A Segunda Tentativa

4993 Words
Caterina estava empolgadíssima arrumando tudo para o jantar em família, radiante com a ideia de receber seu filho querido e a suposta nora perfeita. Ainda era manhã e Dante não havia chegado. Enquanto segurava um vaso, o celular toca — Marco. Ele pergunta se Dante já está em casa e se chegou bem. Caterina responde que não o viu desde a tarde anterior. Marco, já irritado, encerra a ligação sem paciência. Ele precisava de Dante para uma reunião crucial com o pessoal da França, algo que não podia ser adiado nem ignorado. Caterina simplesmente ignora o surto dele e volta a organizar suas flores como se estivesse preparando o evento do século — quase um casamento, se deixassem. Na cabeça dela, tudo tinha que ser impecável. Animada, chama Vicente e ordena um jantar magnífico com pratos italianos dignos de revista. Vicente apenas assente com a cabeça, com aquele olhar de “tô nem aí”, fingindo total obediência enquanto seu pensamento viaja. Ao olhar pela porta de vidro, Caterina vê Dante chegando acompanhado de Giulia. Quem vai recebê-los é Vicente, que corre até a porta com passos preocupados. Ele abre, desce alguns degraus e o aborda: — Senhor, está tudo bem? — pergunta com preocupação sincera, já que Dante nunca desaparecia por um dia inteiro sem avisar. — Está tudo bem, Vicente. Desculpa por deixá-lo preocupado, eu acabei esquecendo de avisar. — Tudo bem, senhor, sem problema. — responde Vicente, antes de voltar para dentro. Giulia foi para a casa com Dante porque queria aproveitar mais tempo com ele antes de voltar das férias. Dante não curtiu muito a ideia, mas também não teve coragem de negar. Ao entrar, ele pede para que ela fique à vontade, dizendo que vai subir para relaxar um pouco. Giulia fica confusa, mas respeita e apenas afirma com a cabeça. Sozinha na sala, ela observa a mesa gigantesca cheia de arranjos e vasos, ficando chocada: “achei que fosse só um jantar, não uma festa”. Enquanto observa esse cenário extravagante, vê Caterina saindo de carro, o que a deixa automaticamente mais tranquila. Selena Vittoria chega na loja para abrir, pois receberia um cliente especial interessado nas peças assinadas por Selena. Ele queria comprar um presente para a mãe, Charlotte, uma inglesa que morava na Itália há alguns anos. Era aniversário de casamento e, todo ano, Enrico escolhia um presente vintage perfeito. Charlotte era apaixonada por relógios, bolsas e sapatos antigos. Enquanto Vittoria organiza vitrines, Enrico estaciona seu carro luxuoso e desce com uma presença que parecia cena de filme: calça cinza, cinto preto fino, camisa bege de grife com as mangas ajustadas mostrando os músculos e parte da tatuagem, sapatos pretos brilhantes, óculos moderno, cabelos castanhos levemente compridos com reflexos loiros. Ele entra na loja e cumprimenta Vittoria — os dois já se conhecem, afinal, é sempre ela quem o atende. Ele pede um relógio e ela mostra algumas opções. Ele não gosta de nenhum. Pergunta se existe algum modelo criado pela própria dona da loja. Vittoria responde que não, e ele demonstra desinteresse imediato. Mas Vittoria tem uma última carta: as peças novas lançadas recentemente. Ele ainda não demonstra empolgação, mas respeita e escuta. De repente, a porta se abre com um barulho alto e nada discreto. É Selena, cheia de sacolas de itens comprados em uma lojinha vintage, que usaria para decorar a própria festa de aniversário, marcada para a semana seguinte. Ela entra atravessando o vidro como um furacão artístico carregando mundos nas mãos. As sacolas esbarram no manequim, que despenca e se choca com força contra uma bancada de vidro, fazendo um estrondo digno de cena