A cidade continuava igual.
As luzes acendiam-se uma a uma, como se obedecessem a uma ordem silenciosa. Os carros deslizavam pelas avenidas, apressados, indiferentes. Pessoas caminhavam, falavam, riam… vivendo os seus próprios dramas, as suas próprias urgências.
Tudo seguia.
Menos ela.
Larissa atravessava o corredor do escritório com passos firmes — pelo menos, era assim que deveria parecer.
Mas havia algo diferente.
Algo subtil.
Quase imperceptível para qualquer outra pessoa.
Um pequeno descompasso no ritmo dos saltos.
Uma fração de segundo a mais entre cada passo.
Uma tensão que não estava ali antes.
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Assim que chegou à sua sala, fechou a porta com cuidado.
Não a bateu.
Não a empurrou com força.
Apenas fechou.
Devagar.
Como se estivesse a conter algo.
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Ficou ali.
De pé.
Sem se mexer.
A bolsa ainda pendurada no ombro, o corpo imóvel, o olhar perdido num ponto indefinido da parede.
O silêncio dentro da sala parecia mais denso do que o habitual.
Mais pesado.
Como se o ar tivesse ganho peso.
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E então…
Veio.
Sem aviso.
Sem permissão.
— Já dormiu com ele?
A voz ecoou na mente dela com uma clareza brutal.
Como se ainda estivesse naquela sala.
Como se Lindsey ainda estivesse ali.
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Larissa fechou os olhos.
A mandíbula tensionou-se ligeiramente.
— Não.
Disse em voz baixa.
Mas não era uma resposta para Lindsey.
Era para si mesma.
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Abriu os olhos novamente.
Mais duros.
Mais conscientes.
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Caminhou até a mesa com passos mais rápidos, como se o movimento pudesse quebrar o pensamento.
Colocou a bolsa sobre a superfície de vidro com um pouco mais de força do que o habitual.
O som ecoou levemente.
Seco.
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Abriu a pasta.
Folheou os documentos.
Organizou.
Reorganizou.
Alinhou papéis que já estavam alinhados.
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Mas não estava a ver nada.
Nem uma linha.
Nem uma palavra.
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Porque outra parte da cena insistia em ocupar espaço.
— Está a desrespeitar a minha advogada.
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Ela parou.
As mãos ficaram suspensas no ar por um instante.
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Aquela frase…
A forma como ele disse.
Sem hesitação.
Sem olhar para os outros.
Sem se preocupar com as consequências.
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Larissa soltou o ar lentamente.
E afastou-se da mesa.
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Caminhou até a janela.
O vidro refletiu a sua imagem.
Mas ela não olhou para si mesma.
Olhou para fora.
Para a cidade.
Para algo que estivesse longe.
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— Isto não é pessoal.
Disse, mais uma vez.
Como um mantra.
Como uma tentativa.
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Mas a verdade…
Era que estava a tornar-se.
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Virou-se abruptamente.
Como se quisesse fugir da própria conclusão.
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Sentou-se.
Puxou outro processo.
Qualquer um.
Abriu.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Depois voltou à primeira.
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Nada ficava.
Nada entrava.
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Ela deixou o documento cair sobre a mesa.
E encostou-se na cadeira.
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— Concentra-te, Larissa.
A voz saiu mais firme desta vez.
Mais autoritária.
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Mas a mente não obedecia.
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Porque havia uma pergunta que ela evitava.
Mas que começava a surgir.
Devagar.
Insistente.
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E se…
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Ela fechou os olhos de novo.
Com força desta vez.
— Não.
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Horas passaram.
Ou pelo menos…
Pareceram passar.
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Quando finalmente olhou para o relógio, percebeu que o escritório estava quase vazio.
O silêncio já não era apenas interno.
Era real.
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Levantou-se.
Pegou na bolsa.
Apagou a luz.
E saiu.
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O ar da noite atingiu-lhe o rosto assim que saiu do prédio.
Mais fresco.
Mais leve.
Mas não suficiente.
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Caminhou até o carro.
Entrou.
Fechou a porta.
E ficou ali.
Sem fazer nada.
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As mãos repousavam sobre o volante.
O olhar fixo à frente.
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E então…
Finalmente.
Respirou fundo.
Profundamente.
Como se estivesse a tentar reorganizar algo dentro dela.
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— É só um caso.
