Sob os olhos do Inimigo
O som do sino da porta ecoou pela loja, um tilintar suave misturado ao jazz que saía do toca-discos antigo. O cheiro de couro, perfume e vinho velho pairava no ar — o aroma da própria vida de Selena.
Ela estava atrás do balcão, com um vestido de seda marfim que abraçava o corpo na medida certa. O tecido refletia o sol que entrava pela vitrine, e os fios castanhos ondulados caíam sobre os ombros como uma moldura cuidadosamente bagunçada.
Selena tinha um tipo de beleza que não precisava se esforçar. Ela sabia disso — e usava como quem veste uma arma.
“Mais um dia vendendo suas peças que parecia ter vindo de outro tempo”, pensou, enquanto dobrava um lenço de veludo vermelho.
Sua loja, La Dolce Vintage, era um refúgio para os amantes do luxo nostálgico.
Lá, nada era velho — eram criações novas com alma antiga, desenhadas pela própria estilista. Cada peça contava uma história: vestidos que pareciam ter dançado em bailes elegantes, ternos que guardavam segredos imaginários, perfumes que evocavam amores proibidos.
Mas ela? Ela já não se encantava por nada disso.
— Cara, você devia cobrar entrada — disse uma voz feminina. Era Vittoria, sua amiga e assistente, encostada no balcão com um cappuccino na mão.
— Entrada? — Selena arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Sim. Os homens entram aqui só pra olhar você. Nenhum tá interessado em roupa antiga.
Selena riu, aquele riso leve, meio preguiçoso, meio provocante.
— Ótimo. Assim eles aprendem que algumas coisas bonitas não estão à venda.
Vittoria revirou os olhos, rindo.
— Fala isso, mas sei bem que hoje tem “jantar de caridade”, né? Com o advogado dos sapatos caros?
Selena apenas sorriu.
— O nome dele é Lorenzo. E sim, ele é entediante, mas o vinho da casa dele é ótimo.
Vittoria suspirou.
— Você coleciona homens como coleciona vestidos.
— E largo quando não servem mais — respondeu, ajeitando o batom no espelho.
Era tudo um jogo. Jantares, risadas, presentes caros. Nenhum toque durava tempo suficiente pra virar lembrança. Selena tinha aprendido que o amor era um investimento que sempre acabava em prejuízo — e ela não lidava mais com perdas.
Do lado de fora, a rua italiana pulsava com o som dos carros e turistas. O mar ficava a poucos metros dali, refletindo o sol. Selena pegou sua bolsa vintage, checou o batom mais uma vez e saiu, deixando o sino tocar outra vez.
O jantar seria em uma das mansões na costa. Champagne, risadas falsas e olhares calculados — o tipo de ambiente onde ela brilhava e, ao mesmo tempo, se sentia sufocada.
A casa de Lorenzo parecia saída de uma revista de luxo: lustres de cristal, velas espalhadas por toda a sala e uma vista absurda pro mar noturno. O cheiro de jasmim misturava-se ao sal do vento que vinha da varanda.
Selena chegou no horário exato, como sempre. Um vestido preto justo, salto fino e um sorriso que escondia qualquer pensamento que valesse a pena decifrar.
— Você está deslumbrante — disse Lorenzo, abrindo um sorriso que mais parecia ensaiado.
— Você também parece satisfeito com o próprio reflexo — retrucou, pegando a taça de champagne das mãos dele.
Ele riu, meio sem graça, achando que ela brincava. Mas não brincava.
Durante o jantar, Lorenzo falava demais. Sobre investimentos, jatinhos, o novo carro importado. Ela respondia com frases curtas, mexendo o anel no dedo, fingindo interesse.
Mas conforme as taças esvaziavam, o olhar dele mudava. Ficava mais pesado, mais direto. O tipo de olhar que não busca conversa — busca posse.
— Você sabe, Selena… — ele disse, inclinando-se sobre a mesa — há algo em você que me deixa curioso.
— Curioso é bom — respondeu, sem perder o sorriso. — A curiosidade move o mundo.
— E às vezes… — ele deslizou os dedos sobre o pé da taça — ...leva a gente pra lugares inesperados.
