Era manhã, e o sol entrava pela janela, deixando sua marca alaranjada por todo o quarto de Selena. Ela estava deitada, completamente largada, de barriga para cima, com os cabelos cobrindo o rosto, quase impedindo-a de respirar. Ao acordar, levou as mãos ao rosto para afastar os fios que a incomodavam. Olhou para a janela, e seus olhos quase queimaram com tanta luz. Levou a mão ao rosto novamente e se levantou, tropeçando em sua amiga Vittoria, que dormia no tapete, ao lado da cama.
Caminhou até a cozinha e, ao chegar, olhou para o relógio: marcava dez horas. O susto veio acompanhado de um enjoo imediato. Levou a mão à barriga e correu ao banheiro, quase derrubando a porta. Segurou o cabelo e vomitou como se não houvesse amanhã. Seu estômago estava revirado, sua cabeça latejava, e seu corpo pedia socorro. Mas Selena precisava trabalhar — só não naquele estado. Entrou na banheira e ficou ali por uns 30 minutos, tentando lembrar o que aconteceu na noite anterior e como chegou em casa. Ela nunca foi de beber muito em ambientes desconhecidos, mas provavelmente a mistura de bebidas foi a causa daquela ressaca extrema. Uma ressaca que parecia gripe… ou morte.
Tremendo de frio, desejava ficar ali mais um pouco para aliviar a dor. Enquanto pensava de olhos fechados, pequenos flashbacks começaram a surgir: Dante a beijava. Achando que estava delirando, sacudiu a cabeça.
— Isso não aconteceu… não aconteceu. — repetiu.
Mas as lembranças insistiam em voltar.
Depois que Selena voltou do banheiro com Giulia, Enrico a chamou para dançar, e acabou rolando um clima entre os dois, o que despertou o ciúme de Dante. Ele ficava furioso cada vez que olhava para Selena e via Enrico perto dos lábios dela — os lábios que, em sua mente, pertenciam somente a ele. Giulia observava Dante, tomada pela raiva. Segurando o copo, tentou distraí-lo como fez desde o início da festa:
— Vamos dançar. — disse, puxando-o pela cintura.
Dante apenas a afastou com desprezo. Não conseguia sequer olhar para Giulia — seu foco era Selena. Ele estava transtornado, obcecado, dominado pelo ciúme. Irritada, Giulia o encarou enquanto os flashes de luz atravessavam seu rosto, e então jogou a bebida no chão:
— Você é um babaca! — gritou, saindo em direção à porta.
Preocupado com a situação, Dante foi atrás. Ao passar pela porta, encontrou Giulia na calçada tentando chamar um táxi.
— Giulia, me desculpa! Eu…
— Eu o quê, Dante? Está comigo, mas queria estar com outra? É isso que está tentando dizer?
— Não, Giulia… eu só me sinto perdido. — disse ele, segurando sua mão e olhando diretamente em seus olhos.
Com lágrimas escorrendo, Giulia o empurrou com força, virou de costas e levou as mãos à cabeça, desesperada.
— Eu não acredito que estou fazendo isso! Como posso estar apaixonada por um i****a como você? Com tantos homens atrás de mim!
— Giulia, por favor, me escuta… você não está raciocinando bem. — disse ele, tentando alcançá-la novamente, como se ainda houvesse salvação.
— Eu sei… não estou mesmo. Afinal, nosso namoro é de fachada. Não é, Dante? Vale tudo pela empresa do seu pai… tudo, até ferir o coração de quem te ama. Volta lá pra festa e vai se divertir. Eu vou pra casa. — respondeu, dando um passo para trás.
Dante corre atrás de Giulia, mas ela entra em um táxi antes que ele consiga alcançá-la. Ele para na calçada, frustrado, e chuta uma lata de refrigerante que estava no chão. Um grupo de jovens observa de longe e começa a rir, cochichando entre si. Dante respira fundo, engole a raiva e volta para dentro da festa.
Seus amigos o chamam e continuam conversando, contando piadas e relembrando histórias da escola, mas a mente de Dante está distante. Ele tenta rir, tenta acompanhar a conversa, mas é impossível: algo dentro dele exige que olhe para o lado. E quando olha, tudo desmorona.
Selena dança com Enrico, seus corpos próximos, o rosto dele perto do pescoço dela, quase tocando sua pele. Ele inspira o perfume adocicado que Selena sempre usou, segura sua cintura e, ao deslizar a mão, acaba levantando um pouco do vestido brilhante. Os cabelos dela se movem com o vento artificial, batendo de leve no rosto de Enrico, como se o hipnotizassem.
