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1246 Words
A cidade continuava igual. As luzes acendiam-se uma a uma, como se obedecessem a uma ordem silenciosa. Os carros deslizavam pelas avenidas, apressados, indiferentes. Pessoas caminhavam, falavam, riam… vivendo os seus próprios dramas, as suas próprias urgências. Tudo seguia. Menos ela. Larissa atravessava o corredor do escritório com passos firmes — pelo menos, era assim que deveria parecer. Mas havia algo diferente. Algo subtil. Quase imperceptível para qualquer outra pessoa. Um pequeno descompasso no ritmo dos saltos. Uma fração de segundo a mais entre cada passo. Uma tensão que não estava ali antes. --- Assim que chegou à sua sala, fechou a porta com cuidado. Não a bateu. Não a empurrou com força. Apenas fechou. Devagar. Como se estivesse a conter algo. --- Ficou ali. De pé. Sem se mexer. A bolsa ainda pendurada no ombro, o corpo imóvel, o olhar perdido num ponto indefinido da parede. O silêncio dentro da sala parecia mais denso do que o habitual. Mais pesado. Como se o ar tivesse ganho peso. --- E então… Veio. Sem aviso. Sem permissão. — Já dormiu com ele? A voz ecoou na mente dela com uma clareza brutal. Como se ainda estivesse naquela sala. Como se Lindsey ainda estivesse ali. --- Larissa fechou os olhos. A mandíbula tensionou-se ligeiramente. — Não. Disse em voz baixa. Mas não era uma resposta para Lindsey. Era para si mesma. --- Abriu os olhos novamente. Mais duros. Mais conscientes. --- Caminhou até a mesa com passos mais rápidos, como se o movimento pudesse quebrar o pensamento. Colocou a bolsa sobre a superfície de vidro com um pouco mais de força do que o habitual. O som ecoou levemente. Seco. --- Abriu a pasta. Folheou os documentos. Organizou. Reorganizou. Alinhou papéis que já estavam alinhados. --- Mas não estava a ver nada. Nem uma linha. Nem uma palavra. --- Porque outra parte da cena insistia em ocupar espaço. — Está a desrespeitar a minha advogada. --- Ela parou. As mãos ficaram suspensas no ar por um instante. --- Aquela frase… A forma como ele disse. Sem hesitação. Sem olhar para os outros. Sem se preocupar com as consequências. --- Larissa soltou o ar lentamente. E afastou-se da mesa. --- Caminhou até a janela. O vidro refletiu a sua imagem. Mas ela não olhou para si mesma. Olhou para fora. Para a cidade. Para algo que estivesse longe. --- — Isto não é pessoal. Disse, mais uma vez. Como um mantra. Como uma tentativa. --- Mas a verdade… Era que estava a tornar-se. --- Virou-se abruptamente. Como se quisesse fugir da própria conclusão. --- Sentou-se. Puxou outro processo. Qualquer um. Abriu. Leu a primeira linha. Depois a segunda. Depois voltou à primeira. --- Nada ficava. Nada entrava. --- Ela deixou o documento cair sobre a mesa. E encostou-se na cadeira. --- — Concentra-te, Larissa. A voz saiu mais firme desta vez. Mais autoritária. --- Mas a mente não obedecia. --- Porque havia uma pergunta que ela evitava. Mas que começava a surgir. Devagar. Insistente. --- E se… --- Ela fechou os olhos de novo. Com força desta vez. — Não. --- Horas passaram. Ou pelo menos… Pareceram passar. --- Quando finalmente olhou para o relógio, percebeu que o escritório estava quase vazio. O silêncio já não era apenas interno. Era real. --- Levantou-se. Pegou na bolsa. Apagou a luz. E saiu. --- O ar da noite atingiu-lhe o rosto assim que saiu do prédio. Mais fresco. Mais leve. Mas não suficiente. --- Caminhou até o carro. Entrou. Fechou a porta. E ficou ali. Sem fazer nada. --- As mãos repousavam sobre o volante. O olhar fixo à frente. --- E então… Finalmente. Respirou fundo. Profundamente. Como se estivesse a