Acontecimentos

1978 Words
Alguns dias passaram e Sarah recebeu a resposta da faculdade. Estava aprovada! Iria cursar o curso de psicologia numa das melhores universidades da Turquia. Abriu um enorme sorriso e dirigiu-se à sua tia: – Tia, tenho uma novidade pra contar. – Conta. – Eu passei no vestibular de verão pra cursar psicologia! – Que bom. Meus parabéns! Sarah estava enérgica. Pegou o celular e mandou mensagem para todas as suas amigas. Por chamada, conversou com sua mãe: – Mãe. A senhora não sabe o que aconteceu. – O quê, minha filha? – Eu passei na faculdade de psicologia! – Que bom, minha filha. Fico tão orgulhosa de você! Alhamdulillah! (Louvado seja Deus!) – Alhamdulillah! Emre estava atrasado para uma entrevista com fornecedores de Esmirna. A reunião seria num grande centro empresarial da cidade. Pegou sua mala, seu suéter – como sempre elegante – caminhou com pressa pelo corredor da empresa, ao deixar seu escritório. Elisa vinha depressa na direção contrária, carregando um pouco de chá, quando os dois se chocaram. O chá caiu sobre sua impecável camisa branca. – Aman! Saçmalık! (iyi keder) Minha nossa! Que m***a! – Me desculpa, mil perdões. Como sou desastrada! Allah, Allah! – Está tudo bem. Passo em casa e troco de camisa. Elisa ficou namorando para aquela camisa branca de Emre, agora suja de chá preto. Queria poder desabotoá-la e ver o abdômen dele. – Você se queimou? – Não. Está tudo bem. Görüşürüz! Até breve! – Allahismarladik! Até breve! “Allah! Que homem!” – Pensou Elisa ao despedir-se do chefe. Tudo o que ela mais sonhava era ter a oportunidade de beijá-lo. Desejava muito sair com o seu patrão algum dia, nem que fosse só um encontro. Elisa estava usando um lindo vestido azul turquesa. Essa é a cor símbolo da Turquia. Apesar de ter a bandeira vermelha, a Turquia só tem esse nome devido à pedra turquesa de coloração azul. No território turco, é possível encontrar dessa pedra que é bastante usada na confecção de pulseiras. Diz-se que as turquesas de coloração mais azulada, assim como essa do vestido de Elisa, são as mais caras. Já as de tons esverdeados têm o valor de comércio mais inferior. A turquesa é um fosfato de alumínio, contendo ferro e cobre em menor quantidade, sendo um pouco mais dura que o vidro. Na Pérsia Antiga, a turquesa era a pedra nacional, servindo para decorar objetos. Os carros tomavam conta da turbulenta cidade de Istambul. A quantidade de carros é impressionante. Istambul, além de ser a cidade mais populosa da Turquia, é a segunda cidade mais congestionada do mundo. Sua rua mais badalada é a Istiklal Caddesi. Conduzir em horário de grande movimento é um verdadeiro teste de paciência ali. Um dos motivos para tanto fluxo de veículos é o fato de Istambul ser a única cidade do mundo dividida em dois continentes. A todo o tempo há gente indo da Europa pra Ásia e vice-versa. O dia estava quente e muitas pessoas saíram pelas ruas de carro. Emre estava entediado no trânsito. Teria que passar em casa para trocar de camisa, mas o horário não o permitia. Precisava ganhar tempo. Usaria o suéter fechado, cobrindo a mancha de chá sobre sua camisa branca. Quase toda a movimentação de dinheiro que Emre faz é por meio de moeda digital. Raramente pega numa nota de lira turca. Apesar do progresso, o uso de criptomoedas está sendo banido no país. Há uma enorme desconfiança sobre a lira e queda nos investimentos de criptomoedas na Turquia. Por enquanto, o país não aceitará mais transações usando, por exemplo, bitcoin. Em toda a parte, em cada esquina, se vê tulipas. As flores são o símbolo da cidade. Na época da antiga Constantinopla, Istambul também foi chamada de a “cidade das tulipas”. Muita gente de todo o mundo visita o festival anual das tulipas. A Turquia é o sétimo país mais visitado do mundo. Enfim, Emre