O Vestibular

2887 Words
– Hoşgeldiniz! – Que traduzido é “bem-vindo(a)”. É comum na Turquia saldarem com oi/olá (salam/merhaba) como, também, com um bem-vindo. Sarah acenou com a cabeça, era impossível esconder a alegria, estampada em seu lindo sorriso. – Entre, sente-se. Hoje é o seu primeiro dia de aula conosco, certo? – Sim. A sala só tinha meninas. Todas elas, assim como Sarah, buscavam uma vaga no curso de psicologia. Estavam ali para o curso preparatório para o vestibular. – Meninas. Tudo o que vai ser abordado aqui é assunto importante para o nosso vestibular de psicologia. Farei uso das questões de vestibulares passados. Na sala, nenhuma garota usava hijab, somente Sarah e a tutora. Nas grandes cidades turcas, as mulheres não costumam cobrir a cabeça com o traje religioso. Isso é mais frequente nas cidades do interior. Sarah ainda guardava o costume aprendido com a sua mãe em Dinek. A aula foi bastante produtiva. Além desta, teriam mais dois encontros para sanar qualquer dúvida antes do vestibular de verão. Sarah estava empolgada com os estudos. Era uma menina muito dedicada. Ainda em Dinek, havia se preparado para o exame. Agora, com o curso preparatório, teria mais chances de ingressar na universidade. Caminhou lentamente pelos corredores do campus universitário. Notou que algumas garotas a olhavam e cochichavam coisas. Para ela, estava vestindo-se normal. Não abandonava a sua modéstia, sempre com o hijab sobre a cabeça. Bem diferente das meninas das grandes cidades turcas. O dia estava quente em Istambul. Sarah estava morrendo de fome e de sede, mais de sede do que de fome, quando chegou à casa de sua tia. Tania estava preguiçosamente jogada sobre o sofá, usando seu traje de dormir, despreocupada com a hora do dia. – Bem-vinda! – Bem-vinda, tia! Sarah correu direto para a cozinha para pegar um copo d’água. Precisava hidratar a sua garganta que já estava seca com o clima quente. – Como foi a aula? – Ah, foi muito boa! – Disse numa empolgação não correspondida pelo olhar frio e indiferente de Tania, que agora olhava atentamente para uma revista de moda sobre suas mãos. – Terei mais dois encontros como este de hoje até à prova do vestibular. – E você está preparada pra isso? – Sim, estou. – Será que está mesmo? – Falou entre os dentes. Sarah indignou-se com a forma que Tania falara com ela. Foi direto para o seu quarto e pensou: “como pode alguém assim? Não deseja o meu sucesso. O que há de errado comigo ou com ela?” O Sol estava escaldante. Já era onze e meia e os restaurantes movimentados em toda Istambul. Dentre eles, o mais chique e badalado era frequentado por Emre. O jovem empresário estacionou sua linda Ferrari branca em frente ao restaurante e saiu todo elegante para comprar um suco. Estava usando uma calça sarja na cor ocre, camisa branca e um elegante suéter slim fit na cor grafite escuro, sapatênis branco, cabelos desgrenhados ao vento e sobre eles um óculos escuro. Entrou no restaurante, onde tem muitos amigos. Já é uma figura bastante conhecida por todos ali, inclusive por muitos clientes. – Günaydın (bom dia)! – Bom dia! – Querido Emre, em que posso ajudar? – Quero apenas uma limonada. Emre não costumava comer nos dias mais quentes. Limitava-se a beber sucos e chás gelados. De fato, aquele era um verão muito quente. Uma onda de calor tomava conta de toda a Europa e Ásia. Felizmente, a Turquia é um país com boas opções de sucos e chás. Sarah resolve dar uma volta na cidade. Resolve refrescar um pouco a cabeça e sair para comer fora. Afinal, pra que fervilhar os neurônios, se o dia já estava bem quente? O restaurante onde Emre encontrava-se não ficava muito distante da casa de Tania. Sarah não estava gostando de morar ali, por causa das afrontas da sua tia, que a detestava. Mesmo assim, não tinha para onde ir e deveria ficar por ali mesmo. Como diz o ditado: “kar çiftçinin yorganidi” (a neve é a manta do agricultor). Passou em frente ao luxuoso restaurante e desejou entrar. Mas, logo desistiu ao ver os preços. Nem sonhando poderia comer ali. Viu a Ferrari branca estacionada paralelamente à calçada do restaurante e pensou: “só gente rica come