O coração de Dante parece saltar do peito. Sua respiração fica pesada, irregular. Parte dele quer ir embora; outra parte grita dentro da sua cabeça: “Você não pode.”
Seus amigos percebem a tensão e começam a zombar:
— Tira o olho, safadinho. Cadê a Giulia pra te dar um tapa? — brinca Antoni.
Dante apenas esboça um sorriso e bebe mais um gole de cerveja, tentando não desmoronar na frente deles.
Em determinado momento, Enrico se afasta para cumprimentar alguns convidados que chegaram tarde, enquanto Selena continua dançando — agora acompanhada apenas de Vittoria. Dante não consegue mais se controlar. Ele respira fundo, toma coragem e caminha em direção a Selena. Ao alcançá-la, segura seu braço com firmeza e a conduz para um espaço mais reservado.
— Me solta! Você tá louco? — protesta Selena, tentando puxar o braço.
Dante a encurrala contra a parede, apoiando uma das mãos ao lado do rosto dela, impedindo qualquer fuga.
— Então é isso? Agora tá ficando com o meu amigo?
— Eu não sabia que ele era seu amigo. E ele é meu cliente. — responde, com a voz trêmula.
— Bem típico de você sair com cliente… — provoca Dante, indignado.
— Isso não é da sua conta, Dante! — grita Selena, mais alto do que a música — E outra: sua namorada sabe que você corre atrás da sua ex?
— Você sabe que meu relacionamento com a Giulia é de fachada. — murmura, quase suplicando.
— Eu sei… e sei muito bem. Agora me deixa em paz. — dispara, furiosa.
Ela tenta sair, mas Dante a segura novamente, e a tensão explode. Ele a pressiona contra a parede, segura o maxilar dela com força e a beija com intensidade, mordendo seus lábios ainda molhados pelo brilho labial. Selena tenta corresponder por reflexo, mas o sentimento a paralisa: sente nojo de si mesma e percebe que aquilo já passou dos limites.
Consegue se desvencilhar, passa a mão pelo rosto e recua:
— Nunca mais fala comigo, Dante. Nem sequer me olha. Você escolheu essa vida… agora aguenta as consequências.
Ela dá alguns passos para trás. Dante tenta alcançá-la.
— Selena… eu… eu amo você.
Ela congela. Fica de costas, mas seus olhos enchem de lágrimas. Respira profundamente antes de se virar:
— É tarde demais, Dante. Você teve sua chance e nunca se declarou. Por que só agora?
— Eu estava com medo… medo de você não sentir o mesmo… e quando percebi, perdi o controle de tudo.
Selena se aproxima um passo, com a voz embargada:
— E a Giulia? Você acha que isso é justo com ela? Acha que ela merece essa humilhação?
Ela fala com pequenas gesticulações, olhando nos olhos de Dante, enquanto ele permanece parado, tentando encontrar uma resposta que não existe.
— Não sei… talvez ela compreenda.
— Não, Dante! Ela não vai compreender. Nem ela, nem o seu pai, nem ninguém! Isso é um caos. Basta! Está encerrado — afirmou ela, virando-se e caminhando em direção à festa, deixando Dante sozinho e frustrado.
Ao chegar ao salão, Vittoeia arregalou os olhos, surpresa, enquanto quase deixava seu copo cair. Selena observou-a com um olhar completamente diferente do que havia demonstrado minutos antes. Vittoria limitou-se a encará-la. Logo, Enrico surgiu, visivelmente embriagado, convidando as duas para conhecer alguns amigos. Ambas o acompanharam. Dante permaneceu à distância, atento, temendo que algo acontecesse com Selena.
Horas depois, Vittoria já não reconhecia o próprio nome, endereço ou sequer lembrava se tinha pernas. Estava caída no chão do salão, tentando recuperar o foco e sustentação. Selena, por sua vez, sentou-se em um sofá impregnado de odor de vômito, sem ideia de como voltaria para casa. Enrico estava deitado no sofá ao lado, cercado por garrafas vazias, até que seu motorista apareceu para buscá-lo. Segundos depois, Selena adormeceu. Dante, após procurá-las por um bom tempo, finalmente as encontrou, colocou Selena no carro e retornou para buscar Vittoria . Assim, levou ambas para a residência de Selena, acomodou-as na cama e passou a noite no sofá da sala.
