Cerca de vinte minutos depois, o táxi estacionou em frente a um prédio colossal, suas paredes cobertas por vidros espelhados que refletiam a cidade escura como se ocultassem segredos. O motorista olhou pelo retrovisor, tenso, como se pressentisse algo. Antes que eu abrisse a porta, uma mulher de expressão severa e olhar cortante surgiu, abrindo a porta para mim com um gesto brusco.
— Você deve ser... Ariela? — Sua voz era dura, desprovida de qualquer simpatia. — O senhor Anchieta me pediu para levá-la até sua sala e pagar o seu táxi. Sou Fernanda, a secretária particular dele.
Sem sequer me olhar nos olhos, ela estendeu uma nota alta para o motorista.
— Pode ficar com o troco. Obrigada por trazer a... refeição do meu chefe.
O desprezo em seu tom era impossível de ignorar. O motorista, desconfortável, hesitou.
— Moça... tem certeza que vai ficar aqui? — perguntou ele, com a testa franzida, como se algo o incomodasse profundamente na atitude de Fernanda.
Sorri, tentando acalmar o receio dele — e o meu próprio.
— Não se preocupe, estou acostumada. — Olhei para Fernanda, que já havia se virado em direção à entrada. — Inveja é um veneno que costuma escorrer pela boca. Tem gente que sonha em ser estrela, mas m*l consegue ser figurante da própria vida. Melhor ignorar. Agradeço por me trazer até aqui. Tenha uma boa noite.
Fechei a porta do táxi com um clique seco e, mesmo sentindo o peso do olhar preocupado do motorista, caminhei atrás da secretária, com os nervos latejando sob a pele.
A entrada do prédio era silenciosa demais. O som dos meus passos ecoava como um aviso. O elevador, imponente e vazio, nos engoliu, e subimos em silêncio até o último andar. O ambiente era estéril, frio, quase sufocante. Eu sentia que algo estava errado, mas não podia recuar agora.
— Senhor Anchieta, estou com a garota que o senhor solicitou. — Fernanda disse ao telefone, a voz impregnada de uma ironia m*l disfarçada. — Posso deixá-la entrar? Ah... entendi. Farei como deseja.
Desligou bruscamente.
— Pode entrar. O senhor Felipe Anchieta está esperando. — disse ela, com um sorriso gelado.
Segurei a respiração, tentando afastar a tensão que apertava meu peito. Caminhei até a porta gigantesca. Bati duas vezes. A madeira pesada vibrou sob meus nós dos dedos. Quando a porta se abriu, um som agudo e cortante rasgou o silêncio.
Vidro estilhaçado.
O cheiro amargo de uísque se espalhou pela sala. Um homem, de aparência poderosa, estava em pé no centro do cômodo, olhando para mim como se visse um fantasma.
— Ariela...? Isso só pode ser uma brincadeira... — sua voz grave vibrou no ar, repleta de choque e incredulidade. — Ele falou sério?
O coração disparou. Meus olhos correram até o chão, onde os fragmentos de um copo de uísque reluziam como pequenas lâminas. Mas foi a figura diante de mim que capturou toda a minha atenção.
O homem exalava uma presença quase esmagadora. Traços marcantes: mandíbula forte, maçãs do rosto altas, barba perfeitamente aparada. Seus olhos, sombrios e penetrantes, me examinavam como se tentassem desvendar um mistério insolúvel. O cabelo escuro estava levemente desalinhado, conferindo-lhe um ar despojado, perigosamente charmoso.
— Ah... sim, eu sou a Ariela. — Forcei um sorriso, a voz embargada de nervosismo. — Prazer em te conhecer. Você é Felipe, certo? Kleiton me enviou para... acertarmos os detalhes do contrato.
A tensão no ar era quase palpável. O olhar dele se estreitou.
— Você... não sabe quem eu sou? — A incredulidade misturada a algo mais sombrio atravessou sua expressão.
Engoli em seco.
