Capítulo 2

1463 Words
Capítulo 2 SERENA NARRANDO — Eu fiz uma pergunta. Agora responde, porrä. A mão dele apertou minha garganta um pouco mais, só para deixar claro que isso aqui não era um pedido. Meu coração batia tão rápido que o som do meu próprio sangue apitava no ouvido. Atrás dele, os cinco armários continuavam imóveis. Ninguém ia me ajudar. Ninguém parecia nem um pouco surpreso com o dono do morro enforcando a funcionária nova no meio do corredor, como se fosse só mais uma terça-feira. Tentei puxar um fio de ar. — Meu nome é Serena Albuquerque. Os olhos escuros continuaram cravados em mim, frios e sem um pingo de paciência. — E daí, caralhö? — Dona Conceição me contratou para cuidar da Aninha. O maxilar do ogro travou na mesma hora. — Dona Conceição. — Ele cuspiu o nome da própria mãe como se fosse um xingamento, e finalmente largou meu pescoço. O alívio foi imediato. Levei a mão para a garganta, tossindo para puxar o ar de volta, mas o interrogatório estava longe de acabar. — Macarrão! — a voz dele ecoou pelo corredor, grossa e cheia de ódio. Um dos homens deu um passo para frente. Alto, moreno e com uma cara de quem misturava seriedade com deboche. O cara parecia já saber exatamente a merdä que ia dar. — Fala, irmão. Sombra apontou o dedo na minha cara. — Quem foi que autorizou essa mulher aqui dentro? O tal Macarrão piscou, na maior paz do Senhor. — Tua mãe. O silêncio que caiu depois dessa foi quase cômico. Quase. Sombra fuzilou o cara. — Eu perguntei quem autorizou. — E eu acabei de responder. Um dos outros caras virou o rosto para a parede, claramente tentando não rir. Fiquei aqui, parada, sem saber se o tal do Macarrão era o cara mais corajoso do morro ou se só não tinha instinto de sobrevivência mesmo. Sombra estreitou os olhos. — Tu tá querendo me estressar logo agora que eu chegar, porrä? — Não. — Então para de responder igual um idiotä filho da putä. Tu sabe muito bem que caralhö eu quero saber. — E tu para de fazer pergunta que já sabe a resposta. Jesus amado. O corredor inteiro ficou num silêncio de necrotério. Ou esse cara era maluco, ou era muito amigo do Sombra. Talvez os dois. Sombra passou a mão na barba, fazendo força visível para não cometer um homicídio aqui mesmo. — Por que ela tá dentro da minha casa? Macarrão soltou um suspiro cansado. — Porque a Aninha precisa de babá. — Eu sei que precisa de babá, caralhö. — Então pronto. — Não tá pronto o cacetë! O olhar dele voltou para mim. Pesado. Desconfortável. Ele me olhava como se eu fosse um chiclete grudado no sapato dele. — Foi essa aí que vocês arrumaram? Tinha nada melhor não? Apertei minhas mãos para não mandar ele à merdä. Macarrão confirmou com a cabeça. — Foi. — Passou em tudo? — Tudo. — Tudo mesmo? — Tudo. Sombra deu uma risada seca e sem humor. — Não parece. Meu rosto esquentou na hora. O cansaço já estava me deixando sem paciência. — Com licença? Os olhos dele me avaliaram de cima a baixo, num julgamento frio e covarde. — Tu parece que vai desmaiar se ouvir um estalo de rojão. Vai durar dois dias aqui. Minha mãe só pode tá de brincadeira nessa porrä. A vergonha sumiu e a irritação tomou conta. — Eu fui contratada para cuidar de uma criança. Não para participar de uma guerra. Um dos caras atrás dele soltou uma tosse estranha. Estava na cara que estava escondendo uma risada. O clima pesou o dobro. Sombra estreitou os olhos de novo. — Tá respondendo bastante pra quem chegou agora. Não tem medo de morrer? Porque se não tem, devia! — E o senhor está julgando bastante alguém que nem conhece. O silêncio que veio depois dessa me fez querer engolir a língua. Que bürrice, Serena. Macarrão passou a mão no rosto. — Ih... — Cala a boca — Sombra cortou, sem nem desviar o olho de mim. — Nem falei nada. — Eu conheço tua cara. O tal do Macarrão sorriu. Eu definitivamente não entendia essa amizade. Sombra continuou me fuzilando. — Eu pedi uma babá capaz, porrä. — Ela é capaz — Macarrão se meteu antes que eu abrisse a