Questão de perspectiva

1383 Words
— Bem, tudo é uma questão de perspectiva. — Felipe encostou-se à borda da mesa com os braços cruzados e um meio sorriso cínico nos lábios. — Você será tratada como minha noiva. Terei as mesmas responsabilidades e deveres que teria em uma relação, não custa nada receber o mesmo em troca. Reciprocidade, sabe? Revirei os olhos discretamente, tentando manter a compostura, mesmo com o tom arrogante dele me fazendo querer levantar e ir embora. O problema era: eu não podia. Não agora. — Terá todo o luxo que quiser. — Ele continuou como se estivesse me vendendo uma casa em uma ilha tropical. — Nos próximos meses, como diz o contrato, você terá um cartão de crédito ilimitado e poderá fazer tudo que quiser. Ao meu ver, a situação é bem diferente, afinal, eu jamais levaria uma prostituta para minha casa, muito menos, permitiria dormir na mesma cama que eu. O veneno escorreu de suas palavras como se fosse a coisa mais natural do mundo. Frio. Calculista. E absurdamente bonito, o que tornava tudo ainda mais difícil de engolir. Só o olhar dele já me desestabilizava, o que era um problema grave, considerando que eu precisava manter a cabeça no lugar. — Sabe a razão disso? — Felipe perguntou, encarando meus olhos com uma intensidade que me deu arrepios. Eu queria responder com deboche. Queria fazer ele engolir cada palavra que saía daquela boca perfeita com ar de dono do mundo. Mas minha língua se adiantou, carregada de ironia: — Não quer que ela veja onde você mora ou que seus lençóis fiquem sujos com pessoas da rua? Ele sorriu, e aquilo me irritou ainda mais. Aquele tipo de sorriso que ele dava quando sabia que tinha o controle. O maldito prazer de quem está vencendo um jogo que eu nem sabia que estava jogando. — Você tem uma visão bem r**m de mim, mas está equivocada. — disse ele, como se estivesse dando uma palestra. — Apenas é mais simples. É como jantar fora depois de um dia estressante, só para não fazer bagunça ou ter que cozinhar. Você escolhe o que comer, depois de pagar, pode ir embora sem se preocupar com mais nada. Entendeu? — E eu jamais poderia fazer isso com você. — completou, com um tom quase... ofendido? Era isso? Ele estava magoado por eu tratá-lo como um babaca superficial sendo exatamente isso? — Então, eu não sou apenas uma refeição? — perguntei, arqueando a sobrancelha. Era absurdo ouvir alguém comparar sexo com comida. Absurdo, mas infelizmente, coerente vindo dele. Um homem que tratava emoções como contratos e relações como cláusulas a serem cumpridas. — Não. Você me irrita demais para ser uma refeição. — respondeu com sinceridade c***l, justo quando a impressora terminou de cuspir o maldito contrato. Felipe pegou o papel com elegância e, sem me encarar, o jogou sobre a mesa, deslizando-o na minha direção como se estivesse me oferecendo um presente. Ou uma sentença. — Vai assinar ou quer que eu arrume uma prostituta que não me olhe com desdém? Ao menos, elas vão ficar muito animadas com a chance que você está desperdiçando. E com toda certeza, devem ter mais experiência que você na hora de satisfazer alguém. Eu o encarei, confusa, raivosa e... impotente. A sensação de ter perdido uma batalha sem nem ter entendido quando ela começou me invadiu como uma onda gelada. Eu havia marcado cláusulas, argumentado, tentado negociar... mas ele só rejeitou os pontos que realmente me incomodavam. Os que importavam de verdade. E deixou passar os superficiais para me dar uma falsa sensação de controle. Eu perdi. Se eu insistisse mais, sentia que perderia a oportunidade por completo. E não havia plano B. Não dessa vez. Respirei fundo, tentando ignorar o gosto amargo da derrota. — Assinado! — declarei, puxando a caneta e rabiscando meu nome no final da página sem nem reler o contrato. Estava cansada. Exausta. E aquele pedaço de papel, por mais humilhante que fosse, era a única esperança de estabilidade que eu tinha. — Enviei o dinheiro para essa conta. — disse, apontando para os dados bancários no celular. Ele não hesitou. Sorriu