Capítulo 3

1150 Words
Capítulo 3 SOMBRA NARRANDO Encarei minha filha. A vontade era de gritar, chutar a parede, mandar todo mundo ir pra putä que pariu. Mas o jeitinho dela me desmontou por completo. A raiva simplesmente evaporou quando olhei pra cara dela de enfezada, igualzinha à minha. Respirei fundo, tentando manter o controle da situação. — Rala todo mundo — rosnei, sem desviar o olho da Aninha. — Vazem. Agora. Quero ficar sozinho com as duas. Nenhum dos meus soldados precisou ouvir duas vezes. Os vapores saíram andando rápido pelo corredor, arrastando o Macarrão junto com eles. Assim que a porta bateu e o silêncio tomou conta, eu cruzei os braços e olhei de cima para a minha filha. — Tu não pode falar assim comigo, Ana Sara. Eu sou teu pai. Acha bonito me desafiar na frente dos meus soldados? Na frente do meu sub? Ela não recuou um centímetro. Pelo contrário. Botou a mãozinha na cintura, me olhando com uma coragem que eu não sabia se aplaudia ou se botava de castigo. — Não, papai. Mas você tá agindo muito feio e eu precisava te corrigir. Não pode ser feio assim. Tive que travar o maxilar com muita força para segurar a risada. O orgulho que eu sentia dessa garota era um absurdo, mas eu precisava manter a pose de putö. Fechei a cara de novo. Passei o olho para a tal mulher na minha frente. Ela estava aqui, encolhida no canto dela, calada, só observando tudo. Não fui com a cara dela. Mulher com essa carinha de coitada, de quem não aguenta um tranco, pra mim é dissimulada. E comigo esse tipo de gente não se cria. Mas eu ia dar uma chance. Pela Sarinha. Só pela Sarinha. Dei um passo na direção da babá, apontando o dedo bem na cara dela. — Tu fica. Mas escuta bem: se fizer merdä, eu mesmo te mato. Presta atenção que tu tá na responsa do meu maior tesouro. Ela engoliu em seco, e eu não esperei resposta. — Vou dar uma saída. Mais tarde eu volto. Dei as costas e deixei as duas sozinhas aqui no corredor. Desci as escadas pisando duro e encontrei o Macarrão escorado na porta da rua, já com o fuzil pendurado. — Cadê minha mãe? — perguntei, passando direto por ele. — Sei não, irmão. Passaram a visão lá da barreira que ela saiu cedinho. Parei no meio do caminho. Achei estranho pra caralhö. Minha mãe não era de sair do morro cedo sem me avisar ou sem deixar um dos meus na escolta. Mas decidi não quebrar a cabeça com isso agora. Tinha muita coisa pra resolver. Subi pra boca. O morro já tava a todo vapor, mas minha cabeça tava a mil, então resolvi desenrolar o que tava apertando minha mente logo. Assim que cheguei na minha sala, bati a porta, sentei na cadeira e puxei o celular. Liguei pra ela. Atendeu no segundo toque. — Quem mandou colocar uma estranha na minha casa? — Já cheguei com os dois pés no peito. — Filho... eu ia te contar. — Mas não contou, dona Conceição! — Eu precisava de ajuda, Bernardo. A moça parece ser muito confiável. Passei a mão no rosto, sentindo a dor de cabeça ameaçar bater. — Mãe, é o seguinte: nunca mais faz nada sem me comunicar primeiro. Na minha casa e no meu morro, quem manda sou eu. Odeio falar assim com a minha mãe. Odeio de verdade. Mas ela tinha que entender que na minha casa, com a minha filha envolvida, o bagulhö não é bagunçado. Não tem margem pra erro, não tem espaço pra caridade com desconhecido. — Desculpa, filho — a voz dela saiu mais baixa, arrependida. — Eu só queria ajudar. Não sabia que você ia chegar tão rápido de viagem, eu ia te contar hoje. Respirei fundo. A raiva já tava baixando de novo. — Tudo bem, mãe. Mas na minha posição eu não posso vacilar, a senhora sabe disso. Agora preciso desligar. Encerrei a chamada e joguei o celular em cima da mesa. Encostei a cabeça na cadeira e fiquei encarando o teto, pensativo. Tinha alguma coisa naquela babá. Alguma porrä no jeito dela, nos olhos dela, que tinha ligado o meu alerta máximo. E eu ia descobrir o que era. Puxei o rádio de cima da mesa e apertei o botão de chamada direta. — Macarrão, brota aqui na minha sala. Dois palitos. Não demorou nem dois minutos e a porta abriu. Ele entrou, já fechando a cara de deboche e assumindo a postura de subchefe, encostando a porta atrás de si. Puxou a cadeira de frente pra minha mesa e sentou, cruzando os braços. — Fala, irmão. Deu rüim com a coroa? — A coroa tá de boa — resmunguei, puxando uma folha de papel e uma caneta da gaveta. — O bagulhö é outro. Quero que tu faça um levantamento completo pra mim. — De quem? — Da tal babá. Serena Albuquerque. Macarrão ergueu uma sobrancelha, daquele jeito cínico que me dava vontade de dar um soco na cara dele. — Tá cismado com a mulher mesmo, né? Já te passei a visão que a tua mãe revirou a vida dela. Fez a entrevista, passou na psicóloga e os caralhö. — Fodä-se a psicóloga — cortei, batendo a caneta com força na mesa de madeira. — Quero tu puxando a capivara dela. Quero saber de onde veio, quem é a família, onde morava antes de pisar aqui, se tem ex-marido, se tem dívida, se deve pra traficante ou pra polícia. Quero a vida dela todinha mastigada na minha mesa até amanhã de noite. Se ela já respirou torto na vida, eu quero saber. Macarrão assentiu devagar, percebendo que a brincadeira tinha acabado. Quando se tratava da segurança da minha casa, não tinha espaço pra gracinha. — Tranquilo. Vou botar os moleques do rastreio pra rodar o nome dela agora mesmo. Puxo tudo. Mais alguma coisa? — Por enquanto é só. E fica de olho aberto. — Pode deixar. — Ele levantou da cadeira, mas parou antes de abrir a porta e olhou por cima do ombro. — Só pra constar, eu aposto cinquenta conto que a mulher é limpa. Tem cara de quem nunca matou nem uma barata. Dei um sorriso sem humor. — Mulher que não treme quando eu aperto o pescoço tem sangue frio demais pro meu gosto. Tem alguma peça solta nessa história, Macarrão, e eu odeio quebra-cabeça na minha casa. Ele concordou com a cabeça e saiu da sala. Fiquei aqui, sozinho de novo, escutando o barulho do morro lá fora. A imagem daqueles olhos claros me encarando no corredor continuava grudada na minha mente. Ela não tinha abaixado a cabeça. Ela não tinha chorado. Ela podia ter enganado a minha mãe, a psicóloga e até a minha filha. Mas a mim ela não ia enganar.
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