cômico-dramática. Vittoria se vira na hora, corre até Selena e gesticula com os olhos, tentando avisar: — Ai amiga, deixa eu te ajudar… — sussurra enquanto pega o manequim. — Tem cliente na loja, Selena! Você tá doida?! As duas erguem o manequim juntas. Quando finalmente se ajeita, Selena encara Enrico — e ele devolve o olhar com doçura, quase um slow motion involuntário. Ela respira fundo, endireita a postura, e caminha até ele no modo business woman ativado: — Olá, bom dia. Prazer, Selena. — Prazer, Selena, me chamo Enrico. — O que posso fazer por você, Enrico? — diz, enquanto observa cada detalhe do rosto dele. — Bom, eu queria um relógio diferente, de preferência criado pela própria designer. Mas sua funcionária disse que não tinha. — Ah, isso é verdade. No momento não crio designs de relógios, só roupas mesmo. — responde Selena, levemente desconfortável. — Pois deveria. Seus designs são muito bonitos e se destacam. Minha mãe ama suas ideias. Esse ano queria presenteá-la com algo diferente, porque no ano passado dei um vestido. Selena absorve tudo com atenção, e já que não tem linha de relógios, sua mente trabalha rápido. Ela pensa em contornar a situação com elegância e estratégia. — Entendo perfeitamente, Enrico. Aceito seu feedback e prometo considerar. Mas deixa eu te perguntar: sua mãe irá comemorar o aniversário dela? — Sim, No caso é aniversário de casamento, e essa data é muito importante pra ela. — Perfeito, Enrico. Um aniversário de casamento é especial e como ela vai comemorar, precisará de um vestido. Afinal de contas, para uma mulher elegante como a sua mãe, vestidos nunca é demais. — Sim. Ela quer ir a um restaurante com meu pai, o Da Vittorio. — Magnífico! Ela vai amar — esse restaurante é maravilhoso. — comenta Selena, recordando a própria experiência. — Sei que quer um relógio, mas pensa comigo: ela vai pra um jantar especial com seu pai. E com certeza vai precisar de um vestido. E sobre vestidos… eu entendo perfeitamente. — diz, com gestos sutis e sorriso leve. Enrico sorri de canto, percebendo o jeitinho estratégico dela, entre curioso e intrigado. — Tudo bem. Quero ver os vestidos. — Ótimo, vem comigo! Selena o guia até a área mais reservada da loja, onde ficam as peças mais elaboradas da nova Coleção. Ela apresenta um vestido azul escuro da coleção Toscânia — tecido leve, degradê inspirado no mar da Toscana, brilho elegante sem exagero. Enrico observa em silêncio, toca o tecido com cuidado e encara Selena, admirado: — Como consegue fazer um trabalho tão perfeito? — Bom… eu nasci com esse “talento”. Minha mãe era costureira e eu via ela trabalhando arduamente todos os dias até tarde. Foram épocas difíceis. Quando cresci, já sabia o que queria: ter minha própria coleção e minha loja. Me esforcei muito pra chegar até aqui. — Admirável a sua história. De verdade. Bom, eu vou levar o vestido. Mas quero ver futuramente alguns relógios seus nessas prateleiras. — diz Enrico, segurando o vestido e encarando Selena nos olhos. — Pode deixar! Seu pedido é uma ordem. — ela responde com uma risada leve, meio charmosa, meio tímida. Eles caminham até o balcão para finalizar a compra. Vittoria observa tudo com orgulho, sorrindo discretamente enquanto passa a máquina de pagamento para Enrico. Assim que conclui a compra, ele vira para Selena, agradece e, sem enrolar, a convida para sair e tomar um café. Selena sente aquele desconforto interno — lembranças recentes ainda cutucam — mas, sem saber como recusar, acaba aceitando. Eles trocam telefones. Na sequência, Enrico deixa a loja, e Vittoria e Selena ficam paralisadas, quase chocadas. — Amigaaa, ele tá tão… na sua. — Para, Vittoria. Ele é um cliente. — E desde quando