto.
Ana sustentou o olhar dele, mesmo sentindo o peso da decisão. No fundo, ela sabia:
Victor Moretti cumpriria sua promessa.
Mas também sabia que, ao ficar, ela acabara de se entregar não apenas ao homem, mas à obsessão que ele chamava de amor.
E talvez — apenas talvez — ele fosse mesmo o maior perigo de todos.