A sala de reuniões parecia mais fria do que o normal.
Não pela temperatura.
Mas pela expectativa.
Larissa chegou alguns minutos antes, como sempre.
Pontualidade não era apenas um hábito — era uma afirmação de controlo.
A sala era ampla, com paredes revestidas em madeira escura e um painel de vidro que permitia ver parte da cidade ao longe. A mesa central, longa e imponente, refletia a luz suave do teto. Cadeiras em couro preto, perfeitamente alinhadas, transmitiam formalidade e autoridade.
Tudo ali era pensado para decisões sérias.
E aquela… seria uma delas.
Larissa pousou a pasta sobre a mesa e abriu-a com cuidado, organizando os documentos mais uma vez, mesmo sabendo que já estavam impecáveis.
Era um gesto automático.
Mas também… uma forma de se manter centrada.
Respirou fundo.
Hoje não era apenas mais uma reunião.
Era o início de algo que podia definir todo o rumo do processo.
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A porta abriu-se.
Zayn entrou primeiro.
Impecável como sempre.
Fato escuro, gravata alinhada, postura firme.
Mas havia algo diferente no olhar.
Mais fechado.
Mais tenso.
Larissa levantou-se levemente.
— Senhor Castellari.
— Dra. Larissa.
Os olhares encontraram-se.
Por um breve instante.
Mas nenhum dos dois sustentou mais do que o necessário.
Hoje… não era dia para isso.
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Logo atrás dele, entrou o advogado.
Mais velho, expressão séria, carregando uma pasta robusta.
Cumprimentou Larissa com um aceno profissional.
— Doutora.
— Doutor.
Sem rodeios.
Sem excessos.
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E então…
Ela entrou.
Lindsey.
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Larissa não esperava.
Mas, ao mesmo tempo… não se surpreendeu.
Porque havia algo nela que fazia sentido imediato.
Elegante.
Esbelta.
Impecavelmente vestida.
O vestido claro ajustava-se ao corpo com sofisticação, sem exageros, mas com uma presença inegável. Os cabelos perfeitamente alinhados, o rosto cuidadosamente maquilhado, joias discretas — tudo nela dizia uma única coisa:
Luxo.
Não apenas material.
Mas incorporado.
Natural.
Larissa observou-a por um segundo a mais.
E percebeu.
Aquela mulher não perderia facilmente.
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— Vamos começar? — disse o advogado, quebrando o silêncio.
Todos se sentaram.
A tensão instalou-se quase de imediato.
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Larissa tomou a palavra.
Profissional.
Controlada.
— Agradeço a presença de todos. A ideia desta reunião é tentar uma abordagem consensual para o divórcio.
Silêncio.
— Tendo em conta que existem dois filhos menores, acreditamos que um acordo seria a melhor solução para evitar desgaste emocional, processos prolongados e custos desnecessários.
Lindsey não reagiu.
Apenas observava.
Mas o olhar…
O olhar já dizia muito.
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— Processos litigiosos são, por natureza, exaustivos — continuou Larissa. — Audiências, prazos, exposição… tudo isso pode afetar não apenas as partes, mas principalmente as crianças.
Zayn manteve-se em silêncio.
O advogado também.
A sala parecia suspensa naquele discurso.
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— Um divórcio consensual permitiria uma transição mais controlada, preservando interesses e reduzindo conflitos —
— Não.
A palavra cortou o ar.
Seca.
Direta.
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Larissa parou.
Olhou para Lindsey.
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— Não há nada a discutir.
A voz dela era firme.
Mas carregada.
— O meu casamento não é um contrato que pode ser simplesmente encerrado porque ele decidiu.
Zayn fechou levemente os olhos por um segundo.
Como se já esperasse aquilo.
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— Senhora Lindsey — tentou Larissa, mantendo o tom calmo —, compreendo que seja uma situação difícil, mas estamos aqui exatamente para evitar um processo mais agressivo —
— Difícil? — interrompeu ela, com um riso curto e sem humor. — Acha mesmo que entende o que é difícil?
O ambiente mudou.
Instantaneamente.
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— O que é difícil — continuou Lindsey, inclinando-se ligeiramente para frente — é ver o pai dos seus filhos decidir que quer “seguir em frente” como se tudo isto não significasse nada.
Silêncio.