você se importa com isso? — Vittoria arqueia a sobrancelha. — Desde que as coisas saíram errado com o Lorenzo, lembra? — Selena responde enquanto recolhe as sacolas. — Entendo. Mas esse parece ser diferente. — Não tem como saber, Vi. Infelizmente. — diz Selena num tom triste. — Me ajuda a colocar essas sacolas no carro. Pensei em deixar no depósito, mas tá lotado, vou levar pra casa. — Que carro? — Meu carro. Esqueci de te dizer… comprei hoje. — Caramba, amiga! Que incrível! Tô feliz que perdeu o medo de dirigir! — comemora Vittoria sorrindo de orelha a orelha, ajudando com as sacolas pesadas. A vida de Selena parecia finalmente engrenar. Lorenzo sumiu, Dante não apareceu mais desde o último acontecimento, e embora as lembranças ainda tentassem invadir sua mente, ela conseguia se blindar com trabalho e autocuidado. Agora, sua prioridade era ela mesma — longe de caos, longe de homens, longe de repetições traumáticas. Ao chegar em casa, ela solta as sacolas no chão e, enquanto fecha a porta, o celular começa a tocar. Ela pega no mesmo instante e vê um número desconhecido. A curiosidade vence. — Alô? Selena? — diz uma voz suave e simpática do outro lado. — Sim, sou eu. Quem fala? — ela questiona, enrolando uma mecha de cabelo com nervosismo discreto. — Enrico. — responde com um sorriso audível. — Ah, Enrico! Me desculpa, é que a voz muda no telefone. — Então… meu amigo Antoni vai fazer uma festa hoje. É aniversário dele, só amigos próximos. Mas eu posso levar uma companhia, você está disponível? Selena permanece em silêncio por alguns segundos, encarando o próprio reflexo na porta recém-fechada. O passado ameaça voltar, mas a lógica argumenta: evento social, muitas pessoas, ambiente público, sem riscos diretos. Ela respira fundo e decide arriscar — mas com cautela. — Tudo bem, eu estou disponível. — Ótimo! Passo pra te buscar ou nos encontramos lá? — Nos encontramos lá, me passa o endereço por mensagem. — Tudo bem. A ligação termina. Selena fica encarando o celular por alguns segundos e o canto da boca se levanta sem controle — aquele sorriso bobo, raro e perigoso, o tipo que aparece quando alguém novo mexe em camadas que você jurava estarem blindadas. Final de tarde. Na mansão, o clima é bonito por fora e caótico por dentro. Caterina chega no seu carro, cheia de sacolas de grife, com a expressão de quem acredita estar montando o momento perfeito. Logo depois, Marco aparece também, aparentemente de péssimo humor. Carrega sua mala, passa por ela sem sequer desviar o olhar, como se fosse transparente. Caterina engole seco, mas não desiste — aquele jantar era sua tentativa desesperada de reconstruir um vínculo praticamente impossível entre pai e filho. Giulia está no jardim, sentada, olhando pro nada. Se sente largada ali, como figurante de uma história onde o protagonista trancou a porta e esqueceu dela. Dante se isolou no quarto desde cedo; ela tenta manter a postura, mas a indignação roda em loop na cabeça. Qual é a desse cara? O celular vibra. Mensagem de Mia: “Amiga, hoje é o aniversário do Enrico, desculpa! eu fiquei encarregada de enviar os convites e acabei me esquecendo de enviar para você, e pra outras pessoas também.” Os olhos de Giulia brilham na hora — aniversário do Enrico. Amigo de infância dela e de Dante, quase como família, mas separados pelos rumos da vida. Eles ainda trocavam mensagens sempre que dava, mesmo longe. Giulia responde dizendo que terá um jantar, mas se der, passa lá. Larga o celular no banco e, quando vira o rosto, Dante já está parado ao lado dela. — Ah, finalmente! — ela dispara, sem esconder a mágoa. — Desculpa Giulia, eu estava bem cansado. — Dante responde, voz pesada, arrastada. Ela