Capítulo 2
SERENA NARRANDO
— Eu fiz uma pergunta. Agora responde, porrä.
A mão dele apertou minha garganta um pouco mais, só para deixar claro que isso aqui não era um pedido. Meu coração batia tão rápido que o som do meu próprio sangue apitava no ouvido. Atrás dele, os cinco armários continuavam imóveis. Ninguém ia me ajudar. Ninguém parecia nem um pouco surpreso com o dono do morro enforcando a funcionária nova no meio do corredor, como se fosse só mais uma terça-feira.
Tentei puxar um fio de ar.
— Meu nome é Serena Albuquerque.
Os olhos escuros continuaram cravados em mim, frios e sem um pingo de paciência.
— E daí, caralhö?
— Dona Conceição me contratou para cuidar da Aninha.
O maxilar do ogro travou na mesma hora.
— Dona Conceição. — Ele cuspiu o nome da própria mãe como se fosse um xingamento, e finalmente largou meu pescoço.
O alívio foi imediato. Levei a mão para a garganta, tossindo para puxar o ar de volta, mas o interrogatório estava longe de acabar.
— Macarrão! — a voz dele ecoou pelo corredor, grossa e cheia de ódio.
Um dos homens deu um passo para frente. Alto, moreno e com uma cara de quem misturava seriedade com deboche. O cara parecia já saber exatamente a merdä que ia dar.
— Fala, irmão.
Sombra apontou o dedo na minha cara.
— Quem foi que autorizou essa mulher aqui dentro?
O tal Macarrão piscou, na maior paz do Senhor.
— Tua mãe.
O silêncio que caiu depois dessa foi quase cômico. Quase. Sombra fuzilou o cara.
— Eu perguntei quem autorizou.
— E eu acabei de responder.
Um dos outros caras virou o rosto para a parede, claramente tentando não rir. Fiquei aqui, parada, sem saber se o tal do Macarrão era o cara mais corajoso do morro ou se só não tinha instinto de sobrevivência mesmo. Sombra estreitou os olhos.
— Tu tá querendo me estressar logo agora que eu chegar, porrä?
— Não.
— Então para de responder igual um idiotä filho da putä. Tu sabe muito bem que caralhö eu quero saber.
— E tu para de fazer pergunta que já sabe a resposta.
Jesus amado. O corredor inteiro ficou num silêncio de necrotério. Ou esse cara era maluco, ou era muito amigo do Sombra. Talvez os dois.
Sombra passou a mão na barba, fazendo força visível para não cometer um homicídio aqui mesmo.
— Por que ela tá dentro da minha casa?
Macarrão soltou um suspiro cansado.
— Porque a Aninha precisa de babá.
— Eu sei que precisa de babá, caralhö.
— Então pronto.
— Não tá pronto o cacetë!
O olhar dele voltou para mim. Pesado. Desconfortável. Ele me olhava como se eu fosse um chiclete grudado no sapato dele.
— Foi essa aí que vocês arrumaram? Tinha nada melhor não?
Apertei minhas mãos para não mandar ele à merdä. Macarrão confirmou com a cabeça.
— Foi.
— Passou em tudo?
— Tudo.
— Tudo mesmo?
— Tudo.
Sombra deu uma risada seca e sem humor.
— Não parece.
Meu rosto esquentou na hora. O cansaço já estava me deixando sem paciência.
— Com licença?
Os olhos dele me avaliaram de cima a baixo, num julgamento frio e covarde.
— Tu parece que vai desmaiar se ouvir um estalo de rojão. Vai durar dois dias aqui. Minha mãe só pode tá de brincadeira nessa porrä.
A vergonha sumiu e a irritação tomou conta.
— Eu fui contratada para cuidar de uma criança. Não para participar de uma guerra.
Um dos caras atrás dele soltou uma tosse estranha. Estava na cara que estava escondendo uma risada. O clima pesou o dobro. Sombra estreitou os olhos de novo.
— Tá respondendo bastante pra quem chegou agora. Não tem medo de morrer? Porque se não tem, devia!
— E o senhor está julgando bastante alguém que nem conhece.
O silêncio que veio depois dessa me fez querer engolir a língua. Que bürrice, Serena. Macarrão passou a mão no rosto.
— Ih...
— Cala a boca — Sombra cortou, sem nem desviar o olho de mim.
— Nem falei nada.
— Eu conheço tua cara.
O tal do Macarrão sorriu. Eu definitivamente não entendia essa amizade. Sombra continuou me fuzilando.
— Eu pedi uma babá capaz, porrä.