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— Isto não é sobre papéis — disse ela. — É sobre família.
Larissa manteve-se firme.
— E é exatamente por isso que estamos a tentar encontrar uma solução equilibrada —
— Equilibrada para quem?
Agora o tom subiu.
Levemente.
Mas o suficiente.
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— Para todos os envolvidos — respondeu Larissa.
— Não — disse Lindsey, agora olhando diretamente para ela. — Isto é conveniente para ele.
Um breve silêncio.
E então…
Ela sorriu.
Mas não era um sorriso agradável.
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— Ou talvez… para vocês dois.
A frase ficou no ar.
Pesada.
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Larissa franziu ligeiramente o cenho.
— Não compreendo.
Mas compreendia.
Ou começava a compreender.
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— Claro que compreende — disse Lindsey, cruzando os braços. — Mulheres como você compreendem perfeitamente.
O ambiente tornou-se denso.
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— Senhora — começou o advogado, tentando intervir.
— Não — cortou ela. — Eu quero falar.
E então…
Olhou diretamente para Larissa.
Sem filtros.
Sem controlo.
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— Já dormiu com ele?
Silêncio absoluto.
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O mundo pareceu parar por um segundo.
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Larissa ficou imóvel.
O olhar firme… mas o impacto claro.
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— Porque é isso que ele faz — continuou Lindsey, a voz agora carregada de emoção e raiva. — É isso que ele sabe fazer.
— Lindsey — disse Zayn, firme.
Mas ela ignorou.
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— Seduz. Usa. E depois descarta.
Larissa respirou fundo.
Mas não respondeu.
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— E eu não vou dar a ele essa liberdade — continuou ela. — Não vou ser mais uma história descartada enquanto ele segue para a próxima.
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— Já chega.
A voz de Zayn ecoou na sala.
Firme.
Autoritária.
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Todos olharam para ele.
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— Está a desrespeitar a minha advogada.
O tom dele não era alto.
Mas era suficiente.
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Lindsey levantou-se de repente.
A cadeira arrastou-se com força no chão.
— A sua advogada?
Ela riu.
Amargo.
— Claro.
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Pegou na bolsa.
— Façam o que quiserem.
E saiu.
Batendo a porta com força.
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O som ecoou.
E depois…
Silêncio.
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Pesado.
Desconfortável.
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O advogado respirou fundo.
Passou a mão pelo rosto.
— Peço desculpa pela minha cliente.
Olhou para Larissa.
— Mas a posição mantém-se.
Pausa.
— Não há interesse em acordo.
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Larissa assentiu.
Profissional.
Mesmo com tudo.
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— Se o senhor Castellari avançar com a petição, iremos contestar.
Mais uma pausa.
— E levaremos isto até às últimas consequências.
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Levantou-se.
— Tenham uma boa tarde.
E saiu.
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A porta fechou-se.
Mais suave desta vez.
Mas o impacto…
Ficou.
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Agora…
Restavam apenas dois.
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O silêncio entre Larissa e Zayn era diferente.
Menos formal.
Mais… carregado.
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Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente tenso.
— Me desculpa, dra… mas foi o que eu disse.
A voz dele estava mais baixa agora.
Mais humana.
— Ela é impulsiva.
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Larissa manteve-se em pé.
Imóvel.
— Percebi.
A resposta foi simples.
Controlada.
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Ele deu um passo na direção dela.
— Me desculpa mesmo… o que ela disse—
— Águas passadas.
Ela o interrompeu.
Sem agressividade.
Mas com firmeza.
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Um breve silêncio.
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— Mas não temos como continuar com a reunião hoje — completou ela.
Ele assentiu.
— Claro.
Pausa.
— Me ligue. Estarei disponível.
Mais um segundo.
— E… mais uma vez, desculpe pela minha esposa.
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Larissa apenas assentiu.
Sem prolongar.
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Pegou nos documentos.
E saiu.
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A porta fechou-se atrás dela.
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E só então…
Ela parou.
Encostou-se levemente à parede do corredor.
Respirou fundo.
Como se estivesse a recuperar algo que nem sabia que tinha perdido.
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— Este caso…
Ela passou a mão pelo rosto.
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— Vai me tirar a paz… e um pouco mais.
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Endireitou-se.
E caminhou.
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Mas, pela primeira vez…
Sem total controlo.