Será mesmo que não tem outra opção?
Não. Eu sabia, no fundo, desde o início, que era inútil insistir. Só havia uma alternativa para o meu problema. Apenas adiei o inevitável, como quem tenta conter uma maré com as próprias mãos.
Meus dedos tremiam quando puxei da bolsa o cartão que Franklin havia me dado ontem.
O papel era simples, quase insignificante à primeira vista, mas para mim pesava como se carregasse todo o peso do mundo. Eu tinha poucas horas restantes. Pouquíssimas. E essa talvez fosse minha única chance de salvar Cecília.
Preciso agarrar essa oportunidade... antes que ela desapareça de vez.
— Estou escolhendo demais para quem está desesperada... — murmurei, a voz embargada pelo medo que começava a me dominar. — Primeiro, vou priorizar Cecília. Depois... depois eu penso como sair dessa confusão.
Com mãos trêmulas, disquei o número do cartão.
O telefone chamou uma, duas, três vezes...
Nada.
E então caiu direto na caixa postal.
O desespero me atingiu como um soco.
E se fosse tarde demais?
E se, por puro orgulho, eu tivesse condenado minha própria filha?
Olhei em volta, tentando encontrar algum ponto de apoio, mas tudo parecia estranho e distante, como se eu estivesse presa num sonho r**m. Sentei no banco da calçada, sentindo o nó na garganta apertar tanto que quase me impediu de respirar. Com dedos dormentes, tentei ligar de novo.
Uma. Duas. Três vezes.
Quando a esperança já se desfazia como fumaça, a ligação completou.
— CHAMADA ON —
— Eu espero que seja caso de vida ou morte... — Franklin atendeu com a voz ofegante. — Me atrapalhou na melhor parte.
Demorei um segundo para entender. Quando entendi, ri — um riso nervoso, meio histérico. Talvez pela tensão acumulada, talvez pelo alívio de ouvir sua voz.
— Desculpa... — falei, tentando me recompor. — Pessoas normais não costumam... fazer "isso" em horário comercial.
Ele riu também, como se tudo fosse apenas mais uma piada particular.
— Ah, Ariela... é você. Em minha defesa, a garota está em horário de trabalho. Mais tarde ela ameaçou cobrar adicional noturno, achei melhor comer enquanto tava no desconto.
Revirei os olhos, mas não consegui conter uma risada seca.
Mesmo assim, algo dentro de mim — um resquício de bom senso — me alertava que aquele era apenas o começo de algo muito, muito maior.
— Deixando de lado essa sua vida ativa... — comecei, tentando focar. — Liguei porque... eu quero mudar minha resposta.
Houve uma pausa breve do outro lado da linha. Quase pude ouvir o sorriso satisfeito de Franklin.
— Não vou mentir. Pensei que você não iria me ligar. Parecia tão decidida a se recusar.
— Minha avó sempre diz que quem é orgulhosa demais paga com a língua... — suspirei. — Comigo, acontece mais rápido do que se pode imaginar.
Orgulho... um luxo que eu não podia mais me dar. Não com a vida da minha filha em jogo.
— Orgulho não é r**m — respondeu Franklin, mais sério desta vez — desde que você saiba o momento certo de engolir ele. Acho que você sabe. Devo entender que... você quer fechar o acordo?
Fechei os olhos. Não tinha mais volta.
— Sim. Mas... preciso mudar o valor.
— Mudá-lo?
— Preciso de cinquenta mil. E preciso ainda hoje.
Ele nem sequer hesitou.
— Sem problema. Quanto mais tempo você passar com ele, melhor. Vai demorar um tempo para convencer aquela pessoa... De toda forma, vou mandar o endereço agora. Seu "noivo" já estará esperando com o contrato. Assim que assinar, recebe o adiantamento. Ele vai te explicar as regras. Eu só faço a ponte.
— Você não vai estar lá? — perguntei, sentindo uma onda de receio me invadir.
— Não. Tenho que terminar o que comecei — respondeu, rindo. — Além disso, ele é melhor que eu com contratos. E... profissional. Não se preocupe, vamos nos ver muitas vezes ainda.
Beijos, cunhada.
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele desligou.
— CHAMADA OFF —
Fiquei parada, segurando o celular como se fosse um pedaço de vidro prestes a se despedaçar nas minhas mãos.
Cunhada?
Ele era irmão do tal "noivo"?
Pensei que era apenas um amigo, um cliente...
Não sabia o que pensar. Não sabia nem quem eu estava prestes a encontrar.
O celular vibrou na minha mão, trazendo a mensagem de Franklin:
> "Cunhada, vá até essa localização. Pode pegar um táxi, ele custeia. Estarão esperando por você. O nome do seu noivo é Felipe. Espero que vocês se deem muito bem nesses dez meses. Minha parte eu fiz. O resto agora é com ele."
Felipe...
Fechei a mensagem e guardei o celular no bolso da jaqueta, tentando ignorar o arrepio que correu pela minha espinha.
Felipe.
O nome parecia comum. Inofensivo, até.
Mas uma parte de mim, a parte que sempre pressentia o perigo antes dele se manifestar, dizia que nada nessa história seria tão simples assim.
Acenei para um táxi e entrei, entregando o endereço.
Durante o trajeto, minha mente martelava todas as possibilidades.
Quem era Felipe?
Por que precisava de uma noiva de mentira?
Por que pagaria tanto por isso?
Talvez fosse um velho querendo uma companhia para exibir em eventos. Talvez um empresário precisando fechar algum contrato de fachada. Talvez...
Ou talvez fosse algo muito mais sombrio. Algo que Franklin — com todo seu jeito debochado — não quis me contar.
O táxi parou em frente a um prédio de fachada luxuosa, imponente, mas discreta. Um porteiro me olhou de cima a baixo antes de abrir a porta automática.
Respirei fundo.
Uma parte de mim queria fugir. Queria gritar e correr na direção oposta.
Mas então pensei em Cecília.
Pensei no sorriso dela.
No jeito como ela dizia "mamãe" com aquela vozinha fraca...
Eu não tinha escolha.
Atravessei o saguão vazio, meus passos ecoando no piso de mármore. Uma recepcionista me guiou para o elevador, me informando que Felipe me aguardava na cobertura.
Cobertura.
Claro. Como se todo esse teatro fosse para menos.
A porta do elevador se fechou e o silêncio me envolveu.
O som da respiração acelerada era a única coisa que ouvia.
Cada andar que passava era como um degrau em direção ao desconhecido.
Ao perigo.
Quando o elevador parou, meu coração parecia prestes a explodir.
A porta se abriu.
E ali estava ele.
De costas para mim, olhando pela enorme parede de vidro que dava vista para a cidade inteira. Um homem alto, de ombros largos, vestindo um terno escuro impecável.
Meu futuro "noivo".
Felipe se virou lentamente, como se já soubesse exatamente o momento em que eu chegaria.
Nossos olhares se encontraram.
E naquele instante, eu soube.
Nada seria fácil.
Nada seria simples.
E, de alguma maneira, sem sequer ouvir sua voz, entendi:
Eu estava me metendo em algo muito, muito maior do que eu poderia suportar.