aqui”. Emre se despedia dos seus colegas, com um sorriso no rosto saiu pelas portas do restaurante. Seu olhar e seu sorriso encantaram Sarah, fazendo com que seu coração disparasse. Ele caminhou lentamente até a bela Ferrari. Passou a mão num dos bolsos e destravou a máquina. “Uau! Aquele carro é dele!” – Pensou, Sarah: “Além de lindo é rico”. “Boba! Ele nunca se interessará por mim.” – Seguiu caminhando pela rua, mudando seus pensamentos para sua realidade. Precisava estar focada no vestibular do próximo mês. O estreito de Bósforo era sempre lindo. Durante o verão, gaivotas disputam os peixes com os pescadores locais. O canal corta a grande cidade de Istambul, dividindo-a metade na Europa e metade na Ásia. Sarah ainda não conhece o lado europeu, mas deseja visitar em breve. Enfim, encontra um restaurante para almoçar. O local é aconchegante, com vista para o Bósforo. Não é muito caro e a comida é boa. Está contente com o passeio solitário. Precisa fazer amizades na cidade, pois não tem com quem sair. Do nada, uma invasão em seus pensamentos, vem à mente a imagem daquele homem que ela viu sair pela porta do nobre restaurante. Emre a encantara com a sua beleza. Sarah não ficou interessada em seu dinheiro ou seu carro. Ela sentiu uma enorme atração quando o viu. Sarah voltou para casa e ficou no seu quarto até a hora do chá da tarde. Desceu para a cozinha, onde sua tia já servia o famoso chá-preto do tipo único presente na Turquia. É tradição turca tomarem chá diversas vezes por dia. O chá é servido, também, como sinônimo de hospitalidade. Um verdadeiro paradoxo, pois Sarah não sentia-se bem recebida ali. – Você poderia procurar um namorado. Talvez assim se vestiria melhor. O chá estava servido, mas Tania não deixava os comentários indesejados guardados. Tinha o prazer de ver a expressão descontente no olhar de sua sobrinha. – Eu não estou aqui na cidade para me relacionar com ninguém. Esqueceu que vim pra cá estudar? E eu sei me vestir. Tania soltou uma gargalhada, projetando sua cabeça para trás. – Ah, Sarah. Você é boa contando piadas. Sarah subiu para o seu quarto. Passava a maior parte do tempo estudando, lendo e trocando mensagens com suas amigas de Dinek. Uma delas perguntou como estava sendo viver em Istambul: – Como é aí? Muito diferente? – Bem diferente, amiga! Aqui as mulheres não cobrem muito a cabeça. As roupas são mais curtas do que as do nosso vilarejo. Sarah pegou um livro para ler, enquanto ouvia música e mastigava uma maçã. Os romances dramáticos eram os seus livros preferidos. Por um momento viu-se em pensamentos junto com o ainda desconhecido Emre. Seus olhos brilharam ao imagina-lo segurando a sua mão. Já era noite e Emre estava descansando na sacada da varanda de seu quarto. De bermuda, camisa de botão desabotoada, revelando seu belo físico, de quem vai regularmente à academia. Está na companhia de seus melhores amigos, Ivan e Erick. – E os amores? Como vai seu coração, cara? – Perguntou Erick. Emre deu um sorriso sarcástico, balançando negativamente a cabeça, em desdém. – Eu não namoro, meu irmão. – Como assim não namora? – Ivan e Erick ficaram surpresos. Qualquer garota de Istambul adoraria namorar com ele, seja por dinheiro ou por sua beleza. Era um cara bastante atraente. – É difícil encontrar uma boa pessoa na Turquia. Aqui as mulheres amam primeiro o seu dinheiro pra, talvez, algum dia amar você. Todos concordaram nisso. Nenhum deles ali namorava. Seus amigos suspeitavam que Emre ainda gostava da sua ex-namorada que foi morar na Grécia. Ela era uma menina culta, muito inteligente e linda. Seu pai, por ser grego, preferiu voltar para seu país e todos eles foram morar em Atenas. Assim, o relacionamento veio ao fim. Emre e Larissa nunca mais se falaram. – O jeito é você conhecer os vilarejos e r****r alguma garota de um clã. – Ivan deu essa ideia maluca e todos riram. Não precisava ir muito longe. Perto do restaurante preferido de Emre estava morando uma garota de vilarejo que agora pensava nele. Sarah e Emre são de universos completamente diferentes. – Vai à Alemanha por esses dias? – Perguntou Erick. – Não. Pretendo ir apenas no final do ano a passeio. Não tenho negócios a tratar por lá. Acho bem difícil querer expandir nossos negócios em solo alemão por agora. Precisamos ser mais conhecidos. Eu e meu pai estávamos pensando em Baku. Seria uma boa opção. – Eu também acho que Baku é uma boa opção. Dizem que as azeris são lindas e bastante animadas. – Brincou, Ivan. Todos riram. Assim como a Turquia, o Azerbaijão é um país muçulmano. Porém a maior parte de sua população não é praticante da religião. Acredita-se que as mulheres de lá são mais animadas e amam uma balada. Ivan e Erick são os administradores na empresa imobiliária de Emre. Em sua ausência, só estão abaixo do seu pai Samir. Eram todos amigos de infância que cresceram juntos e empreenderam juntos também. Sarah abriu as redes sociais antes de dormir, após terminar a leitura de mais um romance. Ela lia bastante. Geralmente, uma média de dois livros por semana. Apareceu um anúncio – daqueles que sempre aparecem nas redes sociais – justamente da empresa de Emre. No anúncio, aparecia o jovem empresário todo elegante ao lado de um imóvel. Sarah o reconheceu na hora. “Aquele homem do restaurante”. Agora Sarah sabia seu endereço comercial. Não era muito, mas já era alguma coisa. Poderia tentar vê-lo mais vezes passando em frente ao seu trabalho. O dia amanheceu com oração. Era o momento da salat – período que se divide em cinco tempos de oração diária dos muçulmanos – ainda antes do nascer do sol, quando Sarah encontrava-se de joelhos sobre o tapete de oração em seu quarto. É um lindo tapete vermelho com desenhos dourados, contendo, no centro, a chahada ou shahadah (profissão de fé islâmica, literalmente traduzida como “testemunho”). Em sua mão, Sarah segura a masbaha. Masbaha ou misbaha é semelhante a um rosário católico, muito usado para meditação e recitação de textos do alcorão (o livro sagrado do islã). Sarah ergue as duas mãos aos céus, sempre em direção a Makka (Meca), que é a cidade santa do povo muçulmano, situada na Arábia Saudita, onde encontra-se a famosa Kaaba. Sarah está fazendo a du’a, que é uma oraçã ode invocação, súplica e pedido a Allah (Deus). Para os autênticos seguidores do profeta Maomé, a du’a é como a essência da adoração. Era quinta-feira e seu dia deveria ser um pouco mais curto. Isso porque ao por-do-sol de quinta começa a Jumma mubarak (sexta-feira santa), que é o dia sagrado islâmico. A partir desta Jumma, Sarah não deixaria mais de seguir o dia sagrado de descanso muçulmano em Istambul. Antes do final da tarde – quando Sarah já deveria estar dentro de casa – a jovem saiu pela cidade e lembrou-se do endereço comercial de Emre. Ela ainda nem sabe o seu nome, apenas que é empresário no setor imobiliário na cidade. Resolve procurar pelo endereço e percebe que não fica muito longe do campus universitário. Como de costume, Sarah não deixa seu hijab de lado. Atualmente, mais da metade das mulheres que vivem em Istambul e em Ankara não cobrem a cabeça ao sair na rua. Apesar de ser um país majoritariamente muçulmano, a roupa da mulher turca é bastante flexível nas grandes cidades. Ao passar em frente a uma padaria, Sarah parou para comprar doces de pistache. É muito comum na Turquia a presença de doces. Há uma grande diversidade de doces na terra da Nutella. É desse país que sai boa parte da avelã para a produção do famoso creme que acompanha pães, torradas, etc. na mesa de pessoas ao redor do mundo. Os doces de pistache são os seus favoritos. – Lütfen (por gentileza), gostaria de um doce deste. – Apontou para o doce de pistache que estava na vitrine. – Aqui está. Teşekkürler! (Obrigado!) – Ne kadar? (Quanto custa?) – Dezessete liras turcas. A Turquia ainda não é um país da União Europeia, por isso a sua moeda é a lira turca. Talvez vai demorar muito para que esse país bicontinental faça parte do bloco econômico. Há tensões políticas sobre o atual governo do presidente Erdoğan. Boatos de que ele estaria financiando a milícia criminosa na região de fronteira e facilitando a entrada de armamentos no país fez com que o clima esquentasse nas reuniões de recepção à União Europeia. Mesmo sem uma comprovação, essa informação foi suficiente para afastar a Turquia do bloco econômico. Enfim, Sarah passa pela avenida onde está o escritório da imobiliária de Emre. Há um grande letreiro com o nome da empresa. “Cennet Soluções Imobiliárias” – Esse é o nome da empresa. Cennet, em turco, significa paraíso. A ideia passada ao cliente é que fazendo negócio ali, pode conquistar seu imóvel e morar no verdadeiro paraíso. Sarah caminhou lentamente. Coração começou a palpitar mais forte. Não sabia o porquê estava ali, passando em frente aquela loja, se o dono dela sequer sabia de sua existência. Ele era rico e quais chances ela teria com ele? Bem em frente, estava estacionada a Ferrari branca. Era aquele carro que ela viu Emre entrar naquele dia, em frente ao restaurante luxuoso. Ela espera do outro lado da calçada. Não pode demorar, pois precisa chegar em casa antes do por-do-sol. Emre não segue a religião à risca. Sequer frequenta alguma mesquita. Apenas faz as orações – nem todas – e, em datas específicas como a Eid Mubarak, vai às celebrações. Não demora muito e Emre aparece. Está ao celular parado na calçada, ao lado do seu carro. Está elegante, usando um suéter azul escuro, camisa social azul, calça social sport cinza. Volta para o interior da loja e conversa com um de seus empregados. Está falando com Nabir, um de seus principais empregados. Agora sai e entra em seu carro. Dá partida e desaparece pela avenida. Sarah está contente por revê-lo. Não o conhece, mas sabe que além de lindo é um homem bem sucedido. Volta para casa, sorrindo, imaginando a companhia de Emre. Logo, a realidade vem à tona e percebe que é apenas uma menina infeliz, vivendo na casa da sua tia que a detesta. Precisa esquecer essa improvável paixão e focar nos estudos. Os dias se passam e já foram os dois encontros de revisão e preparação para a prova do vestibular de psicologia. Chegou o grande dia do exame. Sarah está ansiosa. Sua tia deseja boa sorte. Sarah agradece, mesmo sabendo que há mais falsidade do que lealdade em sua tia. Tania já é uma mulher de quarenta e quatro anos. Não se deu bem no seu casamento. Seu ex-marido a deixou após dois anos de casado. Ele engravidou uma mulher mais nova e foi morar com ela na Bélgica. Depois disso, Tania nunca mais quis saber de relacionamentos. Fez terapia durante um bom tempo para se recuperar do trauma de um casamento r**m e da dor da traição. Superou, mas não mudou seu jeito grosseiro de tratar as pessoas, principalmente seus familiares. Ela um dia também foi de vilarejo. Foi para Istambul ainda adolescente, com seus dezesseis anos, quando conheceu o seu ex-marido. Ele a pediu em casamento, pagando o dote à sua família. Não é comum a prática do dote na Turquia, mas ele ainda está presente, sobretudo em vilarejos. A família dos Şahingöz era muito pobre e explorada por outros clãs. Precisava de libertar-se. O casamento de Tania foi um grande negócio libertador. O dote, pago todo em ouro, serviu para fazer melhorias na vila familiar e impor respeito na região. O mehir (dote) pago à família de Tania não foi muito grande, mas foi o suficiente para construir e reformar toda a vila da família e elevar o status, antes de subjugados para dominantes. Sarah chega ao campus para fazer a prova. Está bastante ansiosa. Suas mãos tremem. O jardim do campus está bastante florido com tulipas que embelezam a paisagem. Além delas, o Zakkum (Oleandro) explode em sua cor rosa, alegrando quem o vê. A prova teve duração de quatro horas. Sarah secou a garrafinha de água que levou para tomar durante o exame. Ao terminar a prova, faltando poucos minutos para o final, levantou-se exausta da cadeira onde estava. – Pronto. Aqui está. – İyi şanlar! Boa sorte! Voltou para casa empolgada. Tinha a certeza de ter feito uma boa prova. Apesar de um pouco difícil, tudo o que estudou caiu nas questões. Não se lembra de alguma questão em que teve dúvida ao responder. Está bastante confiante com a aprovação. “Agora me resta aguardar o resultado e confiar”, pensou. De fato, conduziria os próximos dias com muita oração. Era uma muçulmana fervorosa, bem diferente de sua tia.
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