Amanheceu em Istambul. Seria mais um ensolarado dia de verão. Uma corrente de ar trazia o frescor do Mar de Mármara para o interior da cidade. Ao tocar a copa das árvores, o vento uivava sobre as galhas de carvalhos, castanheiros como, também, os galhos das bétulas.
Sarah acordou animada. Iria fazer uma caminhada até as margens do estreito de Bósforo. Queria conhecer mais pontos dessa imensa cidade.
Ela caminhou bastante até chegar ao Nakkaştepe Millet Bahçesi, em Üsküdar, onde viu a Universidade de Üsküdar Merkez Yerleşke. Avançou até a Torre de Leandro, também chamada de Torre da Donzela. Não atravessou até ali, apenas apreciou sua beleza às margens.
Ao chegar a Harem, pode avistar a belíssima mesquita Santa Sofia, do outro lado do Bósforo. A essa altura o seu coração batia forte, querendo atravessar para o lado europeu. Não hesitou e tomou uma condução que passa pela D100 (autoestrada turca que liga sua fronteira com a Bulgária até sua fronteira com o Irã).
Sarah chegou ao lado europeu de Istambul e percebeu que a Turquia era tão interessante em seu lado europeu quanto o seu lado asiático. Ficou encantada com a mesquita Azul (Mesquita do Sultão Ahmed), construída nos anos 1600.
Ao passar por ela, viu a mesquita Sofia, que é muito mais antiga. Santa Sofia é uma mesquita do período bizantino, ainda nos anos 500. Era a catedral da antiga Constantinopla.
Mais a frente está o Topkapı Sarayı (palácio Topkapı), cujo nome significa “porta do canhão”, construído em 1460, após a conquista de Constantinopla. Afinal, esses anos foram marcantes para a história da Turquia.
A queda de Constantinopla (antigo nome dado à cidade de Istambul), em turco relatada como İstanbul'un Fethi, foi após a disputa entre bizantinos e otomanos. A cidade estava nas mãos do Império Bizantino e fora tomada pelos invasores otomanos. O ocorrido foi justamente na data religiosa para os cristãos bizantinos, no domingo de pentecostes (29 de maio de 1453).
A conquista foi feita por Maomé II, otomano, que automaticamente transferiu sua capital para ali.
Com isso, o Império Romano veio ao fim. A influência do islamismo foi maior na região, graças a vitória sobre os cristãos, o que foi determinante para a sua entrada na Europa, podendo chegar a países bálcãs, em especial Bósnia e Herzegovina.
Com essa tomada de Constantinopla, os otomanos puseram fim à era medieval na Turquia.
O cerco da cidade começou ainda na primeira semana de abril daquele ano. Otomanos usaram bem as pólvoras em seus canhões que desafiaram as muralhas além do vale do Rio Lico. Em poucos dias, as muralhas cederam aos ataques e vieram a ruir.
O placar de vitórias parecia favorecer os bizantinos que já haviam derrotado uma primeira tropa de Suleimã Baltoghlu e outra de Maomé II. No mar, mais uma derrota com os navios que vinham carregados pelo Mar de Mármara. Tudo conspirava a favor dos bizantinos.
Derrotas e mais derrotas eram acumuladas pelos turcos otomanos, que estavam sozinhos contra a frente bizantina. Do lado bizantino estavam: o seu próprio império, o despotado sérvio, a República de Gênova, a República de Veneza, o Reino da Sicília, Estados Papais e os gregos.
Há quem cante “a Lua me traiu”, mas ninguém poderia levar esse m*l presságio tão a sério como os bizantinos. Era noite de Lua eclipsada. Para eles, era um m*l presságio, pois criam que sua resistência duraria enquanto a Lua brilhasse no céu. O que não era mais possível naquela noite.
Carregados de religiosidade e superstição, os bizantinos, além do eclipse lunar da noite anterior, tiveram na manhã seguinte a imagem da Virgem Maria caída no chão. Sem dúvidas era um mau sinal!