Ela percebeu o tom. O ambiente parecia diminuir ao redor.
A música suave agora soava como um zumbido distante.
— Lorenzo, acho que bebi demais, não estou me sentindo bem, preciso ir — ela disse, se levantando lentamente.
— Fique mais um pouco. — Ele também se levantou, aproximando-se demais. — Tenho algo pra te mostrar.
O coração dela acelerou. A voz dele soava mansa demais pra não esconder uma intenção torta.
Ela sorriu — o sorriso que salvou sua pele mais de uma vez.
— Claro. Me mostre.
Ele virou-se, pegando uma garrafa sobre o aparador. Nesse breve instante, Selena aproveitou para avaliar o ambiente: duas portas, uma janela enorme e um corredor à direita.
Ela precisava sair — com calma. Sem demonstrar que já tinha entendido o jogo.
— Esse vinho é francês — disse ele, voltando-se com duas taças.
— Hm, adoro vinhos franceses — respondeu, fingindo naturalidade enquanto recuava um passo, apoiando-se discretamente na cadeira.
Quando ele desviou o olhar por um segundo, ela começou a andar em direção ao corredor.
— Vou ao banheiro — disse, sem esperar resposta.
O salto dela ecoava firme, disfarçando a pressa.
Passou por um quadro enorme, por uma escada em curva... e viu uma porta lateral semi aberta.
Tentou girar a maçaneta — trancada.
Respirou fundo.
Voltou alguns passos, pegou o celular dentro da bolsa — sem sinal.
“Ótimo”, pensou. “O clichê perfeito.”
Quando ouviu os passos dele vindo em sua direção, agiu rápido: entrou numa sala ao lado, provavelmente o escritório. Luz apagada, cortinas pesadas.
— Selena? — a voz de Lorenzo ecoou. — Aonde foi?
Ela se abaixou atrás de uma poltrona. Segurava o salto nas mãos pra não fazer barulho.
O som dos passos dele se aproximou, depois sumiu.
Uns minutos se passaram até ela ouvir o barulho de uma porta distante. Ele tinha saído.
Respirou aliviada. Caminhou em silêncio até uma das janelas. Trancada, mas com uma tranca antiga. Puxou uma das argolas de ferro com força, e a janela cedeu com um estalo seco.
O vento frio da costa bateu no rosto dela.
Sem pensar duas vezes, tirou os sapatos, subiu no parapeito e saltou.
O impacto do chão do jardim do lado de fora foi leve — grama fofa, sorte.
Selena correu pela lateral da mansão, com o coração disparado, e só parou quando chegou à estrada principal. O problema é que Lorenzo já havia avisado aos seguranças. Eles a viram pulando a janela e correram em sua direção. Selena, desesperada, começou a correr descalça pelo gramado úmido, sentindo o vento frio bater em seu rosto.
Perto do portão, havia uma grande árvore. Ela se apoiou nos galhos baixos, usou o tronco como impulso e conseguiu escalar o muro, rasgando um pouco o vestido no processo. Ao cair do outro lado, o coração batia como se fosse explodir.
Mas os seguranças já estavam lá. Cercaram-na antes que ela pudesse correr de novo. E então, Lorenzo apareceu. Calmo. Impecável. Como se já soubesse que tudo terminaria assim.
— Saindo sem se despedir, Selena? — disse, com um meio sorriso que não escondia a fúria. — Que falta de respeito. Eu ainda não mostrei o que queria pra você.
Ele deu um passo à frente, o olhar fixo nela.
— Vamos voltar lá pra dentro. Resolver esse m*l-entendido como adultos.
Selena ficou imóvel por um segundo, os olhos varrendo o caminho atrás dele, procurando qualquer saída. Foi então que viu — uma luz forte, alta, vindo da estrada. Faróis. Um carro se aproximando.
Sem pensar, levantou a mão para chamar atenção e correu em direção à luz, segurando os sapatos na mão. A areia grudava nos pés, o vento batia contra o rosto.
