POV Aurora – 12 anos
Foi numa tarde de sexta-feira que tudo começou a mudar.
E, como quase tudo nessa casa, começou com vozes baixas atrás de uma porta fechada. Na verdade, tudo era de porta fechadas.
Eu estava subindo as escadas quando ouvi a discussão na sala de estar. Nessa hora eu comecei a andar mais devagar.
Papai falava baixo, mas furioso, dava pra perceber.
Mamãe respondia entre os dentes, como quem está tentando parecer calma, mas está à beira do pânico. E olha que ela nunca perde a classe.
— Eles deram prazo, Raul. Você entendeu? Prazo. — a voz da minha mãe tremia. — Se a gente não pagar em breve, eles vão... vão vir atrás da gente de outro jeito. Nem consigo pensar no que eles podem fazer com a gente.
— Já tô tentando resolver, c****e. Tem coisas que você não entende! Eu não sabia que a gente ia perder todo aquele dinheiro do investimento, tô tentando resolver as coisas.
— E se eles aparecerem aqui? Acha que estamos seguros? E Helena, acha que ela tá segura? Ela é minha maior preocupação.
Silêncio.
Meu corpo inteiro gelou.
“Eles”?
Quem são eles?
E por que Helena estaria em perigo?
Dei mais um passo devagar. O assoalho estalou sob meu pé.
Que droga! Maldita escada que rangeu agora, quando eu precisava dessa informação. Então eles pararam de falar.
Fugi pro quarto antes que me vissem. Se me pagassem mais ofensas aconteceriam. Fechei a porta devagar, mas por dentro, meu coração batia como se estivesse tentando escapar do peito.
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POV Aurora
À noite, Helena entrou no quarto pra pegar emprestado um livro — sem pedir, como sempre. Nenhuma novidade da parte dela.
Ela já estava quase saindo quando parou na porta. Me olhou de cima a baixo.
Eu estava só com uma camiseta larga, descalça, com o cabelo preso num coque improvisado, arrumando algumas coisas na minha mesinha de estudos, nada demais.
Ela franziu o cenho, como se visse algo errado.
— Que foi? O que é agora? — perguntei, suspeitando de algo.
Ela hesitou.
Mas os olhos dela diziam mais que a boca.
— Nada. Só... você tá diferente.
— Diferente como? Não tô entendendo, estou do mesmo jeito de ontem.
Ela mordeu o lábio inferior.
— Mais... bonita. Do nada. Mesmo sem tentar.
Soltou uma risadinha seca, mas os olhos... os olhos dela não estavam rindo.
— Cuidado pra não chamar atenção demais — completou, e saiu.
Fiquei parada por longos segundos.
Foi a primeira vez que percebi que algo tinha mudado na forma como ela me olhava.
E não era mais só desprezo.
Tinha outra coisa agora.
Algo mais ácido. Mais perigoso.
É natural acontecer, eu estava crescendo, ela também estava crescendo, não há nada que eu possa fazer sobre isso, são fazes do crescimento, aprendemos isso na escola. Que conversa mais estranha, não tem nada pra fazer não? É cada uma!
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POV Aurora
No dia seguinte, peguei Helena conversando com mamãe no corredor.
— Ela não devia usar essas roupas — sussurrou Helena, fingindo preocupação. — Tá ficando vulgar. E com esse corpo... imagina o que os vizinhos vão falar da nossa família?
— Você tem razão, meu bem. Vou cuidar disso — respondeu minha mãe — vou falar com ela, para mudarmos esse visual dela.
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POV Aurora
Mais tarde, mamãe veio no meu quarto com uma sacola e jogou umas camisetas largas em cima da cama.
— Vai começar a usar essas. São mais adequadas pra sua idade.
— Eu tenho a mesma idade de antes. Sou adolescente mãe.
— Mas seu corpo não. Vai se trocar. E sem discussão. Não me desafie, menina, vai usar e pronto.
Não discuti. Mais uma vez me calei, minha rotina de todos os dias.
Mas no fundo, entendi tudo.
Helena por algum motivo estava se sentindo ameaçada ou era outra coisa?
Ela estava tentando esconder o que estavam começando a enxergar:
Que eu estava deixando de ser invisível.
Pelo amor de Deus! Sou um criança, não tem nada demais usar blusas de alça.
E isso assustava. Será que ele sabia de alguma coisa?
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POV Aurora
Após algumas semanas, começaram a chegar envelopes misteriosos.
Fechados. Sem remetente.
Papai lia sozinho no escritório e depois trancava tudo na gaveta, ele tinha uma gaveta com chave. Dizia que era mais seguro pra documentos importantes.
Uma vez, esqueci meu caderno de atividades na sala e voltei pra buscar. A porta do escritório estava entreaberta. Vi papai sentado, segurando um papel com mãos tremendo.
No canto da folha, um símbolo desenhado à mão, que não consegui ver direito por causa da distância, mas, acho que era como se fosse cortado por uma lâmina.
Ele dobrou o papel rápido quando me viu.
— Sai daqui, agora Aurora.
— Eu só vim pegar...
— Eu disse sai! Não discuta comigo mocinha.
Naquela mesma noite, ouvi mamãe dizer baixinho, sentada no sofá:
— Eles estão observando. Ele sabe que temos duas filhas, Raul. Tenho medo do que eles podem fazer com Helena, ela é a mais importante.
Meu estômago afundou.
Não por causa do tom.
Mas pelas palavras.
Não sei ainda me surpreendo, sei que Helena é a favorita, não vi nada.
Mas agora... agora parecia verdade. Ouvir aquelas palavras tão claramente, era ainda pior, não sabia que ia me atingir tanto.
Fiquei em silêncio.
Mas algo dentro de mim se partiu em pedaços pequenos e frios. Eu sabia disso, mas porque me feriu tanto?
Não chorei.
Só deitei na cama de lado, encarando a parede.
E pela primeira vez, me perguntei:
"Se eu não sou filha deles... por que ainda tô aqui? Por que eles me odeiam tanto? O que eu fiz?"
"Ou pior... por que eles ainda me mantêm aqui?"
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POV Aurora
Naquela noite, escrevi só uma palavra no caderno:
Dívida.
E pela primeira vez, tive medo real.
Não de Helena.
Não de mim.
Mas de um nome que ainda eu conhecia bem: Família Ramos, minha própria família.