O mau tempo confirmou o que tanto temiam. Uma tempestade de chuva e granizo tomou conta de Constantinopla. O pior é que nem para bizantinos, nem para turcos aquela tempestade era boa. Estavam todos exaustos.
Após tentativa de negociação, Constantino XI recusou-se a pagar o tributo aos otomanos e a única opção dos turcos foi dar a cartada final.
Mais horas de luta na madrugada do dia vinte e nove. Os otomanos não estavam conseguindo romper as muralhas e entrar na cidade até que acharam uma brecha no portão noroeste. A entrada foi triunfal, ferindo Giustiniani e desaparecendo com Constantino XI.
A clássica luta entre gregos e turcos foi reconstruída no cenário. Enquanto gregos desordenados sem as ordens de Giustiniani lutavam sobrecarregados, os turcos otomanos bem disciplinados os venciam no combate.
Com a vitória e saque de Constantinopla, Maomé II determinou que a Hagia Sofia (antiga catedral de Santa Sofia) fosse transformada em mesquita, onde está até os dias de hoje.
Bela Turquia com muitas histórias para contar. Tudo isso era ensinado nas escolas de lá. Sarah conhecia bem essa história e agora podia passar pelos locais dessas grandes disputas do passado. O bairro de Eminönü era muito belo. Ali estava também a Universidade de Istambul.
Sarah lembrou-se do resultado do vestibular que estava prestes a sair. Estava empolgada e bastante animada com a possibilidade de ingresso na faculdade de psicologia. Era tudo o que mais queria fazer na grande cidade turca.
Como sempre, era um dia de muito trabalho para Emre. Estava bastante ocupado em seu escritório.
– Aqui está o relatório que o senhor me pediu.
– Obrigado, Elisa.
Elisa é a secretária de Emre. Uma bela jovem de dezenove anos. Loira de olhos azuis, explode em beleza sem igual. Seu corpo atlético, com belas curvas, desperta os olhares de toda a rapaziada. Ela só tem um interesse. Está louca por uma oportunidade com o seu chefe, Emre.
Para por um momento à frente dele, tentando passar mais tempo perto do seu chefe. Mas, logo, sai da sala.
Era um dia quente e o ar condicionado estava ligado o dia todo. Nabir é um funcionário exemplar. Nunca falta ao trabalho e é muito dedicado no que faz. Faz parte do setor financeiro e tem total confiança de Emre.
– Chefe, licença. Aqui está o balancete financeiro do último mês.
– Obrigado! Pode deixá-lo sobre a minha mesa.
– Como vão as coisas? Pretende viajar à Alemanha por agora?
– Ah, por enquanto não. Estou um tanto desanimado com aquela parceria em Bonn. Acredito que é mais viável, atualmente, fecharmos negócio com os investidores de Baku.
– Baku é uma boa opção.
– Sim, eu sei. Eu e meu pai iremos em breve conhecê-los.
– Desejo boa sorte! – Saiu da sala, despedindo-se de Emre.
Já era final da tarde quando Emre pegou sua Ferrari e voltou para casa. Ao passar por uma das avenidas de Istambul, pegou o cruzamento com uma das ruas mais movimentadas, onde se vê casas de doces e padarias. Ali estava Sarah.
Ao passar pelo local, Sarah olha pra frente justo na hora em que a Ferrari passa pelo cruzamento. Era ele! Seu coração palpitou mais forte. Um vento forte passou pela rua, bagunçando as coisas que estavam sobre as mesas do lado de fora dos comércios.
Um vaso de vidro, cheio de pétalas de rosa, cai no chão, partindo-se. A calçada de um ateliê fica romanticamente decorada, embelezando a passagem dos pedestres. Sarah olha pra isso e sente que está começando a gostar de verdade do empresário desconhecido.