Lorenzo percebeu o que estava prestes a acontecer — ela ia escapar. Em um impulso, agarrou o braço de Selena com força, os dedos cravando na pele. O olhar dele, antes charmoso, agora era puro veneno.
— Essa conversa não acabou aqui, Selena — sussurrou entre os dentes, o rosto tão próximo que ela sentia o hálito quente. — Você acha que eu sou i****a?
Selena tentou se soltar, o coração disparado. Os faróis agora estavam tão perto que iluminavam o rosto dos dois. Ela virou o rosto, ofegante, e viu o carro parar bruscamente diante dela.
Os vidros começaram a descer em câmera lenta. Um homem de terno escuro, com o cabelo perfeitamente penteado e olhos castanhos claros que pareciam enxergar além da superfície, olhou direto para ela.
O tempo pareceu parar.
— Tá precisando de uma carona, moça? — perguntou ele, com a voz firme e grave, mas surpreendentemente calma.
Selena engoliu em seco. O olhar de Lorenzo ainda estava cravado nela, cheio de raiva e ameaça.
— Sim... por favor — respondeu quase num sussurro, a voz tremendo.
O segurança do homem desceu do carro, imponente, com uma expressão que não deixava espaço para discussão. Ele olhou diretamente para Lorenzo e, sem dizer uma palavra, apenas fez um gesto com a mão para Selena — pode entrar.
Lorenzo cerrou o maxilar, mas não ousou se mover. Selena, ainda tremendo, entrou no carro, sentindo o corpo inteiro formigar de medo e alívio.
Ela respirava rápido, tentando recuperar o ar, as mãos ainda trêmulas sobre o colo. O carro arrancou, deixando para trás a mansão, os seguranças e Lorenzo parado no portão, assistindo sua fuga com um olhar que prometia retorno.
Dentro do carro, o silêncio era denso. Selena virou o rosto devagar para o homem ao lado.
Ele estava calmo, olhando a estrada com uma expressão que misturava mistério e poder.
Só o som distante do motor preenchia o ar.
O homem manteve os olhos na estrada por alguns segundos antes de perguntar, com a voz calma e grave:
— Qual é o seu nome?
Selena hesitou. O coração ainda acelerado. — Giulia — respondeu, tentando soar firme, mesmo com a voz trêmula.
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
— Você não tem cara de Giulia.
Ela engoliu seco. — Bom… esse é o meu nome.
Virou o rosto para a janela, fingindo tranquilidade. — Você pode me deixar na praça principal. Eu vou andando.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a olhou de lado, os olhos castanhos claros cheios de curiosidade — ou era provocação?
Com uma das mãos apoiada sobre a coxa, respirou fundo e soltou, num tom firme, mas sereno:
— Vamos pra minha casa.
Selena arregalou os olhos. — O quê? — O pânico subiu à garganta. — Não, eu preciso ir pra casa. Eu trabalho amanhã… por favor, eu só quero ir pra casa.
Ele manteve o olhar fixo nela, inabalável. — Vamos pra minha casa — repetiu, mais baixo agora. — Vamos dar um jeito no seu machucado e depois eu te levo.
— Eu não tô machucada! — rebateu, quase gritando.
Mas estava.
O estresse era tanto que ela não sentia nada. O braço roxo latejava, inchado e um corte profundo se abria na perna, lembrança dos galhos da árvore.
O homem desviou o olhar da estrada por um segundo, observando-a com uma expressão séria.
— Eu não posso te deixar em casa desse jeito. — O tom dele era calmo, mas carregado de autoridade.
Selena explodiu.
— Vocês homens são todos iguais! — gritou, a voz quebrando entre raiva e desespero. — Eu não sou um brinquedo! E eu quero sair desse carro agora!
Ele ficou em silêncio por um instante, surpreso. Então falou, mais suave:
— Ei... se acalma. — Olhou-a nos olhos com sinceridade. — Eu só quero ver se você tá bem. Depois, você vai pra casa.
Selena manteve o olhar firme no dele por alguns segundos. Aqueles olhos castanhos tinham algo… perigoso, mas verdadeiro.
Respirou fundo, o corpo cansado demais pra discutir.
E apenas disse:
— Tudo bem.