— Um... Felipe? — respondi, hesitante. — Cliente ou amigo do Kleiton, que vai me contratar para fingir ser sua noiva por um tempo?
Parte de mim torcia desesperadamente para que fosse ele. Se tinha que encenar um relacionamento, melhor que fosse com alguém tão absurdamente atraente... Mas então, por que um homem como ele precisaria de uma noiva falsa?
— Nunca me viu antes? — insistiu, avançando dois passos. A intensidade no olhar dele fez minha pele formigar.
— Talvez... na televisão? Não tenho certeza. — Busquei lembrar, mas nada surgia. — Desculpe. Trabalho muito e raramente vejo TV ou jornais. Tenho certeza de que é alguém importante, para ter um escritório assim.
Felipe franziu o cenho, como se algo o incomodasse profundamente.
— Primeira vez, é? — repetiu, um sorriso amargo surgindo em seus lábios.
Ele se virou abruptamente, pegou o celular sobre a mesa e começou a murmurar algo para alguém do outro lado da linha. Eu tentava me concentrar no ambiente ao redor, mas meus olhos voltavam, inevitavelmente, para ele.
Felipe usava uma jaqueta de couro n***a que parecia feita sob medida, delineando seus ombros largos e peito firme. Sob a jaqueta, uma camisa branca desabotoada na medida certa revelava traços de um peitoral definido. Havia nele uma mistura hipnótica de rebeldia e poder que me deixava enfeitiçada.
Quando desligou, lançou o celular com força contra a mesa e esfregou o rosto, frustrado.
— Ah, droga! — murmurou, antes de se voltar para mim. — Pode sentar. Precisamos conversar.
Obedeci, tentando parecer natural enquanto meu coração martelava no peito. Ele sentou-se à minha frente, cruzando as pernas com um movimento elegante, mas alerta. O ar parecia mais denso, como se algo prestes a acontecer estivesse suspenso entre nós.
— Então... você foi enviada para ser minha noiva, é isso? — Sua voz saiu baixa, quase ameaçadora.
— Sim. — confirmei, com a voz quase inaudível.
— Muito bem. — Seus olhos me percorreram dos pés à cabeça. — Vamos oficializar logo isso.
Ele se levantou e caminhou até sua mesa, digitando algo no computador. Um momento depois, o som da impressora preencheu a sala, como o prelúdio de um pacto sombrio.
— Aqui está. — Disse ele, colocando um calhamaço de folhas à minha frente. — Leia e assine cada página.
A pilha de papéis parecia ameaçadora. Peguei a caneta que ele me oferecia, mas hesitei.
— Você não me explicou exatamente o que eu devo fazer... — murmurei, tentando encontrar firmeza na voz.
Felipe inclinou-se, os olhos cravados nos meus.
— O contrato é claro. Você será minha noiva. Em público, em privado, onde for necessário. — Seu tom era gélido, como se falasse de negócios. — Vai sorrir, vai me acompanhar em eventos, vai posar para fotos. E, se necessário, vai fingir que está apaixonada por mim. Entendeu?
As palavras ficaram pairando entre nós, pesadas.
— Dez meses. — completou, recostando-se na cadeira com um sorriso enigmático. — Depois disso, cada um segue seu caminho... Se conseguir sobreviver até lá.
Arfei, surpresa com a última frase.
— Sobreviver? — repeti, confusa.
Ele deu de ombros, como se tivesse dito algo trivial.
— Algumas pessoas... não gostam de mim. E podem não gostar da minha noiva também. — disse em tom casual, mas seu olhar era como uma lâmina.
O ambiente pareceu esfriar ainda mais. Senti um calafrio subir pela espinha, mas tentei disfarçar, assinando a primeira página.
— Ah, e Ariela... — Ele chamou minha atenção com um sorriso perigoso. — Uma última coisa: agora que assinou, não existe mais volta.
Fiquei imóvel, a caneta parada entre meus dedos. A impressão era clara: eu acabara de atravessar uma porta... e não sabia o que me esperava do outro lado.