A tensão daquela noite

1124 Words
Minha mente ficou completamente em branco. Era como se o tempo tivesse parado por um instante, congelando tudo ao meu redor, menos nós dois. Aquele beijo, que começou tímido e quase hesitante, foi tomando uma intensidade inesperada, ganhando um calor que me arrebatou por inteiro. De alguma forma, parecia tão natural... tão confortável... tão familiar. Como se nossos lábios já tivessem se encontrado em outra vida, em outro momento do tempo. Não resisti. Não consegui. Quando nossos lábios se separaram, senti todo o meu corpo formigar de calor, como se uma onda de eletricidade tivesse percorrido cada centímetro da minha pele. Estava ofegante, desnorteada, e mesmo assim... encantada. — Parece que isso vai ser mais divertido do que eu imaginei — Felipe sussurrou com um sorriso travesso, passando a mão com suavidade pelo meu rosto, em um gesto que misturava carinho e provocação. Antes que eu pudesse formular uma resposta, ou sequer entender direito o que aquilo significava, ele virou as costas e partiu, deixando para trás o gosto do beijo e uma confusão indescritível dentro de mim. Minhas pernas fraquejaram. A adrenalina e o choque misturado ao desejo me deixaram atordoada. Desci até o chão, sentindo as pernas cederem. Sentei ali mesmo, tentando recuperar o fôlego e reorganizar os pensamentos que pareciam ter sido lançados em um redemoinho dentro da minha cabeça. Tudo estava uma bagunça. Eu m*l conseguia entender o que tinha acabado de acontecer. Mas meu devaneio durou pouco. O celular vibrou. Uma mensagem da minha avó. Bastou um olhar para a tela e o turbilhão do beijo foi substituído por um medo brutal: Cecília havia piorado. Meu coração deu um salto. Meu corpo agiu no impulso. — Alô? É a Ariela! Doutor, faça a transferência da Cecília agora. Eu já tenho o dinheiro. Por favor, não espere mais. — Minha voz tremia ao telefone enquanto eu me levantava apressadamente do chão. Definitivamente, eu não tinha o privilégio de digerir tudo que estava acontecendo. Não agora. Coloquei os papéis do contrato na bolsa com mãos trêmulas e corri em direção ao elevador, cada passo acelerado como se pudesse vencer o tempo. O elevador demorava. Parecia proposital. Olhei para o visor e percebi que ele nem havia começado a subir. Não podia esperar. Sem pensar duas vezes, me joguei pelas escadas. O prédio não era alto, mas descer correndo de salto com a cabeça a mil era uma missão e tanto. Quando finalmente alcancei o térreo, estava completamente ofegante, suando frio. As mãos tremiam e o celular quase caiu dos meus dedos enquanto eu tentava chamar um Uber. Mas a tela só me mostrava cancelamentos. Um atrás do outro. — Ariela? — Ouvi uma voz familiar me chamar. Me virei, ofegante, ainda tentando entender se estava mesmo escutando certo. — É você mesmo? Meus olhos se arregalaram. Kiev. Um amigo de infância. Meu antigo vizinho. O menino que cresceu comigo correndo pelas ruas do bairro em que vivi com meus pais. — Kiev! — exclamei, surpresa. — Você tá bem? Tá pálida. O que aconteceu? — Isso vai parecer loucura, mas... pode me dar uma carona até o hospital? O Uber tá uma bagunça, e eu preciso chegar antes da transferência da minha filha. É urgente! Eu pago, juro! — Deixa disso! Entra no carro logo. — Ele acenou com a mão, me chamando. Seus olhos buscavam os meus, confusos, mas também cheios de preocupação. Estava prestes a seguir até o carro com ele quando ouvi a voz de Felipe, atrás de mim. — Para onde a minha noiva pensa que vai? — perguntou, me segurando pelo pulso. Sua expressão era carregada. — Quem é ele? Virei o rosto para ele, tentando me controlar. — Um amigo de infância. Só isso. Estou apenas pegando uma carona. Não tenho tempo para joguinhos de ciúmes. Achei que um homem tão bonito e rico como você fosse mais seguro de si. — Respondi seca, empurrando sua mão com firmeza. — Não se preocupe. Eu sei exatamente o que posso ou não fazer. Não irei quebrar o contrato. Entrei no carro sem olhar para trás. Estava tremendo por dentro, mas minha prioridade era clara: Cecília. O silêncio no carro durou alguns segundos até Kiev perguntar: — Quem era aquele cara? Tenho a impressão de já ter visto ele em algum lugar... — Ele é... meu noivo. Talvez você tenha visto ele na televisão. — Noivo? — Kiev repetiu, com um tom estranho. — Ele é aquele seu namorado da escola? Aquele que apareceu só uma vez? Eu... lembro vagamente... — Que? Não. Você tá confundindo. Nunca tive namorado na escola. Talvez você tenha confundido algum amigo com isso. — Respondi, franzindo a testa. — Eu tenho certeza que... Ele parou de falar quando estacionou em frente ao hospital. — Aqui. — Entreguei um papel com meu número. — Obrigada pela carona. A gente se fala depois. Prometo que colocamos a conversa em dia. Desci do carro rapidamente e entrei no hospital. Não deu nem tempo de perguntar por Cecília. Ela estava sendo levada em uma maca, completamente desacordada. Um respirador cobria sua boca e nariz. Meu coração despencou. Minhas pernas vacilaram, mas me mantive de pé. Minha avó veio correndo logo atrás da maca, com lágrimas nos olhos, acompanhada pelo médico. — Você chegou bem na hora. Os médicos já estão esperando por ela na sala de cirurgia. Vai precisar assinar alguns documentos no caminho. — Ele me entregou um envelope. — Como assim cirurgia de risco? Ainda não passou nem 24 horas desde que nos falaram do diagnóstico. Eu consegui o dinheiro antes do prazo! — Meus olhos marejaram. — Os rins da Cecília começaram a falhar mais rápido do que o previsto. Estamos correndo contra o tempo. Se tudo correr bem, talvez nem seja necessária uma doação de rim. Mas o risco existe. A falência renal já começou. — Ele falou enquanto me guiava até a saída, onde uma ambulância nos esperava. Eu não conseguia raciocinar. Era muita informação. Muito medo. Muita dor. — Eu vou com a minha filha. — falei com firmeza, me posicionando ao lado da maca. — Leve minha avó em outro carro. Quero segurar a mão dela durante o caminho. O médico hesitou, mas assentiu. A ambulância partiu, e ali, no silêncio tenso daquele veículo em movimento, eu segurei com força a pequena mão da minha filha. Ela estava tão frágil... tão quietinha... Cada batida do monitor parecia me lembrar que eu podia perdê-la. E a ideia de viver sem ela era mais do que insuportável. Era... inimaginável. Fechei os olhos, e pela primeira vez em muito tempo, orei. Pedi forças, pedi tempo. Pedi por um milagre. Minha filha precisava viver. E eu daria tudo para que isso acontecesse.
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