dá uma risada cheia de ironia, tipo não me venha com isso: — Me poupe das suas desculpas, Dante. Não aja como uma criança, isso é ridículo e não combina com você. — Está chateada comigo? — Como eu não ficaria? — ela rebate, gesticulando enquanto se aproxima. — Temos um acordo, acordo esse que você propôs. Eu não quero ser humilhada e pisada porque você está inseguro das suas escolhas. — Calma, Giulia, não é bem assim. Eu só precisava de um tempo só. Não era minha intenção magoar você. — A única coisa que eu quero é que você aja como um homem. Se você decidiu isso, assuma a responsabilidade. Dante respira fundo, baixa o olhar e admite: — Você tem razão. Desculpa. — diz, segurando a mão dela. Giulia muda o foco, mas não a atitude: — O Enrico faz aniversário hoje, a Mia me convidou. Você vai? — Ele me convidou, podemos ir após o jantar. O que você acha? — Vamos sim, eles contam com a nossa presença, afinal faz anos que não nos vemos. Os dois permanecem no jardim, conversando com um pouco mais de calma. Minutos depois, Salvatore chega com a esposa, aquele típico casal que força simpatia até doer. Ele distribui um sorriso irritante enquanto abraça os pais, e Dante observa tudo à distância com ar cansado. Caterina nem percebe a chegada deles, ocupada demais tentando comandar cada detalhe do jantar como se fosse uma rainha em crise. Dante se levanta e decide ir com Giulia até o local. Assim que o vê, Salvatore lança um olhar pesado, carregado de inveja e ego ferido, mas tenta disfarçar abraçando o irmão com força exagerada, enquanto Dante revira os olhos, tentando se desvencilhar daquele abraço teatral. Quando finalmente se desgrudam, os dois notam a presença de Giulia. — Giulinha? O que faz aqui? — Giulia! — corrige ela com firmeza. — Boa noite, Salvatore. Caterina percebe, e como sempre, não perde a chance de destilar veneno, enquanto Marco permanece em silêncio, apenas analisando tudo como se estivesse diante de um espetáculo. — O que faz aqui, Giulia? Vocês estão… amigos íntimos agora? Giulia fica visivelmente desconfortável, e Dante percebe de imediato, entrando na conversa como um escudo: — Giulia é minha namorada, mamma. O choque se espalha no ar como se alguém tivesse derrubado uma bandeja de cristal no chão. Ninguém esperava isso — Dante jamais apresentou uma namorada à família, a primeira foi Selena e logo depois Giulia? A atitude soava impulsiva… e era totalmente. — Ué, mas até outro dia era aquela… como é o nome dela mesmo? — pergunta Salvatore, até levar uma cutucada da esposa pra ficar quieto. — Ah, Selena! Vocês já terminaram? — É, Dante, como assim? Do nada isso? — retruca Caterina, inflamando o clima com prazer. Dante respira fundo, tenta controlar o impulso, mas o limite já foi atravessado: — Não devo satisfação a ninguém! E peço que respeitem meu espaço, já que eu não interfiro nas escolhas de ninguém. E não esqueçam: estão na minha casa. Silêncio. O impacto é imediato. Caterina fica estática, sem reação, e Salvatore abre um sorriso torto, quase psicótico, como quem ama assistir ao caos se espalhar. Marco visivelmente esgotado da treta eterna daquela família, solta seco, sem filtro: — Então… vamos jantar ou vamos ficar nessa conversa infinita? — diz enquanto segue rumo à mesa. Caterina o encara com um olhar quase assassino. Segundos depois, Salvatore vai se aproximando do pai: — Boa noite, pai… Marco apenas vira o rosto por cima do ombro, sem um único músculo facial movendo, e continua andando até a mesa. Todo mundo se acomoda e um silêncio quase hospitalar toma conta do ambiente. O jantar é servido. Eles comem devagar, cada um analisando o outro como se estivessem presos em um escape room emocional: olhares tensos, desconfiança, energia pesada, ninguém querendo ser o primeiro a derrapar. Até que Marco, após finalizar sua última colherada, coloca o talher com calma e dispara: — Então… qual o motivo desse jantar? — Como assim? — responde Caterina, forçando um sorriso com um toque cínico. — Qual o verdadeiro motivo desse jantar, Caterina? — Marco insiste, olhando direto, sem paciência pra teatrinho. — Ué, Marco… somos uma família, ou você esqueceu? — rebate ela, com ironia doce e venenosa. Marco dá um sorriso debochado, se recosta na cadeira, claramente dizendo “não nasci ontem”. Salvatore então tenta jogar diplomacia na mesa: — Qual o problema de fazermos um jantar? Você tem algum problema, Dante? — Não. — responde Dante, seco, sem emoção. — Mas também acho que isso não combina com a nossa família. Nunca fizemos isso, nem quando éramos crianças. Caterina se inclina, ferida no ego e pronta para revidar: — Você também nunca apresentou suas namoradas! E do nada aparece com duas em duas semanas? Giulia e Mila se entreolham totalmente perdidas, tipo “o que é isso, gente? BBB ‘’? Marco, sem segurar, dá uma risada curta, debochada, enquanto o silêncio volta e toma conta como se fosse uma terceira presença na mesa — pesada, desconfortável, quase palpável. Caterina perde totalmente a paciência. Ela bate o talher com força no prato, produzindo um barulho seco e estridente que faz todos pararem de mastigar. — Sabe o que eu acho, Marco!? — ela dispara, a voz tremendo de indignação. — Que você não olha para o Salvatore como filho! Você nem se importa em saber como ele está! Nem o cumprimenta! Marco ergue o olhar devagar, impassível. — Então é esse o motivo do jantar? — ele rebate com ironia gélida. — Discutir isso? Você realmente acha que esse jantar era necessário? — Acho! — Caterina responde com fogo nos olhos, cada palavra cuspida como uma faca. Marco inclina levemente a cabeça, sem alterar o ritmo da respiração. — Pois achou errado, Caterina. Nós falhamos como pais. E não importa o que façamos agora... as coisas vão continuar sendo o que são. Não dá pra mudar o caráter de ninguém. A mesa trava. O ar fica pesado. Salvatore encara o pai com ódio contido, respirando rápido, o maxilar travado. — O que você quer dizer com isso? — pergunta ele, a voz carregada de mágoa e ameaça. Antes que Marco responda, Dante tenta amenizar: — Calma... gente, qual a necessidade desse drama? Salvatore explode, batendo a mão na mesa. — Cala a boca, Dante! O impacto ecoa. Giulia dá um leve salto, surpresa. O clima vira pólvora pura. Marco continua sentado do mesmo jeito, quase relaxado, encarando Caterina sem piscar, como se estivesse assistindo a um espetáculo previsível. Ele conhece esse roteiro — Caterina sempre fez drama desde jovem, sempre acreditou que teatro emocional era ferramenta de persuasão. Ele não cai mais. — Eu não estou disposto a passar a noite aqui ouvindo vocês falando bobagens — diz Marco num tom frio, definitivo. — Então, por favor, Caterina, seja direta. Eu quero me deitar. Caterina engole seco, o orgulho ferido explodindo por dentro. — Marco, você é patético! Como pode falar desse jeito? Seu filho está aqui! E você simplesmente o despreza! Marco vira o rosto para Salvatore, firme, sem elevar a voz: — Então diga você, Salvatore. Você é um homem de trinta anos. Não tem capacidade de me dizer o que pensa? Salvatore engasga, inseguro, olhando rapidamente para os outros como se buscasse uma direção, tremendo por dentro. — Eu nã... não vejo problema em nada… — ele solta, quase num sussurro, sentindo o chão abrir sob seus pés, completamente humilhado diante do pai e de Dante. Marco dá um pequeno gesto com as mãos, como quem finaliza