Chegada a Istambul - Abertura
Sempre vou lembrar de todos os momentos que passamos juntos antes de você partir e partiu meu coração, eu fiquei sem reação sozinho aqui. Sempre vou lembrar que a melhor escolha que um dia eu fiz foi escolher você, que me deu amor, esse amor que há só em você. Se palavras me procuram, tento aqui te encontrar, procurando em cada canto o brilho que existe em seu olhar. E esperar por sua volta me deixa sem entender. Onde está o amor? Será que ele há em você? E o céu que se abriu pra a gente se amar, trouxe um brilho indecifrável que encontrei seu olhar. E palavras me procuram, logo posso entender. Onde está o amor? O amor há em você. Sempre vou lembrar...
Música eletrônica no fundo, luzes e muita dança. Emre costuma sair aos fins de semana para se divertir com amigos mais íntimos em algumas casas de show de Istambul. Atualmente sua empresa de imóveis tem lucrado bastante. O jovem empresário de apenas vinte anos tem muito dinheiro para esbanjar. Seu perfil não é muito de ostentação, mas não abre mão de uma diversão entre amigos.
Enquanto isso, no interior, na cidade de Dinek, uma jovem está preparando a mudança para Istambul. Sarah vai morar com sua tia Tania, que já reside em Istambul.
– Espero que tudo dê certo, minha filha. – Sua mãe a abençoa, desejando boa sorte nos estudos na cidade grande.
Para uma pessoa do interior era um choque de cultura. A Turquia é um país laico, apesar de ser majoritariamente muçulmano. Na capital, Ankara e na sua principal cidade Istambul, os costumes são bem diferentes das cidades mais isoladas.
Há uma forte predominância religiosa nos vilarejos longe de Istambul e das grandes cidades. Em alguns lugares isolados, existem os clãs. São ajuntamentos familiares com suas próprias normas e leis. Quase sempre, uma espécie de sharia (lei radical islâmica) é aplicada entre os residentes. Os anciões que coordenam tudo o que se passa ali.
Sarah está acostumada com esse jeito de ser. Até a forma de falar é diferente das pessoas de Istambul. Sem dúvidas, isso gerará um preconceito. É comum fazerem chacota das pessoas do interior.
Dinek está no coração da Turquia. Cidade pequena, com clima deserto. A agricultura é a principal fonte de renda de boa parte da população. Muitos vão para Konya ou outras cidades maiores para tentar uma vida melhore. Dentre eles, os jovens que buscam uma chance nas boas universidades turcas.
Passando por Konya, Dinek dista setecentos e trinta e dois quilômetros de Istambul. Passando por Ankara, a distância entre as cidades é de setecentos e noventa e dois quilômetros.
Sarah pegou o caminho mais curto, passando por Konya. As belas paisagens fazem qualquer cidadão apaixonar-se mais por seu país. Quem turista a Turquia corre sérios riscos de nunca mais voltar para seu país de origem. A beleza dessa terra é indubitavelmente encantadora.
O destino de Sarah nem sempre é o da maioria das meninas de seu vilarejo. Muitas delas são prometidas em casamento ainda novas. Há quem desconheça, mas essa prática ainda é comum em muitos países asiáticos.
Apesar do status de desenvolvimento da Turquia, o país não está isento de costumes e tradições patriarcais, onde os clãs têm total poder e liberdade para agir sobre as escolhas das pessoas.
São alianças familiares que passam de geração a geração. Quem não consegue sair desse meio para buscar um futuro diferente – como faz, agora, Sarah – acaba ficando refém do triste destino de um casamento infeliz.
O número de divórcios na Turquia vem crescendo. Mas o país ainda está longe daqueles com a maior taxa de divórcios. Os acordos e contratos firmados pelos clãs tendem a perpetuar para evitar conflitos entre famílias.
As mulheres muçulmanas nas cidades menores tendem a seguir um traje mais religioso. O hijab – peça indispensável como um véu que cobre a cabeça da mulher, escondendo seu cabelo – está sempre presente entre elas.
