CAPÍTULO 9

620 Words
O convite chegou poucas horas depois. Direto, Sem rodeios, Irrecusável. “Jantar. Minha cobertura. Às oito. Não se atrase.” Ana leu a mensagem mais de uma vez, o estômago se contraindo. Victor não perguntava. Ele convocava. E, depois do que ela testemunhara, fingir normalidade parecia impossível. Ela sabia: Victor não queria apenas conversar. Queria observá-la, Testá-la, Medir até onde o medo havia se misturado ao desejo. Mesmo assim, ela foi. A cobertura de Victor Moretti ficava no topo de um dos edifícios mais altos da cidade. O elevador subiu em silêncio absoluto, cada andar passando como uma contagem regressiva. Quando as portas se abriram, Ana sentiu o impacto imediato do lugar. Luxo frio. Vidros do chão ao teto. A cidade inteira se estendia lá embaixo, pequena, vulnerável. Como tudo que Victor dominava. Ele a esperava perto da janela, de costas, camisa preta perfeitamente ajustada ao corpo. Um copo de vinho na mão. A postura relaxada contrastava brutalmente com a lembrança do homem que ela vira horas antes. — Você veio. — Ele disse, sem se virar. — Você não me deu muita escolha. Victor sorriu de leve e finalmente a encarou. O olhar era intenso, avaliador, como se estivesse desmontando cada defesa invisível que ela ainda tentava sustentar. — Sempre há escolhas, Ana. Algumas só têm consequências mais interessantes. A mesa já estava posta. Duas taças. Velas. Um jantar preparado por um chef particular. Tudo calculado. Tudo sob controle. Eles se sentaram frente a frente. O silêncio inicial era pesado, carregado de coisas não ditas. Victor a observava comer, beber, respirar. Nada escapava ao olhar dele. — Você está diferente desde ontem. — Ele comentou, calmamente. Ana ergueu os olhos. — Depois do que eu vi, seria estranho não estar. Victor inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse aquilo. — E mesmo assim você está aqui. Ela apertou os dedos ao redor do talher. — Quero entender com quem estou lidando. — Não. — Ele corrigiu, com suavidade perigosa. — Você quer entender por que não conseguiu ir embora. O silêncio voltou, mais intenso. Ana sentiu o calor subir pelo corpo. Ele estava certo. Victor levantou-se e caminhou lentamente até ela, parando atrás de sua cadeira. Não tocou. Ainda. Sua presença era suficiente para fazê-la prender a respiração. — Você me viu no meu estado mais real. — Ele murmurou perto de seu ouvido. — E mesmo assim… continua aqui. — Talvez eu esteja cometendo um erro. Victor apoiou as mãos no encosto da cadeira, inclinando-se. — Você está fazendo uma escolha. Ele finalmente tocou dedos firmes em seu ombro, descendo lentamente pelo braço. Um toque calculado, possessivo, sem pressa. Ana sentiu o arrepio imediato, odiando-se por não recuar. — Você me teme. — Ele continuou. — Mas também me deseja. E isso te confunde. Ana fechou os olhos por um segundo. — Você usa isso contra mim. Victor sorriu, satisfeito. — Eu uso tudo a meu favor. Inclusive você. Ele se afastou, servindo mais vinho para ambos, como se não tivesse acabado de desmontá-la por dentro. — Este jantar não é um convite romântico. — Ele disse, voltando ao lugar. — É um aviso. Quanto mais perto de mim você ficar, menos controle terá. Ana o encarou, o coração acelerado. — E se eu disser que não vou recuar? O olhar de Victor escureceu, carregado de algo perigosamente próximo à posse absoluta. — Então eu vou garantir que você não queira mais fugir. A cidade brilhava lá fora, distante e silenciosa. Dentro daquela cobertura, Ana compreendeu que havia cruzado outra linha invisível. Não estava mais apenas observando a escuridão. Ela estava sentada à mesa com ela. E Victor Moretti… Já a considerava como parte do seu mundo 🌑.
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