uma jogada óbvia. — Viu, Caterina? Ele não vê problema. Por que isso te incomoda? Me diga. Caterina apenas o encara, olhos furiosos, porém sem resposta — porque a verdade que ela tentava disfarçar era muito mais sobre ela do que sobre eles. O silêncio agora não era mais apenas desconfortável. Era revelador. Salvatore, tomado pela vergonha e pela sensação de ter sido exposto na frente de todos, levanta da mesa às pressas, quase derrubando a cadeira. Caterina se levanta imediatamente e vai atrás dele, desesperada. O restante apenas observa, atônito e travado, sem saber como reagir ou o que comentar. Marco se ergue calmamente, como se nada ali tivesse valor suficiente para retê-lo. Ele olha para todos com apatia e diz apenas: — Boa noite. E vai embora. Dante, Giulia e Mila permanecem sentados por alguns segundos, ainda processando o caos que ficou no ar. Mila, completamente desconfortável, levanta sem dizer uma única palavra e se retira, frio total, nem um “boa noite” sequer. A noite não saiu como Caterina havia planejado. Tudo fugiu do controle. Aquilo que ela desejava conquistar — a reconexão da família — escapou pelos dedos. E a frustração só alimentava ainda mais o ódio silencioso que ela cultivava contra Marco. O desprezo que ele demonstrava por Salvatore era algo que ela jamais aceitaria. E, dentro dela, nascia a promessa de que aquilo não terminaria barato. Giulia suspira e quebra o silêncio: — Então… acho que é bom a gente ir também, né? Dante solta um leve riso de alívio, quase sarcástico. — É, finalmente essa palhaçada acabou. Por enquanto… Os dois se levantam. Giulia avisa que vai ao banheiro antes de ir. Dante pega o celular, solta os ombros e segue direto para o carro, exausto da tensão. No caminho, passando pela sala, Giulia encontra Caterina, que está encostada perto da escada, chorando sozinha, os olhos vermelhos e a maquiagem borrando. Giulia tenta passar rápido, desejando se livrar daquela situação, mas Caterina intercepta, bloqueando seu caminho. — Acha que eu não sei o plano de vocês? — dispara Caterina, a fala embargada. — O que quer dizer? — Giulia pergunta assustada, dando um passo para trás. — Ele só está namorando você pra conseguir a empresa. A mesma coisa que o pai dele fez! — Caterina acusa chorando, enxugando as lágrimas com um lenço. — Mas saiba que isso não vai acontecer! O que não tem amor nunca floresce, por mais que você tente muito. Se não começou com amor, terminará sem amor… e com muita dor! A voz dela quebra no final, misturando ódio, medo e frustração. Ela vira as costas e sai antes que Giulia responda, deixando apenas o eco da maldição emocional suspenso no ar. Giulia fica imóvel, nervosa, com o peito acelerado, os olhos marejados, sentindo o peso de uma dúvida que nunca havia pedido para carregar. Giulia volta caminhando em direção ao carro, ainda pálida, com o olhar distante e a respiração meio curta. Dante, ao perceber seu estado, franze o cenho, preocupado. — Tá tudo bem? — ele pergunta, abrindo a porta pra ela. Giulia força um sorriso rápido, tentando esconder o peso do que ouviu. — Tudo sim, só… nervosismo mesmo. Mas vai passar. Dante não compra totalmente a resposta, mas decide não insistir — pelo menos não ali. Ambos colocam o cinto, trocam um olhar silencioso e seguem em direção à festa de Enrico, cada um com seus próprios pensamentos girando como um disco arranhado. Enquanto tudo isso acontecia na mansão de Dante, Selena se encontra em casa encarando o espelho, desconfortável com a ideia de ir sozinha para a festa. Depois de alguns minutos de indecisão, ela toma a decisão óbvia: chamar Vittoria. A melhor amiga é praticamente equipamento de segurança social. Vittoria