chegou ao local da reunião em um dos centros empresariais de Istambul. O local é realmente enorme. Procurou pelo investidor e de longe viu a sua secretária. Era uma bela morena. Morena clara, de cabelos castanhos com mechas douradas, italiana de Treviso, mora na Turquia desde os quinze anos. – Merhaba! Olá! Tudo bem? – Estou bem, obrigado. Como está? Onde está Nihat? – Ele já está vindo. Ah, ali está. Nihat apareceu a passos largos, em seu elegante terno azul marinho e camisa azul turquesa. – İyi günler! Boa tarde! – Nasılsın? Como vai? – Estou bem. Como está? – Bem, também. Venha, sente-se. Vamos conversar. A conversa estava satisfatória para Emre. Talvez, em breve, abriria uma nova franquia na cidade de Esmirna. Nihat estava animado com a proposta e poderia levar uma nova unidade da imobiliária para lá. – Aceitam um pouco de chá? – Muito obrigado, Izabella. Nihat estudou bem a proposta. Os minutos seguintes foram de muita reflexão. Afinal, precisava pensar bem se estaria fazendo um bom negócio. Emre olhou seu luxuoso relógio de prata no pulso esquerdo marcar três e trinta e cinco da tarde. Não poderia esperar por muito tempo. Passaram-se alguns minutos e Nihat corrigiu a postura, abriu o peito e olhou fixamente para Emre. Ergueu a mão direita e disse: – Eu aceito a proposta. Um aperto de mão e a assinatura de Nihat no contrato firmaram o acordo. Ficaram de pé e trocaram beijos no rosto. É comum na Turquia que homens se cumprimentem com um beijo no rosto. Todo o chá preto foi consumido. Geralmente os turcos bebem muito chá. O chá mais apreciado por todos é o chá preto. Em média, um turco bebe dez xícaras desse chá diariamente. Emre retornou para a empresa. Ainda tinha algumas coisas a serem alinhadas com a equipe. Não faria uma reunião, mas chamou para uma rápida conversa alguns de sua equipe. Dentre eles, sua secretária Elisa e seu nobre funcionário Nabir. – Tenho novidades. Consegui fechar uma parceria com um investidor de Esmirna. Em breve, teremos uma nova filial lá. Preciso muito do empenho de vocês e quero que treinem um líder para ser transferido para a unidade de lá. Aquela era, sem dúvidas, uma notícia animadora. Afinal, era sempre bom ver o progresso da empresa. Dali não sairia um novo líder, mas treinariam um novo líder para atuar em Esmirna juntamente com Nihat. Os dias se passaram e Sarah estava animada com o ingresso na faculdade. Já havia feito sua matrícula e aguardava em casa o começo das aulas. Recebeu uma ligação de sua mãe. – Oi, mãe. Tudo bem? – Nosso clã está em perigo. Estou com muito medo. Eu e seu pai estamos dentro da nossa vila, evitando sair. – O que está acontecendo? Me conta, mãe! – Os clãs entraram em conflito. Ainda existem clãs e disputa entre eles no interior da Turquia. Infelizmente, o clã dos Şahingöz estava em atrito com grupos vizinhos. Tudo era por conta da constante disputa de terra. Os Şahingöz eram donos de uma região em Dinek que leva para as serras e um pequeno vale. Grupos de clãs rivais não estão permitindo a família de Sarah acessar o local, ameaçando saquear todo o plantio. Se o ancião, que decide as questões de conflitos entre clãs, não resolver o problema, o atrito pode levar a uma disputa mais severa a ponto de luta corporal. Isso é o que todos na casa dos pais de Sarah temem. Quase ninguém mais se arrisca a sair da vila. A agricultura é fundamental para todos eles. Essa é a base de sua subsistência. Sem ela, é impossível viver. Com certeza, o que os inimigos estão fazendo é desleal. Algo precisa ser feito urgentemente. Na janela do quarto de Sarah, um objeto que virou tradição entre as solteiras turcas. Como de costume, a moça solteira deixa uma garrafinha de vidro à janela. Isso significa que a moça estava esperando por um noivo. Era assim que Sarah fazia. A sua garrafinha