Disse novamente.
Mas dessa vez…
A frase parecia mais frágil.
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Ligou o carro.
E seguiu.
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O apartamento estava silencioso quando entrou.
Mas não era um silêncio confortável.
Era vazio.
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Tirou os sapatos logo na entrada.
Deixou-os ali.
Sem se preocupar em alinhar.
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A bolsa caiu sobre o sofá.
Sem cuidado.
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Caminhou lentamente até a janela.
Parou.
Olhou para fora.
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As luzes da cidade piscavam ao longe.
Indiferentes.
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Ela cruzou os braços.
Encostou-se ao vidro frio.
E deixou-se ficar.
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Por um momento…
Não tentou controlar nada.
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Sentiu.
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A raiva.
Pela forma como foi atacada.
Pela forma como foi colocada numa posição que não escolheu.
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A indignação.
Por ter sido julgada.
Sem motivo.
Sem base.
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Mas havia mais.
Muito mais.
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A forma como ele a defendeu.
A forma como olhou para ela depois.
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Larissa fechou os olhos.
— Isto não é sobre isso.
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Mas era.
Em parte.
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Virou-se rapidamente.
Como se estivesse a fugir de si mesma.
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Caminhou até o quarto.
Abriu o guarda-roupa.
Ficou ali.
Sem mexer em nada.
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Respirou fundo.
E decidiu.
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O banho foi longo.
Mais do que o habitual.
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A água quente escorria pelo corpo, relaxando músculos que ela nem sabia que estavam tensos.
O vapor enchia o espaço, criando uma espécie de isolamento.
Ali…
Não havia tribunal.
Não havia Lindsey.
Não havia Zayn.
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Mas a mente…
Ainda não estava totalmente livre.
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Quando saiu, vestiu algo confortável.
Simples.
Sem intenção.
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Caminhou até a sala.
Sentou-se.
Levantou-se.
Voltou a sentar.
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Inquietação.
Rara.
Mas presente.
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E então…
O telemóvel vibrou.
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Ela olhou.
E o mundo pareceu pausar por um segundo.
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Zayn.
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Ficou imóvel.
O telefone na mão.
O nome no ecrã.
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— Não atendas.
Pensou.
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Mas o dedo… moveu-se.
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— Dra. Larissa.
A voz dele surgiu.
Mais baixa.
Mais calma.
Diferente de antes.
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— Senhor Castellari.
Ela respondeu de imediato.
Profissional.
Automática.
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— Chegou bem?
A pergunta foi simples.
Mas carregada de algo mais.
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Larissa franziu ligeiramente o cenho.
— Sim.
Resposta curta.
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Um silêncio instalou-se.
Mas não desconfortável.
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— Queria pedir desculpa.
A voz dele voltou.
Mais séria.
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Ela desviou o olhar.
— Não precisa.
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— Preciso.
A resposta foi imediata.
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— O que aconteceu… não devia ter acontecido.
Larissa respirou fundo.
— Situações assim acontecem.
— Não desta forma.
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Silêncio.
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— Ela não tinha o direito de dizer aquilo.
A voz dele ficou mais firme.
Mais carregada.
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Larissa fechou os olhos por um segundo.
— Não disse nada que me afete.
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Outro silêncio.
Mais longo.
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— Não acredito nisso.
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A frase atingiu-a de forma inesperada.
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Ela abriu os olhos.
Ficou em silêncio.
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Porque ele estava certo.
E isso…
Incomodava.
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— O importante é o caso — disse ela, retomando o controlo.
— Sempre.
Mas o tom dele…
Não era apenas profissional.
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— Vamos avançar com a petição amanhã.
— Está bem.
— Preciso de alguns documentos adicionais.
— Terá.
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Outro silêncio.
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— Boa noite, Larissa.
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Ela hesitou.
Quase imperceptível.
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— Boa noite.
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Desligou.
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E ficou ali.
Sentada.
O telemóvel ainda na mão.
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O silêncio voltou.
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Mas agora…
Mais denso.
Mais presente.
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Ela colocou o telefone sobre a mesa.
Levantou-se.
Caminhou lentamente até a janela novamente.
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Olhou para a cidade.
Mas não a viu.
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— Isto está a ficar complicado.
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A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
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E pela primeira vez…
A dúvida instalou-se de verdade.
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Não sobre o caso.
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Mas sobre si mesma.