tentar reorganizar algo dentro dela. --- — É só um caso. Disse novamente. Mas dessa vez… A frase parecia mais frágil. --- Ligou o carro. E seguiu. --- O apartamento estava silencioso quando entrou. Mas não era um silêncio confortável. Era vazio. --- Tirou os sapatos logo na entrada. Deixou-os ali. Sem se preocupar em alinhar. --- A bolsa caiu sobre o sofá. Sem cuidado. --- Caminhou lentamente até a janela. Parou. Olhou para fora. --- As luzes da cidade piscavam ao longe. Indiferentes. --- Ela cruzou os braços. Encostou-se ao vidro frio. E deixou-se ficar. --- Por um momento… Não tentou controlar nada. --- Sentiu. --- A raiva. Pela forma como foi atacada. Pela forma como foi colocada numa posição que não escolheu. --- A indignação. Por ter sido julgada. Sem motivo. Sem base. --- Mas havia mais. Muito mais. --- A forma como ele a defendeu. A forma como olhou para ela depois. --- Larissa fechou os olhos. — Isto não é sobre isso. --- Mas era. Em parte. --- Virou-se rapidamente. Como se estivesse a fugir de si mesma. --- Caminhou até o quarto. Abriu o guarda-roupa. Ficou ali. Sem mexer em nada. --- Respirou fundo. E decidiu. --- O banho foi longo. Mais do que o habitual. --- A água quente escorria pelo corpo, relaxando músculos que ela nem sabia que estavam tensos. O vapor enchia o espaço, criando uma espécie de isolamento. Ali… Não havia tribunal. Não havia Lindsey. Não havia Zayn. --- Mas a mente… Ainda não estava totalmente livre. --- Quando saiu, vestiu algo confortável. Simples. Sem intenção. --- Caminhou até a sala. Sentou-se. Levantou-se. Voltou a sentar. --- Inquietação. Rara. Mas presente. --- E então… O telemóvel vibrou. --- Ela olhou. E o mundo pareceu pausar por um segundo. --- Zayn. --- Ficou imóvel. O telefone na mão. O nome no ecrã. --- — Não atendas. Pensou. --- Mas o dedo… moveu-se. --- — Dra. Larissa. A voz dele surgiu. Mais baixa. Mais calma. Diferente de antes. --- — Senhor Castellari. Ela respondeu de imediato. Profissional. Automática. --- — Chegou bem? A pergunta foi simples. Mas carregada de algo mais. --- Larissa franziu ligeiramente o cenho. — Sim. Resposta curta. --- Um silêncio instalou-se. Mas não desconfortável. --- — Queria pedir desculpa. A voz dele voltou. Mais séria. --- Ela desviou o olhar. — Não precisa. --- — Preciso. A resposta foi imediata. --- — O que aconteceu… não devia ter acontecido. Larissa respirou fundo. — Situações assim acontecem. — Não desta forma. --- Silêncio. --- — Ela não tinha o direito de dizer aquilo. A voz dele ficou mais firme. Mais carregada. --- Larissa fechou os olhos por um segundo. — Não disse nada que me afete. --- Outro silêncio. Mais longo. --- — Não acredito nisso. --- A frase atingiu-a de forma inesperada. --- Ela abriu os olhos. Ficou em silêncio. --- Porque ele estava certo. E isso… Incomodava. --- — O importante é o caso — disse ela, retomando o controlo. — Sempre. Mas o tom dele… Não era apenas profissional. --- — Vamos avançar com a petição amanhã. — Está bem. — Preciso de alguns documentos adicionais. — Terá. --- Outro silêncio. --- — Boa noite, Larissa. --- Ela hesitou. Quase imperceptível. --- — Boa noite. --- Desligou. --- E ficou ali. Sentada. O telemóvel ainda na mão. --- O silêncio voltou. --- Mas agora… Mais denso. Mais presente. --- Ela colocou o telefone sobre a mesa. Levantou-se. Caminhou lentamente até a janela novamente. --- Olhou para a cidade. Mas não a viu. --- — Isto está a ficar complicado. --- A voz saiu baixa. Quase um sussurro. --- E pela primeira vez… A dúvida instalou-se de verdade. --- Não sobre o caso. --- Mas sobre si mesma.
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