boca. — Curso, referência, experiência. Passou em tudo. Tua mãe entrevistou. A psicóloga entrevistou. Até a professora da Aninha entrevistou. Sombra parecia cada segundo mais putö. — E mesmo assim escolheram ela. — Escolhemos. — Por quê? Macarrão abriu os braços, na maior naturalidade do mundo. — Porque as outras não ficaram. Isso chamou minha atenção. — Como assim? — perguntei. Macarrão apontou para o teto. — A primeira saiu daqui chorando. A segunda pediu as contas em dois dias. A terceira foi embora antes do almoço. Pisquei, meio chocada. — Antes do almoço? — Antes do almoço. — O que aconteceu? — Aninha. — Respondeu, simples assim. Sombra soltou uma risada pesada. — A única coisa inteligente que essa menina fez foi expulsar as três. — E tu continua sendo um pai maravilhoso, né — Macarrão ironizou. — Obrigado. — Não foi elogio. — Eu sei. Quase dei risada. Quase. Porque o dono da casa voltou a me encarar, e eu percebi na hora que o assunto não tinha acabado. A decisão dele já estava tomada. Não importavam meus cursos, as entrevistas, a mãe dele. O cara simplesmente me olhou e decretou: — Arruma tuas coisas. Vai vazar. Meu coração falhou uma batida. — O quê? — Tu ouviu, porrä. O corredor inteiro girou. — Não. — A palavra saiu da minha boca antes que eu conseguisse segurar. — Não? — Eu preciso desse emprego. A expressão dele continuou uma pedra de gelo. Zero empatia. Zero pena. — Problema é teu, caralhö. Não quero tu aqui. Meu estômago despencou. O orgulho gritava para eu virar as costas e ir embora, mas o orgulho não pagava marmita nem me tirava da mira de dormir na rua. Abaixei a guarda. — Por favor. Eu não tenho para onde ir. Ninguém falou nada. O silêncio era esmagador. — Eu acabei de chegar — minha voz saiu mais baixa, quase quebrando. — Eu só preciso de uma chance. Sombra cruzou os braços, enorme e irredutível. — E eu preciso de uma porrä de babá que eu confie. — Ela nem começou ainda, irmão — Macarrão tentou amenizar. — Verdade — um dos vapores concordou lá atrás. — Cala a boca vocês dois! — Sombra rosnou, sem tirar o olho de mim. Eu sabia que as defesas do Macarrão só estavam piorando o humor dele. Dava para ver na cara do Sombra que ele achava que eu estava manipulando todo mundo com um teatrinho de coitada. — A decisão tá tomada. Pega tuas tralhas e some da minha casa. Meu peito esmagou. — Por favor. — Não. — Seco. Crüel. Definitivo. O chão sumiu debaixo de mim. Sete anos. Sete anos de fuga, dormindo mäl, sobrevivendo de migalha para conseguir encontrar a minha filha, e agora eu voltaria para a rua. De novo. Foi então que uma voz cortou o corredor. Uma vozinha pequena, com sono, mas firme pra carambä. — Ela não vai embora. Todo mundo virou a cabeça na mesma hora. Meu coração deu um salto. Aninha estava parada no fim do corredor, ainda de pijama rosa, braços cruzados, cabelinho bagunçado e uma cara de poucos amigos perigosamente parecida com a do pai. Sombra fechou os olhos com força e soltou o ar pesado. Parecia um cara que tinha acabado de descobrir que o dia que já estava uma merdä ia conseguir ficar pior. — Aninha... — Não. — Ela apontou o dedinho direto para mim. — A Serena fica. — Isso não é decisão tua. — É sim. — Não é, Ana Sara. — É. Os dois ficaram se encarando num duelo de marra. Meu Deus do céu. A menina era um clone dele. Sombra respirou fundo, tentando manter o controle. — Volta pro quarto. — Não. — Ana Sara, obedece. — Não. O corredor inteiro assistia a cena de camarote. Ninguém respirava. — Eu gosto dela — a menina cravou. — Ela faz tapioca. — Isso não é argumento! — É sim! — Não é! — É! Macarrão virou o rosto para a parede, tremendo para esconder a risada. Sombra estava a um passo de perder a pouca sanidade mental que tinha. — Anna Sara, não testa minha paciência! — Se você mandar a Serena embora, pai... Ela levantou o queixinho. Os olhos castanhos brilhando de puro desafio. E então a bomba caiu. — Eu nunca mais vou falar com você.
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