— Ela é capaz — Macarrão se meteu antes que eu abrisse a boca. — Curso, referência, experiência. Passou em tudo. Tua mãe entrevistou. A psicóloga entrevistou. Até a professora da Aninha entrevistou.
Sombra parecia cada segundo mais putö.
— E mesmo assim escolheram ela.
— Escolhemos.
— Por quê?
Macarrão abriu os braços, na maior naturalidade do mundo.
— Porque as outras não ficaram.
Isso chamou minha atenção.
— Como assim? — perguntei.
Macarrão apontou para o teto.
— A primeira saiu daqui chorando. A segunda pediu as contas em dois dias. A terceira foi embora antes do almoço.
Pisquei, meio chocada.
— Antes do almoço?
— Antes do almoço.
— O que aconteceu?
— Aninha. — Respondeu, simples assim.
Sombra soltou uma risada pesada.
— A única coisa inteligente que essa menina fez foi expulsar as três.
— E tu continua sendo um pai maravilhoso, né — Macarrão ironizou.
— Obrigado.
— Não foi elogio.
— Eu sei.
Quase dei risada. Quase. Porque o dono da casa voltou a me encarar, e eu percebi na hora que o assunto não tinha acabado. A decisão dele já estava tomada. Não importavam meus cursos, as entrevistas, a mãe dele. O cara simplesmente me olhou e decretou:
— Arruma tuas coisas. Vai vazar.
Meu coração falhou uma batida.
— O quê?
— Tu ouviu, porrä.
O corredor inteiro girou.
— Não. — A palavra saiu da minha boca antes que eu conseguisse segurar.
— Não?
— Eu preciso desse emprego.
A expressão dele continuou uma pedra de gelo. Zero empatia. Zero pena.
— Problema é teu, caralhö. Não quero tu aqui.
Meu estômago despencou. O orgulho gritava para eu virar as costas e ir embora, mas o orgulho não pagava marmita nem me tirava da mira de dormir na rua. Abaixei a guarda.
— Por favor. Eu não tenho para onde ir.
Ninguém falou nada. O silêncio era esmagador.
— Eu acabei de chegar — minha voz saiu mais baixa, quase quebrando. — Eu só preciso de uma chance.
Sombra cruzou os braços, enorme e irredutível.
— E eu preciso de uma porrä de babá que eu confie.
— Ela nem começou ainda, irmão — Macarrão tentou amenizar.
— Verdade — um dos vapores concordou lá atrás.
— Cala a boca vocês dois! — Sombra rosnou, sem tirar o olho de mim.
Eu sabia que as defesas do Macarrão só estavam piorando o humor dele. Dava para ver na cara do Sombra que ele achava que eu estava manipulando todo mundo com um teatrinho de coitada.
— A decisão tá tomada. Pega tuas tralhas e some da minha casa.
Meu peito esmagou.
— Por favor.
— Não. — Seco. Crüel. Definitivo.
O chão sumiu debaixo de mim. Sete anos. Sete anos de fuga, dormindo mäl, sobrevivendo de migalha para conseguir encontrar a minha filha, e agora eu voltaria para a rua. De novo.
Foi então que uma voz cortou o corredor. Uma vozinha pequena, com sono, mas firme pra carambä.
— Ela não vai embora.
Todo mundo virou a cabeça na mesma hora. Meu coração deu um salto.
Aninha estava parada no fim do corredor, ainda de pijama rosa, braços cruzados, cabelinho bagunçado e uma cara de poucos amigos perigosamente parecida com a do pai.
Sombra fechou os olhos com força e soltou o ar pesado. Parecia um cara que tinha acabado de descobrir que o dia que já estava uma merdä ia conseguir ficar pior.
— Aninha...
— Não. — Ela apontou o dedinho direto para mim. — A Serena fica.
— Isso não é decisão tua.
— É sim.
— Não é, Ana Sara.
— É.
Os dois ficaram se encarando num duelo de marra. Meu Deus do céu. A menina era um clone dele.
Sombra respirou fundo, tentando manter o controle.
— Volta pro quarto.
— Não.
— Ana Sara, obedece.
— Não.
O corredor inteiro assistia a cena de camarote. Ninguém respirava.
— Eu gosto dela — a menina cravou. — Ela faz tapioca.
— Isso não é argumento!
— É sim!
— Não é!
— É!
Macarrão virou o rosto para a parede, tremendo para esconder a risada. Sombra estava a um passo de perder a pouca sanidade mental que tinha.
— Anna Sara, não testa minha paciência!
— Se você mandar a Serena embora, pai...
Ela levantou o queixinho. Os olhos castanhos brilhando de puro desafio. E então a bomba caiu.
— Eu nunca mais vou falar com você.