O convite chegou poucas horas depois.
Direto, Sem rodeios, Irrecusável.
“Jantar. Minha cobertura. Às oito. Não se atrase.”
Ana leu a mensagem mais de uma vez, o estômago se contraindo.
Victor não perguntava. Ele convocava. E, depois do que ela testemunhara, fingir normalidade parecia impossível.
Ela sabia: Victor não queria apenas conversar.
Queria observá-la, Testá-la, Medir até onde o medo havia se misturado ao desejo.
Mesmo assim, ela foi.
A cobertura de Victor Moretti ficava no topo de um dos edifícios mais altos da cidade.
O elevador subiu em silêncio absoluto, cada andar passando como uma contagem regressiva.
Quando as portas se abriram, Ana sentiu o impacto imediato do lugar.
Luxo frio. Vidros do chão ao teto. A cidade inteira se estendia lá embaixo, pequena, vulnerável. Como tudo que Victor dominava.
Ele a esperava perto da janela, de costas, camisa preta perfeitamente ajustada ao corpo.
Um copo de vinho na mão. A postura relaxada contrastava brutalmente com a lembrança do homem que ela vira horas antes.
— Você veio. — Ele disse, sem se virar.
— Você não me deu muita escolha.
Victor sorriu de leve e finalmente a encarou.
O olhar era intenso, avaliador, como se estivesse desmontando cada defesa invisível que ela ainda tentava sustentar.
— Sempre há escolhas, Ana. Algumas só têm consequências mais interessantes.
A mesa já estava posta. Duas taças. Velas. Um jantar preparado por um chef particular. Tudo calculado. Tudo sob controle.
Eles se sentaram frente a frente.
O silêncio inicial era pesado, carregado de coisas não ditas.
Victor a observava comer, beber, respirar. Nada escapava ao olhar dele.
— Você está diferente desde ontem. — Ele comentou, calmamente.
Ana ergueu os olhos.
— Depois do que eu vi, seria estranho não estar.
Victor inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse aquilo.
— E mesmo assim você está aqui.
Ela apertou os dedos ao redor do talher.
— Quero entender com quem estou lidando.
— Não. — Ele corrigiu, com suavidade perigosa.
— Você quer entender por que não conseguiu ir embora.
O silêncio voltou, mais intenso. Ana sentiu o calor subir pelo corpo. Ele estava certo.
Victor levantou-se e caminhou lentamente até ela, parando atrás de sua cadeira. Não tocou. Ainda.
Sua presença era suficiente para fazê-la prender a respiração.
— Você me viu no meu estado mais real. — Ele murmurou perto de seu ouvido.
— E mesmo assim… continua aqui.
— Talvez eu esteja cometendo um erro.
Victor apoiou as mãos no encosto da cadeira, inclinando-se.
— Você está fazendo uma escolha.
Ele finalmente tocou dedos firmes em seu ombro, descendo lentamente pelo braço.
Um toque calculado, possessivo, sem pressa.
Ana sentiu o arrepio imediato, odiando-se por não recuar.
— Você me teme. — Ele continuou.
— Mas também me deseja. E isso te confunde.
Ana fechou os olhos por um segundo.
— Você usa isso contra mim.
Victor sorriu, satisfeito.
— Eu uso tudo a meu favor. Inclusive você.
Ele se afastou, servindo mais vinho para ambos, como se não tivesse acabado de desmontá-la por dentro.
— Este jantar não é um convite romântico. — Ele disse, voltando ao lugar.
— É um aviso. Quanto mais perto de mim você ficar, menos controle terá.
Ana o encarou, o coração acelerado.
— E se eu disser que não vou recuar?
O olhar de Victor escureceu, carregado de algo perigosamente próximo à posse absoluta.
— Então eu vou garantir que você não queira mais fugir.
A cidade brilhava lá fora, distante e silenciosa.
Dentro daquela cobertura, Ana compreendeu que havia cruzado outra linha invisível.
Não estava mais apenas observando a escuridão.
Ela estava sentada à mesa com ela.
E Victor Moretti…
Já a considerava como parte do seu mundo 🌑.