Capítulo 1
Capítulo 1
SERENA NARRANDO
— Mamãe...
A voz chegou até mim como um sussurro perdido no meio da escuridão.
— Mamãe, por que você não me levou para casa?
Meu coração disparou na mesma hora. Comecei a girar de um lado para o outro, procurando desesperadamente pela menina que me chamava. Eu sabia quem era. Sabia sem precisar ver seu rosto. O problema era justamente esse. Eu nunca conseguia ver.
Sete anos tinham passado. Sete anos. E o pesadelo continuava exatamente igual. Eu ouvia a voz da minha filha. Sentia a presença dela. Sabia que era ela, com uma certeza queimando no meu peito: minha filha estava viva, eu sentia isso, eu sabia. Mas o rosto dela nunca aparecia por inteiro, ficava sempre sumido no meio de um borrão.
— Mamãe... — A voz dela falhou, mas dessa vez eu consegui enxergar mais.
A menina estava magra. Muito magra. As roupas pareciam largas demais para seu corpo pequeno. Os cabelos estavam embaraçados, as mãos sujas e havia uma tristeza tão grande nela que meu peito doeu só de olhar. Ela parecia sozinha. Abandonada. Como se tivesse crescido sem ninguém para protegê-la.
— Meu amor... — Corri na direção dela sem pensar. As lágrimas já escorriam pelo meu rosto. — A mamãe está aqui.
Ela levantou os olhos para mim.
— Você demorou.
isso me atingiu como uma facada.
— Eu procurei você. Eu juro que procurei.
— Então por que não me levou embora?
A pergunta me destruiu. Porque eu não tinha resposta. Porque durante sete anos eu me fiz essa mesma pergunta todos os dias. Porque eu também queria saber.
Tentei alcançá-la, mas sombras surgiram ao redor dela. Braços desconhecidos apareceram da escuridão e começaram a arrastá-la para longe.
— NÃO! — Meu grito ecoou pelo vazio. — SOLTEM ELA!
A menina começou a chorar.
— Mamãe!
— Eu estou aqui!
— Mamãe!
— EU ESTOU AQUI!
Tentei correr. Tentei alcançá-la.
Mas minhas pernas simplesmente não obedeciam. Era como se meu corpo estivesse preso ao chão. Ela desapareceu diante dos meus olhos mais uma vez, deixando aquela sensação insuportável de que eu estava sempre chegando tarde demais. Exatamente como acontecia todas as noites.
E exatamente como acontecia todas as manhãs, acordei sentindo que tinham arrancado um pedaço de mim. Sentei na cama assustada, tentando recuperar o ar. Meu coração parecia querer escapar pela boca. Levei alguns segundos para lembrar onde estava.
Meus olhos percorreram o teto, as paredes e a pequena janela até que a realidade finalmente voltou.
Eu estava no Morro da Alvorada, na casa dos Santiago, no quarto onde passaria os próximos meses se tudo desse certo.
Passei a mão no rosto e soltei um suspiro quando senti as lágrimas. Ótimo. Eu tinha chorado dormindo de novo.
Sete anos depois e continuava doendo igual. Quem inventou essa história de que o tempo cura tudo nunca perdeu um filho.
Eu não sabia mais se aquilo era esperança ou pura teimosia. Só sabia que não conseguia parar de procurar. Ela era minha filha.
Me levantei devagar porque eu não podia me dar o luxo de desabar, não hoje. Tinha que botar a máscara de pessoa normal e trabalhar. Eu tinha trabalho para fazer e precisava parecer uma pessoa normal, não uma fugitiva, assassina ou uma mãe destruída. O relógio marcava pouco mais de seis da manhã e hoje era o meu primeiro dia oficial de trabalho como babá. Eu devia estar feliz. Tinha um teto, uma cama e um emprego. Depois de tudo que vivi, isso já era quase um milagre. Só que meu corpo parecia não ter recebido o aviso. Eu estava cansada num nível que nem dormir resolvia.