era fina, indicando que ela é magra. Enfim, chegou o primeiro dia de aula para Sarah na universidade. Em seu pulso direito estava uma pulseirinha contendo olhos turcos. Tradicionalmente, os olhos turcos representam boas energias. Usar um olho desse significa que está espantando as energias negativas. Ao adentrar pelo portão do campus, Sarah olhou aos céus e disse: “Bismillah!” Essa expressão tem inúmeros significados no islamismo. A tradução mais comum é a oração religiosa: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”. O campus era grande. Muitos estudantes veteranos e calouros, aos poucos, foram tomando conta do pátio central. Logo, Sarah seguiu pelo corredor que dava acesso à sua sala. Entrou na sala e tranquilizou-se ao ver, além dela, outras duas garotas usando hijab. Não estava sozinha. A sua religiosidade era muito forte. Não se sentiria bem no traje das outras meninas turcas de Istambul. Gostava de cobrir a cabeça como gesto de decência. Era uma garota pura e queria guardar-se para seu futuro marido. Entrou na sala e sentou-se próximo às garotas de hijab. Eram todas jovens como ela. Alguns rapazes encheram a sala. Muitos deles eram bonitos, mas nenhum mais bonito que o seu crush desconhecido. A aula inaugural foi dirigida pela mestra Eda Reçber. Todos ficaram bastante atentos à aula. Estavam empolgados com o começo das aulas. Logo no primeiro dia, Sarah fez algumas amizades. As moças de hijab eram Damla e Derya. A combinação perfeita, pois Damla significa gota de água e Derya significa mar. Voltaram para casa conversando e descobriram que não moram tão longe umas das outras. A manhã de aula foi bastante produtiva. Puderam aprender bastante coisas sobre o curso que terão durante os próximos cinco anos. – Quando puder, vamos marcar um encontro nosso. – Vamos sim. Até amanhã! – Sarah despede-se de suas novas amigas. Ao entrar em casa, encontra sua tia cozinhando. Tania tem um toque especial na culinária. Sabe fazer comida bem temperada e com um sabor ímpar. Todos os que provam sua comida elogiam. Há quem sugira que abra um restaurante. Isso não está nos planos dela. – Bem-vinda! – Obrigada! O que está cozinhando? – Ah, resolvi fazer Mantı. – Sério, tia?! Eu amo comer Mantı. Sarah adorava a comida de sua tia. Tania sempre estava inovando na cozinha. O mantı é um prato típico muito parecido com o italiano ravioli, recheado com carne, iogurte e especiarias. O segredo está nas especiarias. Tania dominava a arte de temperar os pratos. Acertava no ponto e no sabor. A convivência entre Sarah e sua tia não era das melhores, mas na hora da comida estavam sempre unidas. Mais um dia de trabalho para Emre. Em sua sala, estava pensativo sobre novas parcerias que teria em Baku. Em alguns dias, ele e seu pai viajariam para o Azerbaijão a negócios. Precisava ser bastante assertivo na busca por um investidor de sucesso. Contorceu seu pescoço, espreguiçando-se sobre a poltrona de trabalho. Elisa entrou na sala. – Já tomou o seu çay? – Estava com uma pequena jarra de chá preto em sua mão. – Ah, muito obrigado! – De nada. Posso te dizer uma coisa? – Olhou com um sorriso tímido no rosto. – Pode – Emre respondeu curioso. – Você é um gato! – Disse isso mordendo os lábios. Elisa estava elegantemente linda em seu vestido preto com uma pequena a******a sobre o peito. Nada tão chamativo. Emre sorriu e ficou sem reação. Seu rosto corou. Agradeceu pelo chá e disse educadamente que Elisa poderia se retirar da sala. Sem dúvidas, aquilo a deixou bastante contente. Ela estava alegre por ter roubado um sorriso de seu chefe. “De pouco a pouco”, assim pensou. “Em breve, vou conquistá-lo, eu sei”. Estava determinada a fazer isso. Seu interesse estava mais nas finanças de Emre do que em sua pessoa.
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