CAPÍTULO 14

538 Words
Ana A manhã chegou silenciosa, quase respeitosa, filtrando-se pelas cortinas pesadas da cobertura. A cidade despertava lá embaixo, alheia ao turbilhão que se formava dentro de Ana. O corpo ainda guardava vestígios da noite anterior , não como lembranças explícitas, mas como sensações, marcas invisíveis que pulsavam sob a pele, esse era o Preço do Prazer. Ela abriu os olhos devagar. O primeiro impulso foi se mover. O segundo, fugir. Mas antes que pudesse reunir coragem, percebeu, Victor já estava acordado. Ele a observava da poltrona próxima à janela, vestido com calma e domínio, um copo de café esquecido na mão. Não havia constrangimento em seu olhar. Nem arrependimento. Apenas aquela atenção silenciosa e inquietante, como se a estivesse avaliando depois de uma escolha irrevogável. — Você pensa demais — disse ele, quebrando o silêncio. Ana se sentou na cama, puxando o lençol até o peito. — E você controla demais. Victor sorriu, mas não havia humor ali.  Aproximou-se lentamente, cada passo calculado, até parar diante dela, Não a tocou, Ainda não. — Você passou a noite comigo — disse ele, com voz firme. — Isso não foi um acidente. Ela sustentou o olhar. — Foi uma decisão. — Exatamente. — Ele se inclinou, apoiando as mãos na cama, prendendo-a sem encostar. — E decisões têm consequências. O coração de Ana acelerou. — Você acha que isso me prende a você? Victor ergueu a cabeça, os olhos escuros fixos nos dela. — Não. — Uma pausa densa. — Mas nos liga. Ele finalmente tocou seu queixo, erguendo-o com dois dedos. O gesto não era bruto, mas carregava uma intenção clara, posse. — A partir de agora — continuou —, você não entra e sai da minha vida quando quer. Ana sentiu o peso daquelas palavras se instalar dentro dela. — Eu não sou sua propriedade. Victor se endireitou, o olhar endurecendo. — Ainda não. — A frase caiu como um aviso velado. — Mas você também não é livre como pensa. Ele se afastou, dando-lhe espaço apenas o suficiente para que a falta dele fosse sentida. — O que tivemos não foi só prazer, Ana. Foi um ponto de virada. Para mim, e para você. Ela se levantou da cama, mantendo distância. — Você está dizendo que não vai me deixar ir? Victor a observou em silêncio por alguns segundos. Quando falou, a voz estava baixa, perigosa. — Estou dizendo que o mundo lá fora é mais c***l com quem carrega meus segredos. — Aproximou-se outra vez. — E agora, você carrega mais do que imagina. Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela tinha cruzado a linha por desejo, mas o preço começava a se revelar alto demais. Victor passou por ela, indo em direção à porta. Antes de sair, lançou um último olhar por sobre o ombro. — Vista-se. Vou mandar alguém levá-la. — Uma pausa calculada. — Mas não confunda isso com liberdade. A porta se fechou. Sozinha, Ana respirou fundo. O prazer da noite anterior agora vinha acompanhado de uma verdade difícil de ignorar. Victor Moretti não era um homem que permitia despedidas simples. E o que mais a aterrorizava, era perceber que uma parte dela não tinha certeza se queria ir embora.
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