Fui até a mochila que carregava comigo para todos os lugares. Essa mochila já tinha atravessado mais cidades do que muita gente conhece durante a vida inteira. Dentro dela estavam minhas roupas, alguns documentos, pouco dinheiro e uma pequena caixa que guardava tudo o que eu havia conseguido reunir ao longo daqueles sete anos.
Abri a tampa com cuidado. Aqui dentro estavam fotografias antigas, anotações feitas às pressas, endereços rabiscados em pedaços de papel, recortes de jornais, nomes de pessoas que prometeram ajudar e dezenas de pistas ocupavam o interior dessa caixa. Algumas tinham me levado a becos sem saída. Outras me fizeram atravessar cidades inteiras atrás de promessas vazias. Ainda assim, eu guardava tudo, porque qualquer detalhe poderia ser a peça que faltava para me levar até minha filha. Passei os dedos sobre a única fotografia que possuía dela. Minha garganta apertou.
— Eu vou encontrar você. — Falei baixo, eu repetia essa promessa todos dias.
Talvez eu estivesse perseguindo fantasmas. Talvez estivesse correndo atrás de uma pista que nunca existiu. Mas até alguém provar o contrário, eu continuaria procurando.
Fechei a caixa e a guardei novamente. Sobreviver custava caro, e esse emprego tinha aparecido justamente quando eu estava ficando sem opções. Se a dona Conceição não tivesse cruzado meu caminho dois dias antes, provavelmente eu estaria procurando um banco de praça para dormir.
Conceição apareceu na minha vida quando eu estava ficando sem opções. Ela precisava de alguém para cuidar da neta e eu precisava desesperadamente de trabalho. Durante a entrevista, foi gentil comigo desde o primeiro minuto e garantiu que o filho estava de acordo com a contratação. Segundo ela, ele estava fora do morro havia quase duas semanas e ainda demoraria alguns dias para voltar, o que me daria tempo para me adaptar à rotina da casa antes de conhecer o homem que mandava em tudo por aqui.
Depois que Augusto morreu, minha vida virou de cabeça para baixo. Perdi a casa, os planos e a falsa sensação de segurança que eu acreditava ter. Também precisei desaparecer antes que os Ferraz me encontrassem, e isso significou abandonar meus pais sem sequer poder explicar o motivo. Minha mãe provavelmente ainda chorava sem saber se eu estava viva. Meu pai devia continuar esperando uma ligação que nunca chegava. Eu sentia falta dos dois. Da comida da minha mãe, das broncas do meu pai, até das discussões bobas que eu reclamava quando ainda morava com eles. Mas não podia voltar. Não enquanto minha filha continuasse desaparecida. Não enquanto existisse a chance de alguém usar meus pais para me encontrar.
Um dia eu pisaria na casa deles de novo. Um dia pisaria naquele portão, abraçaria os dois e explicaria tudo. Mas antes eu precisava encontrar minha menina.
Tomei banho, coloquei uma calça jeans simples, uma blusa discreta e prendi os cabelos. O reflexo no espelho não era dos melhores. As olheiras denunciavam noites m*l dormidas e anos de sofrimento acumulado, mas eu já tinha parado de brigar com a minha aparência fazia tempo. Eu precisava sobreviver. Era isso.
Saí do quarto e comecei a observar a casa. Ela era enorme. Não enorme de um jeito normal. Enorme de um jeito que me fazia lembrar que eu estava trabalhando para uma família que tinha dinheiro, poder e influência suficientes para mandar numa comunidade inteira. Eu já tinha visto apartamento de gente rica em Botafogo menor do que aqui, e o barulho de motos acelerando e do pessoal conversando nos becos mostrava que o morro já estava bem acordado e a todo vapor. Eu comecei a descer as escadas quando ouvi uns passos rápidos e uma voz de criança me chamar.
— Serena! — Sorri automaticamente.
Aninha apareceu correndo pelo corredor com um pijama rosa e os cabelos completamente bagunçados.
— Bom dia, pequena.
— Você dormiu aqui mesmo? — ela soltou, curiosa.
— Dormi, sim.