chega animada, batendo palmas antes mesmo de terminar de entrar. Selena está com um vestido rosa cheio de lantejoulas, corte leve no b***o, salto preto — elegante, poderosa, vibe “eu superei”. Vittoria usa um vestido preto também com lantejoulas, um dos mais queridinhos dela, assinado por Selena. — Ai amiga, eu amo esse vestido, sério. Já usei umas dez vezes — diz Vittoria girando na frente do espelho. — Esse foi da coleção de 2020, tá na hora de você aposentar ele — Selena provoca, rindo. — Nada! Ele ainda tá perfeito e custou uma nota. Selena arregala os olhos, indignada em modo brincadeira. — Nota? Você tem desconto de funcionária, sua falsa! As duas caem na risada, pegam bolsas, perfume, chave e vão rumo à festa de Antoni, prontas para o caos social, o flerte misterioso. Chegando na festa de Antoni, o carro estaciona diante da mansão iluminada como se fosse cenário de filme premiado. As duas descem, ajeitam o vestido na porta do carro e caminham até o portão. Selena pega o celular e manda mensagem pra Enrico, porque nenhuma das duas tem convite — só entra acompanhado de alguém na lista. Enquanto esperam, observam a fachada gigantesca, estilo clássico moderno, com janelas enormes, colunas brancas e um jardim que parecia anúncio de revista milionária. — Nossa… essa galera tem muita grana — Vittoria comenta, arregalando os olhos. — Eu sempre achei que tinha dinheiro… até começar a frequentar esses lugares com você, Selena. — Pois é, eu também achava que tinha muita grana até entrar nesses ambientes — Selena responde, rindo, quase irônica. Ambas caem na risada, meio chocadas, meio acostumando com a ideia de que existe uma “faixa de riqueza” acima da que elas imaginavam. Segundos depois, Enrico surge no portão com um sorriso doce, aquele sorriso “seguro de si” que parece virar câmera em câmera lenta. Ele abraça Selena de forma educada, mas com um carinho notável, e cumprimenta Vittoria com respeito. Trocam algumas palavras rápidas, leves, com aquele clima inicial de “primeiro rolê juntos”, e então Enrico faz sinal para o segurança liberar as duas. Portões se abrem. Luzes aumentam. O som grave da música invade. E finalmente… eles entram. Selena aproveitava a festa ao lado de Vittoria e Enrico, em uma atmosfera leve e descontraída. Ela sorria com naturalidade, rindo das brincadeiras e participando das conversas enquanto a música embalava o ambiente. Quando Enrico apresentou Antoni, o aniversariante, todos se cumprimentaram com simpatia, criando uma conexão espontânea entre os quatro. O clima estava agradável, com risadas, histórias rápidas e uma sensação de sintonia imediata. Enquanto continuavam conversando, Dante aproximou-se de Enrico para cumprimentá-lo, sem perceber que Selena estava ali. Os dois eram amigos de infância, mas estavam há alguns anos sem se ver. Pouco depois, Giulia juntou-se a eles, afinal, também era amiga de ambos há tempos. O reencontro foi caloroso, cheio de surpresas e nostalgia. Sem imaginar a verdadeira situação, Enrico decidiu apresentar Selena a Dante, acreditando estar apenas ampliando o círculo de conversa. No exato momento da apresentação, Dante congelou. Selena perdeu parte do brilho do rosto e ficou pálida, mas rapidamente sustentou um sorriso, já levemente influenciada pela bebida. — Nós já nos conhecemos — afirmou ela com um tom gentil, tentando manter a naturalidade. Giulia reagiu quase imediatamente, sentindo um desconforto crescer em seu interior. O olhar dela para Selena carregava uma mistura de alerta e ameaça silenciosa, como se desejasse encerrar aquela situação antes que qualquer problema surgisse. O ar, por alguns segundos, ficou mais denso, mesmo que todos tentassem