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1144 Words
O despertador tocou às seis. Desta vez… Larissa não abriu os olhos imediatamente. Ficou ali. Imóvel. Sentindo. O corpo ainda envolto no conforto do lençol, mas a mente já desperta — demasiado desperta para alguém que deveria estar a acordar. A imagem veio antes mesmo do pensamento. Um olhar. Um instante. Uma proximidade que não devia ter acontecido… mas aconteceu. Ela abriu os olhos de repente. — Não. Virou-se de lado, puxando o lençol como se pudesse afastar também as memórias. — Não vais começar o dia assim. A voz saiu baixa, firme. Quase uma ordem. E, como sempre, ela respondeu a si mesma com disciplina. Sentou-se. Pés no chão. Respiração controlada. Realidade. --- O quarto ainda estava parcialmente mergulhado na luz suave da manhã. As cortinas filtravam o sol, criando sombras delicadas nas paredes claras. O ambiente era simples, organizado — sem excessos, mas com tudo no lugar certo. Como ela. Ou pelo menos… como tentava ser. Levantou-se e caminhou até o espelho. Parou. Observou-se. Sem maquiagem. Sem expressão. Apenas… ela. — É só trabalho. Disse isso em voz baixa. E sustentou o próprio olhar. Como se estivesse a confirmar. --- O banho veio rápido. Objetivo. Diferente da noite anterior. Sem distrações. Sem pensamentos que se prolongavam. A água quente escorria pelo corpo, mas desta vez não havia espaço para imagens que não deviam existir. Larissa sabia o que precisava fazer. Voltar ao controlo. --- Minutos depois, já vestida com um conjunto formal — saia preta, camisa bege clara e blazer ajustado — ela parecia novamente a mesma. Ou quase. O cabelo preso num r**o de cavalo elegante. Maquiagem leve. Saltos firmes. Profissional. Intocável. --- O tribunal era outro mundo. Diferente do escritório. Diferente do luxo da empresa dele. Ali… o ambiente era mais cru. Mais real. Mais direto. O prédio, apesar de imponente, carregava marcas do tempo — corredores amplos, paredes altas, bancos de madeira que pareciam ter assistido a décadas de histórias, decisões e conflitos. O chão ecoava passos. Vozes misturavam-se. Advogados, clientes, funcionários — todos em movimento, todos com pressa, todos carregando algum tipo de peso invisível. Larissa encaixava-se ali com naturalidade. Caminhava com segurança, segurando a pasta contra o corpo, os olhos atentos, o rosto neutro. Ali… ela não era apenas uma estagiária. Era alguém em formação. Alguém que sabia o que estava a fazer. --- — Doutora Larissa. A voz chamou-a de lado. Ela virou-se. Um colega mais experiente aproximou-se. — Já preparou os documentos? — Sim. Estão todos aqui. Ele assentiu, analisando rapidamente. — Bom. Este caso é simples, mas não podemos falhar nos detalhes. — Não vamos falhar. A resposta veio imediata. Confiante. --- A sala de audiências era ampla, com teto alto e iluminação natural que entrava pelas janelas largas. O mobiliário era tradicional — madeira escura, cadeiras firmes, uma atmosfera que exigia respeito automático. Larissa sentou-se, organizando os papéis com precisão. O caso não era complexo. Nada comparado ao de Zayn. Mas ainda assim… exigia foco. E ela entregou isso. Totalmente. --- Durante a audiência, a Larissa que existia ali era diferente. Não havia distrações. Não havia pensamentos paralelos. Apenas lógica. Argumentos. Observação. Ela anotava cada detalhe, cada resposta, cada expressão — como se tudo pudesse ser útil. E, de certa forma… era. --- Horas depois, ao sair do tribunal, o corpo dela estava