satisfeito, quase como se fosse ele quem tivesse ganhado na loteria. — Vamos nos dar muito bem, Ariela. Eu tenho certeza absoluta disso. Algo me diz que finalmente irei compreender o que aconteceu. Franzi a testa com a última parte. O que ele queria entender, exatamente? Mas antes que eu pudesse perguntar, ele estendeu seu celular em minha direção. O aparelho parecia mais uma tela de cinema na minha mão. — O que eu faço com isso? — perguntei desconfiada. — Normalmente, usam para fazer ligação, mas caiu de moda. — disse ele, debochado. — É usado mais para enviar mensagens e ver besteira na internet. De toda forma, anote seu número e faça a ligação que precisa para minha secretária. Secretária. A lembrança dela me atingiu como uma pedra. Aquela voz enjoada, o tom possessivo, o desprezo não-disfarçado... Eu havia até esquecido daquela criatura. Achei que Felipe acharia um absurdo o jeito que fui tratada, mas aparentemente, ele achava tudo isso muito engraçado. O número já estava na tela. Bastava pressionar o botão verde. Respirei fundo. Sorri. Se era para entrar nesse circo, que fosse de cabeça. CHAMADA ON — Olá, chefinho. Precisa de alguma coisa? — A voz irritante da secretária preencheu o ambiente como uma sirene de alerta. — Que você passe no RH amanhã para assinar sua demissão. — respondi com a voz mais doce que consegui fingir. O silêncio do outro lado durou exatos dois segundos. — Quê? Quem é você? O que pensa que está falando? — Eu sou Ariela, a noiva de Felipe. — fiz questão de enfatizar o título. — Soube por ele que a empresa tem uma política restrita com animais no escritório, o que é uma pena... você parecia uma galinha muito competente no seu trabalho. Mas, caso eu saiba de algum lugar que precise de prostitutas, indicarei a senhora. Tenha uma boa noite. CHAMADA OFF Desliguei antes que ela respondesse. O gosto da vingança era amargo e doce ao mesmo tempo. — Você parece feliz. — Felipe observava da poltrona, com os braços cruzados e um sorriso no canto da boca. — Não vou mentir, foi satisfatório. — respondi, passando meu número de celular para ele com a caneta ainda na mão. — Sério? Bem... — Ele se levantou devagar, os olhos grudados em mim. — Eu não posso ficar sem secretária. E como o contrato diz que você tem direito de demitir qualquer funcionário meu, desde que possa substituí-lo, creio que nos veremos amanhã às 8h. — Quê?! — arregalei os olhos, puxando o contrato como uma desesperada, folheando as páginas em busca dessa cláusula absurda. Ela estava lá. Em letras miúdas, no fim de um parágrafo, com a frieza de quem sabia exatamente o que estava fazendo. Felipe se aproximou ainda mais. Estávamos a centímetros de distância quando ele murmurou: — Ah, mas não se preocupe. Não será de graça. Você receberá o mesmo salário que ela. Já que terá as mesmas obrigações. O contrato parecia agora uma armadilha perfeitamente montada. — É bom memorizar tudo que está no contrato. Vai evitar problemas no futuro. — completou ele, satisfeito, antes de guardar os papéis. — Agora, temo que devemos nos despedir. Tenho trabalho a fazer. Já fiz a transferência. Tenha uma boa noite. — disse ele, e antes que eu pudesse recuar, se aproximou de mim, colocando seu braço ao redor da minha cintura com naturalidade. Seu toque era firme. Quente. O gesto, por mais simples que parecesse, carregava uma carga que me paralisou por um instante. E então, sem aviso, ele me beijou. Foi um beijo breve. Mas nada simples. Havia uma mistura perigosa ali — posse, provocação e algo que eu não queria nomear. Meu corpo respondeu antes que eu tivesse tempo de pensar, e quando ele se afastou, deixou um rastro de confusão e calor onde seus lábios tocaram. Fiquei ali, imóvel por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego e a razão. A verdade era simples: eu havia assinado um contrato. Mas Felipe parecia determinado a transformar isso em algo muito mais complicado do que um simples acordo. E a guerra... havia apenas começado.
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