04. Sara Huston

1169 Words
A reunião encerrou-se há quase uma hora, e eu praticamente corri da sala para o meu pequeno refúgio. Ao sentar na minha cadeira, soltei o ar que estava prendendo e encarei o computador à minha frente. Não demorou muito para a porta do meu escritório ser aberta com calma. — Posso entrar ou estou atrapalhando? — perguntou Kaio, parado na porta, apenas metade do seu corpo visível, forte e rígido. — Não atrapalha, entre por favor! — avisei, embora quisesse fugir dali, me enterrar em um buraco. Eu não queria vê-lo, e não sabia por quê. Vi ele entrar, caminhando com passos largos até chegar à minha frente. — Em que posso ser útil? — perguntei ainda com a cabeça baixa, fingindo estar anotando algo. — Vim falar sobre a organização do desfile, baby. — disse, enfiando as mãos no bolso da calça social, enquanto seus olhos escuros estão fixos em mim. — Agora? Sinto muito, Kaio, mas estou preenchendo umas papeladas para o senhor Damon, e meu dia está corrido. — avisei, desviando minha atenção dele. — Poderia ser um pouco mais profissional e olhar pra mim, gatinha. — senti seus dedos grandes e mornos tocarem meu queixo, forçando o contato visual entre nós dois. — Eu preciso fazer isso agora com você, porque não tenho tempo — avisou, retirando os dedos do meu queixo. — Então me dê um motivo para que eu deixe de fazer meu trabalho e atenda você. — desafiei, levantando-me e me inclinando sobre a mesa, olhando nos olhos dele. — A questão é que eu sou o futuro dono dessa empresa, coisa linda, e o senhor Damon é meu pai. — respondeu, também se inclinando sobre a mesa, seu rosto próximo ao meu, enquanto ele olhava nos meus olhos e depois seus olhos deslizavam sobre minha boca. Engulo em seco. Eu sabia que Kaio tinha uma família, mas que o senhor Damon era seu pai? Disso eu não estava sabendo. Eu queria, de todo modo, me afastar dele. Não queria que minha vida passada voltasse, nem esse amor que deixei para trás tantos anos atrás. Não sou o tipo de pessoa que fica remoendo o passado. Me ajeito, molhando os lábios secos com a ponta da língua. Eu nem sabia o que falar agora, especialmente olhando para ele, que tinha um sorriso presunçoso nos lábios. — Desculpe, Kaio, estou estressada pelo trabalho — aviso, passando as mãos nos meus cabelos. — Não se preocupe, não direi nada ao senhor Damon. Se você não tiver tempo agora, poderíamos marcar para falar sobre o assunto na minha casa. O que acha? — ele coloca novamente um sorriso encantador nos lábios. O que ele está tentando fazer? Será que ele acha que sou boba? Claro que não vou aceitar isso. — Podemos resolver isso agora, não tem problema — limpo a garganta, olhando para ele. — Por mim, tudo bem — avisou, levantando as mãos em sinal de rendição. Kaio se aproxima de mim calmamente, como se fosse um predador. Ele está tão perto, perto o suficiente para eu sentir novamente o cheiro de seu perfume masculino. Por um momento, pensei que ele ia me beijar, mas ele apenas pega uma caneta do estojo atrás de mim. — Então, vamos começar, senhorita Huston — disse, mostrando-me a caneta, enquanto eu me xingo mentalmente pelo ridículo que fiz. Me ajeito, observando-o sentado no pequeno sofá. Ele está com a cabeça baixa, revisando alguns documentos que trouxe da reunião. Enquanto isso, brinca com a caneta entre os dedos. Permito-me analisá-lo por alguns instantes, até que a bolha é quebrada por sua pergunta inesperada. — Você é sempre assim? — perguntou, olhando para cima, mas ainda focado nos papéis. — Assim como? — franzo o cenho. Kaio está olhando os papéis e não me encara. — Gosta sempre de admirar as pessoas quando estão concentradas ou só a mim que você gosta de admirar? — agora ele me olha. — Não sei do que está falando. — digo, me movendo para pegar todos os projetos e mostrá-los a ele. Ele não diz nada, apenas fica calado. Kaio parece mais um homem sobre-humano, pois me faz perguntas sem me olhar, calcula todos os meus passos, olha nos meus olhos como se neles encontrasse minhas verdades e mentiras. Eu me sinto desprotegida quando ele faz isso. — E você? — pergunto, me virando para ele. — O que tem eu? — ele está curioso e algumas ruguinhas perfeitas surgem em sua testa. — Fez pacto com o d***o? — brinco, e ele solta uma risada gostosa de ouvir. — Não, amor, eu sou o próprio d***o. Você ainda terá tempo para me conhecer direito. — disse, seus olhos ficando mais escuros enquanto me olha. Confesso que isso me assusta. — Não fique com medo, eu não vou machucar você. Você é minha preferida, eu amo. — disse, voltando a atenção aos papéis. — Lembre-me de rezar ou orar quando eu retornar para casa. — brinco novamente, e ele apenas mostra um sorriso ladino. Lembro-me do que Kate havia dito sobre as tatuagens, e só então caio na real. Não me surpreenderia se Kaio estivesse envolvido em algo ilegal. Sempre gostou de desafios e vidas perigosas. Até o pescoço dele era tatuado. Ficamos ali por horas, trabalhando como dois bons amigos. Verifico o horário no meu celular, que está próximo, e percebo o quanto Kaio está incomodado quando vê que a imagem de fundo do meu celular é uma foto de mim e Vinícius nos beijando. Eu disse que não gosto de viver no passado,mas aquela imagem é a única lembrança que tenho de nós dois, e a única coisa que tenho na minha vida. — Quem é ele? — Kaio pergunta, tirando a atenção do celular. — Meu falecido noivo. — digo com tristeza. — Ele morreu em um acidente no dia que íamos nos casar. — acrescento. — Parece que você o amava muito. — comenta. — Sim. — digo. Kaio solta uma respiração pesada que estava prendendo, e percebo o quanto ele está incomodado. Ele escreve algo no papel, coloca as pastas em cima das minhas pernas e se levanta. — Já estou indo, tenho alguns assuntos para resolver. — avisa, olhando o relógio de pulso. — Mas me diga antes de você ir, o que achou do projeto? — pergunto, olhando nos olhos dele. — Está maravilhoso, Sara. Creio que tudo o que você fizer, e como fizer, ficará perfeito. Então, cuide disso aí para ver se conseguimos fazer alguma coisa amanhã mesmo — pede. Eu apenas confirmo com a cabeça, vendo ele sair. Não sei se Kaio ainda sente algo por mim. Não dou muita importância, afinal, éramos apenas adolescentes na época. Mas ele saiu aborrecido quando mencionei que amava Vinícius. Não vou mentir sobre meus sentimentos, eles são verdadeiros. O que eu poderia fazer? Afinal, o nosso relacionamento na adolescência não foi tão significativo para mim, senão teria voltado para Paris quando meus pais faleceram.
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