Sementes da Inveja

1127 Words
POV Aurora – 13 anos O que eu mais queria era ser invisível. Mas o mundo parecia ter prazer em me colocar sob uma luz que eu não pedi. Na escola, as coisas começaram a mudar — devagar, sem aviso. Tudo começou com um simples trabalho de arte. Eu pintei um retrato do pátio da escola ao entardecer, com as sombras longas e o sol se escondendo atrás do muro. Usei lápis de cor e paciência, e achei que ninguém notaria. Mas a professora viu. E elogiou. Na frente de todo mundo. — Isso é lindo, Aurora. Você tem talento. Foi como se ela tivesse acendido um holofote em cima de mim. E eu, que sempre andava colada nas paredes, virei assunto. Depois veio o projeto de literatura. Eu apresentei um texto sobre a importância das palavras e como elas podem curar ou destruir. Falei tremendo, mas com o coração. E, por alguma razão, as pessoas ouviram. Alguns colegas até me procuraram depois pra pedir ajuda com as redações. Pela primeira vez, me vi sendo notada — não como a “outra filha”, mas como alguém. E, por alguns dias, eu gostei da sensação. Gostei de não ser só um vulto no fundo das fotos da família. Mas Helena não gostou nem um pouco. Na primeira vez que percebi o olhar dela sobre mim, senti um arrepio. Era aquele tipo de olhar que parece sorrir, mas no fundo quer ver você tropeçar. — Tá achando que vai ser a nova estrela da escola, né? — disse ela, apoiada na porta do meu quarto, com o cabelo impecável e o veneno no tom certo. Não respondi. Continuei mexendo nos meus desenhos, fingindo que não ouvi. Mas dentro de mim, a voz dela ficou ecoando. Nos dias seguintes, o clima só piorou. Helena parecia ter feito da minha vida uma missão de observação. Cada vez que alguém me chamava pelo nome no corredor, ela estava por perto. Cada vez que eu ganhava um elogio, ela torcia a boca em silêncio. E então, veio o golpe de sempre: o cochicho. Helena nunca atacava sozinha. Tinha uma sombra — a amiga venenosa dela, a Rebeca. As duas andavam juntas desde criança, rindo baixinho, espalhando perfume e maldade. — A Aurora tá se achando demais — ouvi Helena dizer um dia no corredor. — Vai descer do salto rapidinho — respondeu Rebeca. — Só esperar a hora dela. Isso não dura. Parei atrás da parede e fechei os olhos. A raiva veio como uma pontada no peito, misturada com uma tristeza que eu nem sabia nomear. Eu queria rir. Queria dizer: “Vocês estão brigando comigo por quê? Por existir?”. Mas não disse nada. Fiquei quieta. Porque era isso que eu sabia fazer melhor. --- Na aula de educação física, tudo piorou. O sol estava forte, o cheiro de grama e suor se misturava no ar. A professora pediu que a gente corresse duas voltas no pátio. Quando comecei a correr, senti o olhar de Helena queimando nas minhas costas. — Vai correr, “menina bonita”, antes que alguém se encante e resolva roubar você daqui — ela zombou, com aquele sorriso de lado. Alguns riram. Outros ficaram em silêncio. Fingi que não ouvi, mas o rosto queimava. A cada passo, o chão parecia me puxar pra baixo. --- No final da aula, enquanto eu pegava minhas coisas, senti uma mão no meu braço. Me virei, assustada. Era uma menina que eu só conhecia de vista. Tinha o cabelo preso num coque bagunçado e um sorriso tímido. — Oi. Eu sou a Lara — ela disse. — Vi o que aconteceu. Quer ajuda com o trabalho de história? Hesitei. Não sabia se era pena ou bondade. Mas aceitei. Ela sorriu. — Sabe, eu acho que você não é tão invisível quanto parece. E foi o primeiro sorriso verdadeiro que recebi naquele ano. --- Cheguei em casa ainda pensando nisso. Lara tinha sido gentil. Mas gentileza, pra mim, sempre vinha acompanhada de desconfiança. Talvez porque, em casa, até o carinho tinha prazo de validade. Quando entrei, o ar da sala estava pesado. Helena estava sentada no sofá, de pernas cruzadas, roendo uma maçã como se o mundo fosse um palco e ela, a protagonista. A televisão estava ligada, mas o olhar dela estava em mim. — Então agora você tem amiguinhas? — perguntou, com o tom doce que precede o veneno. — É só um trabalho da escola. — Claro. Um trabalho. — ela sorriu torto. — Vamos ver quanto tempo você vai aguentar brilhar, Aurora. Tentei passar por ela, mas ela se levantou, bloqueando meu caminho. A luz da janela iluminava o rosto dela — bonita como sempre, mas com algo sombrio por trás. — Sabe o que eu acho? — ela disse, chegando perto. — Que você devia lembrar quem você é. Engoli seco. — Eu lembro. — Lembra? — Ela inclinou a cabeça. — Porque às vezes parece que esquece. Fechei a mochila com força. — Não vou brilhar por você, Helena. Ela riu baixo. Um riso que não era alegria — era desafio. — Veremos. Subi as escadas com o coração disparado. Cada degrau parecia um campo minado. Quando fechei a porta do quarto, respirei fundo e deixei o ar preso por alguns segundos. Olhei pro espelho. O reflexo me devolveu uma garota magra, com olheiras fundas e olhos cheios de algo que eu não sabia definir. Talvez fosse raiva. Talvez fosse o começo de força. Peguei o caderno e escrevi: “Quando as pessoas têm medo de te ver crescer, é porque sabem que não conseguem mais te controlar.” E então desenhei. Desenhei uma semente crescendo em meio à terra rachada. Ao redor, espinhos. No meio, um botão pequeno, mas vivo. Porque, no fundo, eu sabia. Helena podia rir, zombar, tentar apagar o que eu era. Mas as sementes da inveja que ela plantava… não iam me matar. Iam me fazer crescer. Mesmo que fosse à força. Mesmo que doesse. --- À noite, ouvi risadas vindo da sala. O som de taças, o perfume caro da minha mãe, a voz de Helena ecoando. Fechei a porta do quarto e me encolhi na cama, abraçando o travesseiro. Promessa — o cachorro da senhora da rua — apareceu na minha lembrança. Pensei nele, e no nome dele. “Promessa.” Então sussurrei pra mim mesma, no escuro: “Eu prometo. Que um dia, eu vou sair daqui. Que um dia, eles vão ver quem eu sou.” Adormeci com essa frase latejando na cabeça. E, pela primeira vez, o sonho não foi um pesadelo. Foi o som distante de algo nascendo dentro de mim. Algo que, mais tarde, o mundo chamaria de coragem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD