O despertador tocou às seis.
Desta vez… Larissa não abriu os olhos imediatamente.
Ficou ali.
Imóvel.
Sentindo.
O corpo ainda envolto no conforto do lençol, mas a mente já desperta — demasiado desperta para alguém que deveria estar a acordar.
A imagem veio antes mesmo do pensamento.
Um olhar.
Um instante.
Uma proximidade que não devia ter acontecido… mas aconteceu.
Ela abriu os olhos de repente.
— Não.
Virou-se de lado, puxando o lençol como se pudesse afastar também as memórias.
— Não vais começar o dia assim.
A voz saiu baixa, firme.
Quase uma ordem.
E, como sempre, ela respondeu a si mesma com disciplina.
Sentou-se.
Pés no chão.
Respiração controlada.
Realidade.
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O quarto ainda estava parcialmente mergulhado na luz suave da manhã. As cortinas filtravam o sol, criando sombras delicadas nas paredes claras. O ambiente era simples, organizado — sem excessos, mas com tudo no lugar certo.
Como ela.
Ou pelo menos… como tentava ser.
Levantou-se e caminhou até o espelho.
Parou.
Observou-se.
Sem maquiagem.
Sem expressão.
Apenas… ela.
— É só trabalho.
Disse isso em voz baixa.
E sustentou o próprio olhar.
Como se estivesse a confirmar.
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O banho veio rápido.
Objetivo.
Diferente da noite anterior.
Sem distrações.
Sem pensamentos que se prolongavam.
A água quente escorria pelo corpo, mas desta vez não havia espaço para imagens que não deviam existir.
Larissa sabia o que precisava fazer.
Voltar ao controlo.
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Minutos depois, já vestida com um conjunto formal — saia preta, camisa bege clara e blazer ajustado — ela parecia novamente a mesma.
Ou quase.
O cabelo preso num r**o de cavalo elegante.
Maquiagem leve.
Saltos firmes.
Profissional.
Intocável.
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O tribunal era outro mundo.
Diferente do escritório.
Diferente do luxo da empresa dele.
Ali… o ambiente era mais cru.
Mais real.
Mais direto.
O prédio, apesar de imponente, carregava marcas do tempo — corredores amplos, paredes altas, bancos de madeira que pareciam ter assistido a décadas de histórias, decisões e conflitos.
O chão ecoava passos.
Vozes misturavam-se.
Advogados, clientes, funcionários — todos em movimento, todos com pressa, todos carregando algum tipo de peso invisível.
Larissa encaixava-se ali com naturalidade.
Caminhava com segurança, segurando a pasta contra o corpo, os olhos atentos, o rosto neutro.
Ali… ela não era apenas uma estagiária.
Era alguém em formação.
Alguém que sabia o que estava a fazer.
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— Doutora Larissa.
A voz chamou-a de lado.
Ela virou-se.
Um colega mais experiente aproximou-se.
— Já preparou os documentos?
— Sim. Estão todos aqui.
Ele assentiu, analisando rapidamente.
— Bom. Este caso é simples, mas não podemos falhar nos detalhes.
— Não vamos falhar.
A resposta veio imediata.
Confiante.
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A sala de audiências era ampla, com teto alto e iluminação natural que entrava pelas janelas largas. O mobiliário era tradicional — madeira escura, cadeiras firmes, uma atmosfera que exigia respeito automático.
Larissa sentou-se, organizando os papéis com precisão.
O caso não era complexo.
Nada comparado ao de Zayn.
Mas ainda assim… exigia foco.
E ela entregou isso.
Totalmente.
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Durante a audiência, a Larissa que existia ali era diferente.
Não havia distrações.
Não havia pensamentos paralelos.
Apenas lógica.
Argumentos.
Observação.
Ela anotava cada detalhe, cada resposta, cada expressão — como se tudo pudesse ser útil.
E, de certa forma… era.
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Horas depois, ao sair do tribunal, o corpo dela estava cansado.
Mas a mente…
Mais leve.
Trabalhar ajudava.
Sempre ajudava.
Porque enquanto estava ocupada… não pensava nele.
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O final da tarde chegou com uma calma rara.