cansado. Mas a mente… Mais leve. Trabalhar ajudava. Sempre ajudava. Porque enquanto estava ocupada… não pensava nele. --- O final da tarde chegou com uma calma rara. Larissa entrou no apartamento e, desta vez, não havia pressa. Deixou a bolsa cair sobre o sofá. Tirou os saltos. Soltou o cabelo. E caminhou lentamente até a cozinha. Preparou algo simples. Sem esforço. Sem intenção de impressionar ninguém. --- Mais tarde, já vestida com roupas confortáveis — um conjunto leve, solto — ela sentou-se no sofá com o comando na mão. Netflix. Escolheu uma série qualquer. Algo que não exigisse demasiado. Algo que pudesse apenas… preencher o silêncio. --- Mas o silêncio… não se preenchia assim tão facilmente. As cenas passavam. Os diálogos aconteciam. Mas a atenção dela… Não estava totalmente ali. --- Ela cruzou as pernas no sofá, apoiando a cabeça na almofada. E por um momento… A mente escapou. De novo. --- O olhar dele. A proximidade. Aquele instante. --- Larissa soltou o ar com força. — Já chega. Pegou no telemóvel. E ligou. --- — Finalmente! A voz animada do outro lado trouxe um sorriso automático ao rosto dela. — Estava ocupada. — Sempre estás — respondeu a prima, rindo. — Pensei em passar aí hoje, mas o trabalho não deixou. — Não faz m*l. — Faz sim. Já estou com saudades. Larissa relaxou ligeiramente. — Também eu. --- A conversa fluiu com naturalidade. Leve. Familiar. Falavam de coisas simples — trabalho, rotina, pequenas queixas do dia a dia. Nada profundo. Mas confortável. --- — E tu? — perguntou a prima, de repente. — Alguma novidade interessante? Larissa hesitou. Só por um segundo. — Trabalho novo. — Só isso? — Só isso. Um silêncio suspeito veio do outro lado. — Larissa… — O quê? — Eu conheço esse tom. Ela revirou os olhos. — Não há nada. — Isso significa que há. Larissa soltou um pequeno riso. — És impossível. — E tu estás a esconder alguma coisa. --- Mas Larissa não desenvolveu. Não queria. Porque dizer em voz alta… tornaria tudo mais real. --- — Tenho que desligar — disse por fim. — Já? — Sim. — Está bem… mas depois vais ter que me contar. Larissa sorriu. — Talvez. --- A chamada terminou. E o silêncio voltou. --- Ela ficou alguns segundos com o telemóvel na mão. Sem fazer nada. Sem pensar claramente. --- E então… Sem perceber exatamente quando decidiu… Desbloqueou o ecrã. Abriu uma aplicação. Pesquisou. --- Zayn Castellari. --- O perfil apareceu rapidamente. Claro. Elegante. Discreto. Como ele. --- Larissa hesitou por um segundo. Mas abriu. --- Fotos. Eventos. Reuniões. Ambientes formais. Sempre impecável. Sempre… controlado. --- Ela deslizou o dedo lentamente pelo ecrã. Observando. Analisando. Absorvendo. --- Havia poucas fotos pessoais. Quase nenhumas. Mas algumas… Chamaram a atenção. --- Uma imagem dele num evento formal. Outra num ambiente corporativo. Sempre sério. Sempre distante. --- Larissa aproximou ligeiramente o telemóvel. Como se isso permitisse ver mais. Como se isso… explicasse alguma coisa. --- Mas não explicava. Só complicava. --- Ela pousou o telemóvel ao lado. Mas não desligou o ecrã imediatamente. Ficou ali. O olhar preso. --- E então… Fechou. Com firmeza. --- — Isto não faz sentido. Mas fazia. Ela sabia que fazia. --- Larissa recostou-se no sofá. Olhou para o teto. E deixou o silêncio envolver o espaço. --- Porque, no fundo… O problema não era o trabalho. Nem o caso. Nem o cliente. --- Era o efeito que ele começava a ter. --- E isso… Era o que ela precisava controlar.
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