Na manhã seguinte, após despertar e tomar banho, Selena vestiu um roupão e saiu do banheiro sentindo-se um pouco melhor. Caminhou pelo corredor rumo à cozinha e, ao passar pela sala, percebeu algo incomum: dois pés estavam visíveis além do sofá. Assustada, levou a mão à boca e aproximou-se com cautela. Inclinou-se lentamente por trás do encosto para verificar quem estava ali; no mesmo instante em que olhou, Dante despertou, fazendo os dois se sobressaltarem.
— O que você está fazendo aqui? — questionou ela, segurando um abajur como se fosse arremessá-lo.
— Calma. Eu trouxe você da festa ontem. Vocês duas estavam inconscientes e não havia mais ninguém lá — explicou ele, esfregando os olhos, incomodado com a luz que entrava pela janela.
— Certo, eu agradeço… agora pode ir embora — respondeu ela, ainda com o abajur em mãos, apontando para a porta.
— É assim que você demonstra gratidão? — perguntou ele, levantando-se, com um tom sereno, porém magoado. — Acho que mereço ao menos uma xícara de café.
— Tudo bem, eu posso servir o café, mas depois você vai embora — respondeu, devolvendo o abajur ao lugar e indo até a cozinha.
Dante a seguiu e sentou-se à mesa, observando-a preparar o café com tranquilidade e precisão. A casa era confortável e elegantemente simples. Embora pertencesse a uma pessoa rica, não havia exagero, apenas peças vintage, quadros antigos, organização impecável e um ambiente com personalidade própria. Sobre a pia havia um filtro de barro; na grande janela iluminada pelo sol, plantas traziam vida ao espaço. A louça era decorada com limões sicilianos — peças antigas, porém muito bem conservadas, herdadas de sua avó. O aroma de café recém-passado dominava o ambiente, com o vapor subindo suavemente.
Selena abriu um dos armários e retirou uma pequena xícara com a inscrição “vivere bene” em detalhes dourados. Serviu o café e o entregou a Dante, que agradeceu. Em seguida, ela voltou à bancada, pegou uma frigideira e alguns ovos guardados dentro de uma galinha de porcelana decorativa, posicionada ao lado do fogão.
Selena guardou os ovos, caminhou até a fruteira e pegou alguns tomates e um pimentão. Cortou-os com agilidade, misturou e levou a mistura ao fogo. Em poucos minutos, o omelete estava pronto. Ela o serviu em um prato e colocou sobre a mesa.
— Eu não sabia que você sabia cozinhar — comentou Dante, repousando a xícara de café sobre a mesa.
— Quem não sabe cozinhar? — respondeu ela, cortando o omelete com delicadeza.
— Eu nunca cozinhei nada. Às vezes tenho vontade de aprender.
— Deveria. Cozinhar é algo que qualquer pessoa precisa saber. É uma habilidade essencial para a própria sobrevivência — afirmou, falando com a boca cheia, enquanto fazia sinal para que Dante experimentasse.
Dante provou uma garfada e, imediatamente, arregalou os olhos como se descobrisse um novo sabor. Encarou Selena com surpresa, questionando como algo tão simples poderia ser tão saboroso. Ficou ainda mais impressionado ao perceber que havia gostado do pimentão — ingrediente que sempre rejeitou. Em restaurantes, fazia questão de pedir que o retirassem, mas, ao que parecia, isso deixaria de ser um problema dali em diante.
Os dois permaneceram conversando sobre culinária, rindo como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Passaram um bom tempo juntos, mas a realidade era que não se conheciam de fato. A forma inesperada e desconfortável com que se encontraram não permitiu a oportunidade de descobrirem quem realmente eram. Na verdade, Selena sabia mais sobre ele do que ele sobre ela. Como diz o ditado: “só se conhece alguém ao conviver.”
Ao terminar a refeição, Dante passou as mãos sobre as pernas, olhando para Selena com uma expressão suave.
— Obrigado. Acho melhor eu ir — disse ele, levantando-se devagar.
— Eu é que agradeço por ontem. De verdade, obrigada — respondeu ela, erguendo-se também, com uma das mãos dentro do bolso do roupão, visivelmente nervosa.
— Certo, já estou indo — afirmou ele, caminhando em direção à porta.
Selena o acompanhou, e Dante calçou os tênis enquanto ela abriu a porta. Antes de sair, os dois se olharam nos olhos, trocaram um breve sorriso silencioso e, então, ele se despediu. Ela fechou a porta lentamente, sentindo que algo dentro de si havia sido arrancado.
— É melhor assim… — sussurrou.