Larissa entrou no apartamento e, desta vez, não havia pressa.
Deixou a bolsa cair sobre o sofá.
Tirou os saltos.
Soltou o cabelo.
E caminhou lentamente até a cozinha.
Preparou algo simples.
Sem esforço.
Sem intenção de impressionar ninguém.
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Mais tarde, já vestida com roupas confortáveis — um conjunto leve, solto — ela sentou-se no sofá com o comando na mão.
Netflix.
Escolheu uma série qualquer.
Algo que não exigisse demasiado.
Algo que pudesse apenas… preencher o silêncio.
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Mas o silêncio… não se preenchia assim tão facilmente.
As cenas passavam.
Os diálogos aconteciam.
Mas a atenção dela…
Não estava totalmente ali.
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Ela cruzou as pernas no sofá, apoiando a cabeça na almofada.
E por um momento…
A mente escapou.
De novo.
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O olhar dele.
A proximidade.
Aquele instante.
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Larissa soltou o ar com força.
— Já chega.
Pegou no telemóvel.
E ligou.
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— Finalmente!
A voz animada do outro lado trouxe um sorriso automático ao rosto dela.
— Estava ocupada.
— Sempre estás — respondeu a prima, rindo. — Pensei em passar aí hoje, mas o trabalho não deixou.
— Não faz m*l.
— Faz sim. Já estou com saudades.
Larissa relaxou ligeiramente.
— Também eu.
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A conversa fluiu com naturalidade.
Leve.
Familiar.
Falavam de coisas simples — trabalho, rotina, pequenas queixas do dia a dia.
Nada profundo.
Mas confortável.
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— E tu? — perguntou a prima, de repente. — Alguma novidade interessante?
Larissa hesitou.
Só por um segundo.
— Trabalho novo.
— Só isso?
— Só isso.
Um silêncio suspeito veio do outro lado.
— Larissa…
— O quê?
— Eu conheço esse tom.
Ela revirou os olhos.
— Não há nada.
— Isso significa que há.
Larissa soltou um pequeno riso.
— És impossível.
— E tu estás a esconder alguma coisa.
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Mas Larissa não desenvolveu.
Não queria.
Porque dizer em voz alta… tornaria tudo mais real.
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— Tenho que desligar — disse por fim.
— Já?
— Sim.
— Está bem… mas depois vais ter que me contar.
Larissa sorriu.
— Talvez.
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A chamada terminou.
E o silêncio voltou.
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Ela ficou alguns segundos com o telemóvel na mão.
Sem fazer nada.
Sem pensar claramente.
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E então…
Sem perceber exatamente quando decidiu…
Desbloqueou o ecrã.
Abriu uma aplicação.
Pesquisou.
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Zayn Castellari.
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O perfil apareceu rapidamente.
Claro.
Elegante.
Discreto.
Como ele.
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Larissa hesitou por um segundo.
Mas abriu.
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Fotos.
Eventos.
Reuniões.
Ambientes formais.
Sempre impecável.
Sempre… controlado.
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Ela deslizou o dedo lentamente pelo ecrã.
Observando.
Analisando.
Absorvendo.
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Havia poucas fotos pessoais.
Quase nenhumas.
Mas algumas…
Chamaram a atenção.
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Uma imagem dele num evento formal.
Outra num ambiente corporativo.
Sempre sério.
Sempre distante.
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Larissa aproximou ligeiramente o telemóvel.
Como se isso permitisse ver mais.
Como se isso… explicasse alguma coisa.
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Mas não explicava.
Só complicava.
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Ela pousou o telemóvel ao lado.
Mas não desligou o ecrã imediatamente.
Ficou ali.
O olhar preso.
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E então…
Fechou.
Com firmeza.
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— Isto não faz sentido.
Mas fazia.
Ela sabia que fazia.
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Larissa recostou-se no sofá.
Olhou para o teto.
E deixou o silêncio envolver o espaço.
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Porque, no fundo…
O problema não era o trabalho.
Nem o caso.
Nem o cliente.
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Era o efeito que ele começava a ter.
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E isso…
Era o que ela precisava controlar.