Nas grandes cidades, os trajes religiosos são vistos com menor frequência. Sarah não se vê sem o seu modo religioso de se vestir. Sua modéstia não está apenas sobre a sua cabeça, mas em todo o corpo.
Mas, não é apenas o hijab que é usado como vestimenta religiosa. Há outras roupas indispensáveis para a mulher muçulmana. A burka não se usa na Turquia, apenas em países mais extremistas como a Arábia. O niqab é muito presente, principalmente entre as mais velhas. Na Turquia é comum, assim como na Indonésia e outros países muçulmanos. O chador é outro tipo de veste religiosa feminina que cobre quase todo o corpo, mas não se vê na Turquia, presente no Irã. Al-amira é pequeno como um hijab, dando um contorno maior à cabeça da mulher e caindo sobre seus ombros e peito, sendo um pouco maior que o hijab. Por fim, a shayla é usada de forma mais elegante como um hijab que cai sobre ombro e peito igual a um tipo de cachecol.
A empresa de Emre está crescendo no mercado de imóveis e conquistando a Turquia a todo o vapor. Seu pai, Samir, tem planos de expandir o negócio além da fronteira e investir, também, no Azerbaijão. Parece que o mercado imobiliário em Baku, capital azeri, tem agradado a ambos. É um bom lugar para investimentos.
Emre não está preocupado com relacionamentos amorosos. Ainda é um jovem homem e pensa em focar nos seus negócios. A sua grande paixão do momento é a renda de seus empreendimentos.
Amanhecia, num domingo quente de verão, quando o ônibus de Sarah desembarcou na Harem Otogarı – rodoviária de Istambul.
Tudo novo! Com um sorriso no rosto, Sarah desembarca do ônibus, retira sua bagagem e caminha para a área do ponto de táxi. Pega o celular e liga pra sua tia.
– Oi, tia. Bom dia! Cheguei agora à rodoviária. Daqui a pouco chego aí.
Seu traje bem típico de uma garota do interior. Caminha em direção a um táxi e pede uma corrida para o endereço que está anotado numa folha de caderno.
É comum que taxistas perguntem algumas coisas sobre de onde a pessoa vem e onde vai morar na cidade.
– De onde você vem?
– Dinek.
– Dinek? Fica depois de Konya, certo?
– Isso mesmo.
– E o que você veio fazer aqui na cidade grande?
– Vim estudar psicologia.
– Psicologia? Que maravilha! Muito boa a escolha.
Sarah consentiu com um sorriso. Estava decidida a estudar psicologia. Ela estudaria na Kadir Has, uma das melhores instituições para cursar psicologia na Turquia.
Enfim, o táxi para em frente à casa de Tania. Ela está esperando da grande porta de vidro. Abre o portão e recepciona sua sobrinha.
– Bom dia, querida! Seja bem-vinda!
– Obrigada, tia. Salamalaykum.
– Alaykum assalam. Entra, sente-se. Pode deixar aqui suas coisas. – aponta para um pequeno divã com estofamento vermelho em madeira de acácia. – Vou buscar um chá.
O principal chá servido na Turquia é apenas chamado de chá, assim é o nome da planta chá-preto. De tom avermelhado, funciona como um excelente energético matinal, por causa da sua concentração de cafeína. Também tem ação antioxidante, melhorando o humor e prevenindo doenças cardiovasculares.
Depois do chá, Sarah entrou no quarto preparado pra ela. Ali estava uma cama de solteiro na cor branca. Um guarda-roupa, um espelho, uma escrivaninha e um tapete para servir como seu cantinho de oração. Os muçulmanos têm como principal prática religiosa a oração. Sarah era uma religiosa fervorosa. Em Istambul teria algumas opções de mesquita a frequentar.
Agora tudo era novo. Uma cidade grande. Novas oportunidades. Teria que se adequar ao novo modo de vida em Istambul, bem diferente da sua pequena cidade na região de Konya.
O que o destino reservara a ela? Sarah não sabia, mas tinha a certeza que ali viveria enormes emoções tão quentes quanto ao calor do verão de Istambul.