— Que bom! — Ela abriu um sorrisão e pegou na minha mão, fazendo meu coração dar um aperto esquisito. Tinha alguma coisa nessa menina que bagunçava meu coração. Talvez fosse o jeito como ela sorria. Talvez fosse a forma como segurava minha mão sem medo. Eu só sabia que, perto dela, o peso que eu carregava parecia um pouco menor. — A vovó falou que você faz tapioca.
Eu ri do jeito dela e perguntei:
— E você acha que ela mentiu?
— Espero que sim — ela mandou, bem séria.
— Ué, por quê?
— Porque se for verdade eu vou engordar.
Acabei caindo na gargalhada com a resposta. A Aninha botou as mãos na cintura, toda cheia de marra, e continuou:
— É sério!
— Claro que é.
— Meu pai diz que eu como igual a um pedreiro.
— E ele está errado? — brinquei.
— Muito errado! Eu sou uma princesa.
Eu ri de novo, olhando para o sorrisão dela. Pela primeira vez em anos, essa dor pesada que ficava no meu peito deu uma trégua.
A manhã passou melhor do que eu esperava, a dona Conceição precisou sair cedo e a Aninha ficou grudada em mim. Brincamos. Tomamos café. Assistimos desenho. Conversamos sobre escola, livros e um monte de assuntos aleatórios. Aninha falava pelos cotovelos. E eu adorava ouvir; era impossível não gostar dessa pequena. Por algumas horas eu consegui esquecer tudo. Esqueci da busca. Esqueci do medo. Esqueci dos sete anos correndo de cidade em cidade atrás de pistas que nunca levavam a lugar nenhum.
E isso já valia muito.
Perto das onze horas, subi para o quarto para me arrumar antes do almoço. Eu estava cansada num nível preocupante. Daquele tipo de cansaço que dormir não resolve. Meu corpo pedia descanso. Minha cabeça pedia terapia. E a minha conta bancária pedia emprego, o m*l-estar do pesadelo parecia colado no meu corpo. Fui no banheiro, lavei o rosto com água gelada e fiquei alguns segundos encarando meu reflexo.
— Você consegue. — Era uma mentira. Mas uma mentira necessária.
Foi quando tudo aconteceu.
Abri a porta do quarto e dei um passo para o corredor, travando na mesma hora. Tinha cinco homens ocupando o caminho. Todos com uns fuzis enormes, grandões com cara de quem ia matar o primeiro que respirasse errado. No meio deles estava um homem muito alto, cheio de tatuagem, com os olhos escuros, o maxilar travado e uma cara tão fechada. Ele me encarou feito um bicho olhando para a presa, como se a minha presença aqui incomodasse ele profundamente. Como se eu fosse um problema que ele precisava resolver.
Ninguém falou nada por uns segundos que pareceram uma eternidade. Os olhos dele desceram pelo meu rosto, pela minha roupa, pelo meu corpo todinho, e voltaram para os meus olhos com uma intensidade que deixou o clima ainda mais pesado e perigoso.
Ele veio andando na minha direção e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, sua mão fechou em volta do meu pescoço com força suficiente para deixar claro que ele não estava brincando. Não havia delicadeza alguma no toque, apenas controle. Senti um arrepio r**m subir pelas costas enquanto os homens atrás dele continuavam parados, só olhando para ver o que eu ia fazer, como se a minha vida dependesse dessa resposta.
Ele apertou o maxilar com força e soltou a voz, bem baixa, fria e de dar medo em qualquer um:
— Quem caralhos é você? — Meu coração disparou enquanto os dedos dele me esmagavam contra a parede. — E que p***a você tá fazendo dentro da minha casa? Porque eu tenho certeza que nunca autorizei nenhuma estranha a entrar aqui.
Nessa hora a ficha caiu e eu entendi direitinho quem era o homem na minha frente: Bernardo Santiago. O Sombra. O cara que mandava no Morro da Alvorada inteirinho.
Tentei puxar um pouco de ar e gaguejei:
— Acho que houve um m*l-entendido. — Mas ele apertou o meu pescoço ainda mais, me fuzilando com os olhos escuros e cruéis.
— m*l-entendido é o c*****o. Eu fiz uma pergunta. Agora responde, porrä.