Ana
Ana não conseguia tirar da cabeça a sensação de que algo estava prestes a explodir.
Desde que Victor começara a interferir diretamente em sua vida, ela sentia cada passo observado, cada movimento analisado.
Mas ainda havia algo que ela não podia ignorar: a jornalista dentro dela não descansaria enquanto não soubesse a verdade.
Na calada da noite, ela voltou a se dedicar à pesquisa.
Arquivos digitais, registros financeiros, transações suspeitas, pequenas peças de um quebra-cabeça que indicavam algo muito maior e mais obscuro do que ela imaginava.
A cada linha lida, o desconforto crescia, mas também a adrenalina.
Aquilo era o que Ana sabia fazer melhor: descobrir segredos que os outros tentavam enterrar.
E então encontrou.
Um documento escondido em um servidor criptografado. Nomes, datas, transferências, contratos com pessoas perigosas.
Um mundo que nunca deveria ver a luz do dia e que ligava Victor Moretti a atividades que iam muito além de um simples clube noturno.
Ela sentiu o frio da realização subir pela espinha.
— Isso não é possível — murmurou para si mesma.
Antes que pudesse reagir, o telefone vibrou. Um número desconhecido. Com relutância, ela atendeu.
— Não deveria estar procurando por isso. — A voz de Victor era calma, mas carregava um peso que fez Ana engolir em seco.
— Como — começou, mas a voz dele a interrompeu.
— Eu sei. — Ele continuou, firme.
— Sei exatamente o que você encontrou.
O silêncio caiu como uma lâmina. Ela podia sentir cada respiração dele, mesmo à distância.
— Você está me ameaçando? — perguntou, tentando manter a compostura.
— Não. — Victor respondeu, a voz baixa, intensa.
— Estou te avisando.
Ele sabia que ela podia ir além, que
poderia buscar provas para expor tudo.
Mas Ana sentiu, no fundo, que Victor não toleraria traição.
Não importa se fosse investigação, curiosidade ou simples descuido.
— Então você… — Ana engoliu em seco — quer que eu esqueça tudo?
— Não. — A resposta dele veio fria, quase c***l.
— Quero que você saiba que qualquer passo em falso será registrado. E ninguém sai ileso de um erro comigo.
Ana sentiu o peso daquelas palavras. Victor não fazia ameaças vazias.
Ele marcava território, controlava as consequências de cada ação, antecipava movimentos.
Era perigoso, calculista, e ela sabia que o homem à sua frente não brincava com limites.
— E se eu não puder parar? — a voz dela saiu quase inaudível.
— Então terá que viver com o risco. — Ele inclinou a cabeça, silencioso por um instante.
— E entenderá que alguns segredos não foram feitos para serem revelados.
Ana desligou o telefone, sentindo o coração disparado.
O mundo que ela conhecia havia mudado. Victor Moretti não era apenas perigoso. Ele era absoluto.
Ela havia cruzado uma linha: sabia demais, desejava demais, e agora não havia volta possível.
Enquanto olhava para os papéis à sua frente, a mente girava entre medo e fascínio.
Cada documento era uma prova da escuridão de Victor e ao mesmo tempo, um lembrete c***l de que ele a possuía mais do que nunca.
E Ana compreendeu algo que não podia negar: naquele jogo de poder e segredos, a confiança tinha um preço alto demais e ela já estava pagando.
*****
Ana não levou nada além do essencial.
O coração batia descompassado enquanto fechava a mala pequena, mãos trêmulas, pensamentos atropelados pelo medo.
Os documentos impressos estavam escondidos entre roupas comuns, como se assim pudessem passar despercebidos.
Era inútil fingir calma. Ela sabia demais. E Victor sabia que ela sabia.
O apartamento parecia menor naquela madrugada.
Cada sombra parecia observá-la, cada ruído do prédio soava como um aviso tardio.
Ana respirou fundo antes de sair, repetindo para si mesma que ainda tinha escolha.
Eu preciso ir. Agora.
O táxi avançava pelas ruas ainda vazias quando a sensação a atingiu aquela pressão invisível no peito, o instinto gritando que algo estava errado.
Ela olhou pelo retrovisor.
Um carro escuro vinha logo atrás. Distância exata. Constante.
— Pode acelerar? — pediu ao motorista, tentando soar casual.
O carro atrás acelerou também.
O pânico tomou conta.
Ana pegou o telefone, mas antes que pudesse discar qualquer número, o táxi reduziu bruscamente.
Outro carro havia fechado a rua à frente.
Ela não precisou olhar para saber.
A porta se abriu do lado de fora.
O ar frio da madrugada entrou junto com a presença que ela já conhecia bem demais.
— Eu avisei — disse Victor, a voz baixa, firme, sem levantar o tom.
Ana saiu do carro, sentindo as pernas fracas.
— Você não pode fazer isso — sussurrou.
— Não pode me seguir, me cercar, me impedir de ir embora.
Victor aproximou-se devagar, os olhos escuros fixos nela, sem raiva aparente. Isso era o que mais assustava.
— Posso — respondeu.
— E fiz.
Ele fez um gesto para os homens ao redor se afastarem. Queria aquilo só entre eles.
— Você fugiu — continuou ele.
— Isso foi um erro.
— Eu estava com medo — Ana retrucou, a voz falhando.
— Você está me sufocando, Victor.
Por um segundo, algo diferente cruzou o olhar dele.
Não pena, Não culpa, Algo mais profundo e perigoso.
— Medo não muda o fato de que você é minha responsabilidade agora — disse.
— E eu não perco o que é meu.
Antes que ela pudesse reagir, Victor segurou seu braço.
Não foi bruto, mas foi irrecusável.
Ele a conduziu até o carro dele, abrindo a porta com um gesto firme.
— Você está me sequestrando — ela disse, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
Victor se inclinou até ficar à altura dela.
— Não. Estou te trazendo de volta antes que se machuque de verdade.
A cobertura parecia ainda mais silenciosa quando chegaram. Mais fechada. Mais definitiva.
As portas se fecharam atrás deles com um som que ecoou demais.
Victor tirou o casaco, colocando-o sobre o encosto da cadeira, como se tudo fosse apenas parte da rotina.
— A partir de agora — disse ele, virando-se para ela , você fica aqui.
Ana sentiu o chão sumir sob seus pés.
— Você não pode me manter presa.
— Não estou te prendendo — corrigiu.
— Estou te vigiando. Há uma diferença.
Ela riu, nervosa.
— Você chama isso de proteção?
Victor aproximou-se, parando a poucos centímetros.
— Chamo isso de sobrevivência. — A voz baixou.
— Para você e para mim.
Ele passou os dedos pelo queixo dela, obrigando-a a encará-lo.
— Fugir de mim não é uma opção, Ana. Nunca foi.
Ela desviou o olhar, o peito apertado, percebendo a dimensão do que tinha feito.
A fuga não a libertara apenas confirmara a verdade mais dura de todas:
Victor Moretti não a deixaria ir. Não agora. Talvez nunca.
E, trancada naquela casa sob vigilância constante, Ana entendeu que sua maior luta não seria escapar dele, mas resistir à parte de si que ainda reagia à sua presença.