O sol já tingia o céu de dourado quando encarei a janela do quarto. Mais uma noite sem dormir. Mais uma manhã sem respostas. Eu precisava de dinheiro — rápido. Pensei, meio em desespero, em roubar um banco. Seria poético, se eu tivesse qualquer habilidade para isso. Um suspiro cansado escapou dos meus lábios. Melhor não. A cadeia não parecia o melhor lugar para resolver meus problemas.
Talvez um empréstimo? O "não" eu já tinha garantido. Faltava só correr atrás da humilhação.
Mas antes, precisava encontrar alguém para cuidar da minha Cecília.
CHAMADA ON
— Vó? — minha voz saiu trêmula. — Desculpa acordar a senhora essa hora... Será que pode ficar com a Ceci enquanto resolvo algumas coisas?
Dulci, minha avó, atendeu na primeira chamada, como se já estivesse esperando. A voz dela veio forte, firme, como um trovão carinhoso:
— Tá me chamando de velha, garota? Óbvio que não dormi! Minha neta saiu daqui m*l, quem ia sossegar? Você só me disse que ela estava dormindo bem! Acha que isso me deixou tranquila? — Ouvi o barulho de passos apressados do outro lado da linha. — Já tô me arrumando. Vou pegar a primeira condução que passar!
Eu sorri, emocionada. Dulci podia ter o corpo marcado pelos anos, mas o coração dela era pura juventude. Ela já tinha feito tanto por mim. E agora, de novo, ela largava tudo sem hesitar.
— E o que você vai fazer? — perguntou desconfiada. — Normalmente, você não desgruda da menina nessas horas. O que é tão sério?
— Vou procurar um mapa do tesouro... Quem sabe uma botija enterrada? — brinquei, tentando disfarçar o medo que me apertava o peito.
— Ah, conhecendo você, vai acabar achando um golpe em vez de ouro! — ralhou, mas com aquele tom cheio de amor que só avós sabem usar. — Melhor cuidar da menina quietinha.
Soltei uma risada fraca. Ela tinha razão. Quantas vezes já não confiei em quem não devia?
— Quando a senhora chegar, eu explico tudo... — murmurei, vencida.
CHAMADA OFF
A enfermeira entrou no quarto e, com movimentos rápidos e experientes, aplicou medicações, verificou os sinais de Cecília e ajustou o soro. Tudo tão automático que nem tive tempo de perguntar nada. Eu esperaria a ronda médica. Esperaria... Porque desistir nunca foi uma opção.
O som apressado de passos no corredor me despertou do torpor. Em segundos, Dulci invadiu o quarto. O sorriso aberto dela se desmanchou ao ver Cecília imóvel na cama.
— O que está acontecendo? — sussurrou, como se tivesse medo da resposta.
— Primeiro senta, vó... Parece que correu uma maratona. — Brinquei, tentando adiar o inevitável.
Contei tudo. As palavras saíam como pedras da minha boca. A obstrução. A necessidade da cirurgia. A falta de dinheiro.
Vi os olhos de Dulci marejarem. Ela apertou a mão enrugada no peito, lutando contra o choro. Quando falei sobre a cirurgia, o medo nos olhos dela se transformou em desespero.
Ela sabia. Melhor do que ninguém. Sabia que vivíamos à sombra da aposentadoria dela e dos b***s que eu conseguia fazer. E agora... Agora tudo parecia desmoronar.
— E qual é o seu plano? — perguntou, acariciando os cabelos de Ceci com ternura, a voz embargada. — Espero que não esteja mesmo contando com uma botija...
— Vou tentar nos bancos... amigos... qualquer coisa. Tenho 24 horas. Vou dar um jeito. — respondi com firmeza. O medo queria me derrubar, mas a vontade de lutar era maior.
Cecília estava lutando. Eu também lutaria.
Dulci me lançou um olhar misturado de preocupação e orgulho. E voltou sua atenção para Cecília, como se pudesse protegê-la só com a força do seu amor.
O médico logo chegou. Avaliou Cecília com calma, verificando cada detalhe com um cuidado que me confortava.
— Ela é uma guerreira — disse, com um sorriso triste. — Está estável para a cirurgia. Vamos mantê-la sedada para que não sofra desconfortos. Ainda que seja forte... é só uma criança.
As palavras dele cortaram meu coração como faca.
— Sobre a transferência... — ele hesitou, me entregando um cartão. — Sei que é difícil, mas precisamos de resposta logo. Já solicitei vaga em hospitais públicos, mas a probabilidade é baixa. Não quero te iludir.
— Obrigada, doutor. — Minha voz era um fio.
Assim que ele saiu, dei um beijo demorado na testa de Cecília e abracei minha avó como se tentasse absorver dela a coragem que me faltava.
Então, parti. Minha batalha havia começado.
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Meu roteiro era simples: cinco bancos, todos próximos. Tempo era o inimigo.
No primeiro banco, esperei duas horas numa fila interminável. Para ouvir um "não" tão seco quanto um tapa na cara.
Enquanto esperava, ligava para conhecidos. Alguns não atenderam. Outros desligaram na minha cara. Alguns, riram.
No segundo banco, nem cheguei a sentar. Informaram que eu "não havia sido eleita".
O terceiro me ofereceu um café tão amargo quanto a rejeição que veio logo depois.
O quarto banco nem disfarçou. Pegaram meus documentos e, em minutos, a resposta veio: negativa.
Minha última esperança era o quinto banco. Conhecido por emprestar para quem não tinha nada além da vontade.
A fila parecia infinita. Três horas. Três horas sem comer, com o estômago revirando por uma barra de cereal esquecida na bolsa.
Quando finalmente fui atendida, a moça sorriu para mim como se o dia dela estivesse acabando — e o meu estivesse só começando.
— Podemos avaliar seu pedido. Quer uma água? Café?
— Água, por favor... — murmurei. Um café agora me derrubaria.
Ela saiu saltitando, leve, como se não carregasse o peso do mundo nas costas como eu.
Logo voltou com a água... e alguns papéis.
Meu coração bateu mais rápido. Talvez... talvez dessa vez...
— A senhora foi aprovada para um empréstimo — disse ela, sorrindo. — Este é o valor disponível e as condições.
Olhei o papel. Meu estômago se revirou.
— 1.500 por mês...? — perguntei, incrédula.
— Ah, não! — riu ela, como se fosse engraçado. — 1.500 é o valor máximo que pode pegar!
O resto das palavras se dissolveu no ar. Tudo girava.
Me levantei devagar, como se arrastasse correntes invisíveis nas pernas.
O peso da realidade me esmagava.
Colecionar recusas de banco não estava nos meus planos. Mas agora, até isso eu tinha.
Ainda havia uma última carta na manga. Contra a minha vontade, contra tudo que eu gostaria de evitar.
Remexi na bolsa e encontrei o cartão, aquele que recebi no beco mais insalubre da minha vida.
Talvez a última esperança que nos restava. Não havia outra opção. Eu tinha que aceitar aquela proposta absurda em troca do dinheiro.