manter a postura social intacta. Enrico demonstrou surpresa ao perceber que todos já se conheciam. — Ah, que ótimo! Então estamos todos conectados — comentou ele, rindo, já sob influência da bebida. Dante e Giulia apenas sorriram de forma educada, tentando suavizar o momento, enquanto Vittoria observava tudo em silêncio, atenta a cada detalhe. Logo depois, Dante e Giulia se afastaram discretamente, e Enrico saiu para cumprimentar outros convidados, deixando Selena e Vittoria próximas à área social. Assim que ficaram sozinhas, Vittoria inclinou-se discretamente em direção a Selena e sussurrou: — Amiga… que situação. E agora, o que fazemos? Selena manteve o semblante firme, sem demonstrar abalo. — Nada. Somos convidadas e estamos aqui para aproveitar — respondeu com tranquilidade. — Você não está desconfortável? — insistiu Vittoria, ainda apreensiva. — Não. Vamos deixar isso de lado, Vi — concluiu Selena, tentando ignorar qualquer incômodo emocional e manter o clima da festa. Dante tentou se manter firme, mas por dentro estava um caos. Estar no mesmo ambiente que Selena o deixou dividido entre o passado e o presente. Cada vez que seus olhos cruzavam com a imagem dela — solta, leve, dançando como se o mundo não fosse capaz de feri-la — a vontade que explodia dentro dele era simplesmente abraçá-la, como se aquele gesto pudesse reescrever tudo. Giulia percebeu seu desconforto e tentou distraí-lo, quase como se ela carregasse a responsabilidade de manter o clima neutro, mesmo sabendo que aquilo não era um simples reencontro. Dante até tentou se distrair, sorrindo e conversando com os amigos, mas sua atenção escapava o tempo todo. Ela brilhava no meio da pista, enquanto rapazes a observavam com interesse, atraídos pela atmosfera livre e confiante que ela emanava. O coração dele acelerava, a respiração ficava pesada… era impossível ignorar. A culpa o corroía — não só pelo passado m*l resolvido com Selena, mas também pelo fato de estar ali ao lado de Giulia, que nada tinha a ver com suas feridas internas. Enquanto ele tentava seguir em frente com alguém, Selena apenas dançava, decidida a aproveitar a própria companhia. Ele era o conflito. Ela era a liberdade. Uma amiga de Giulia surgiu no salão e a chamou para conversar. Giulia se afastou com ela, enquanto Dante permaneceu ao lado dos amigos, segurando o copo, preso entre o presente e o que seus olhos insistiam em revisitar. Ele não conseguiu resistir — decidiu ir até Selena. Vittoria percebeu imediatamente a direção do olhar e o movimento dele, e avisou Selena, mas ela simplesmente ignorou e continuou dançando, como se nada pudesse interromper sua noite. Dante chegou bem perto, inclinando-se ao ouvido dela: — Posso falar com você? Selena virou, sentindo a proximidade, e se afastou rápido. — O que você quer? — gritou, tentando vencer o som da música. — Só quero saber como você está! — gritou ele de volta. — Estou muito bem! — respondeu, mas Dante não escutou. Ele se aproximou ainda mais, tentando ouvir, e o toque quase acidental do ar quente entre os dois trouxe o mesmo arrepio que ela sentiu quando se conheceram. De longe, Giulia viu o instante. Seu peito apertou, mas ela permaneceu observando, imóvel. Selena recuou mais alguns passos e gritou novamente: — Eu estou bem! Desculpa, eu preciso ir ao banheiro. Sem esperar resposta, pegou o braço de Vittoria e foi, deixando Dante só, assistindo a partida como quem perde uma última oportunidade. Ele respirou fundo, deu dois passos para trás e retornou ao seu círculo de amigos. Pouco depois, Giulia reapareceu com um sorriso aberto, como se absolutamente nada tivesse acontecido:
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