(Ambientação: Mansão Fogo Encontra o Gelo, Sicília. Bunker, Cofre e Adega. Dia.)
Aterrissamos na Sicília e, de cara, dava pra sentir que o ar era outro. Não era aquele frio pesado de Odessa, mas um sol quente, só que traiçoeiro. A Mansão Fogo Encontra o Gelo ficava num ponto alto, tipo um castelo de pedra, com o mar batendo embaixo. Aquele lugar era a cara do meu pai: bonito por fora, bunker por dentro.
Chegamos num carro alugado, um modelo velho e sem graça que era ótimo pra sumir na paisagem. Paramos o carro no meio de um monte de oliveiras, a uns quinhentos metros da entrada principal.
Serafiny, que agora tava com uma roupa casual, mas com a Glock invisível na cintura, tirou o tablet pra checar o mapa.
Ela não perdia a pose nunca.
"A segurança aqui é baseada no isolamento. Ninguém espera invasão, porque teoricamente só a gente e o Capo sabiam desse lugar. É a nossa chance," ela disse, a voz no modo tático. "Os alarmes são bobos, mas os sensores de pressão nas árvores foram atualizados, eu aposto."
Eu concordei, lembrando do mapa antigo que meu pai me fez decorar. "Meu pai me ensinou a usar o túnel de serviço do vinho. A chave mestra, aquela que parece um abridor de garrafa, tá aqui. A gente entra por baixo."
"Bom, mas você tá ligada o problema não é a chave. O problema é quem nos mandou pra cá," Serafiny retrucou, me olhando de um jeito que me irritava. Ela sempre jogava na minha cara a minha própria tese. "Se A Pessoa Que Sabe Mais quer que a gente venha, é porque ela já deu um jeito nos nossos esquemas de defesa internos. Ela tá jogando com a nossa memória afetiva."
"Eu não concordo," eu rebati, sentindo o cheiro de sal e jasmim.
"Se ela quisesse nos m***r, ela teria feito em Odessa, de longe. Aquele EMP foi pra mostrar poder, pra me fazer correr. Ela quer o Arsénico, sim, mas ela quer que eu ache a chave. A chave pra achar a Alice. E o Sebastian me mandou pra cá. Pra Mansão. Não pra morte."
Eu a encarei, forçando um diálogo que a tirasse da zona de conforto. "Eu preciso saber, de você, o que Sebastian poderia ter escondido aqui que é pior que o Arsénico. O que faria A Pessoa Que Sabe Mais arriscar tanto pra vir atrás?"
Serafiny pensou por um segundo longo. Demais. Isso sempre me deixava com a pulga atrás da orelha.
"A pior coisa... não é dinheiro, Íris. Nem dados. É a prova. O nome," ela disse, as palavras lentas e pesadas. "É o nome do Capo que ele estava investigando. Ou o nome da Mente Mestra. A revelação de que A Pessoa Que Sabe Mais é alguém de carne e osso que a gente conhece, e que tá infiltrado na nossa família."
"E o que te faz ter tanta certeza de que o Sebastian não é o traidor, então? Você o detesta," eu perguntei.
Ela suspirou, um gesto mínimo. "Eu nunca disse que ele não é. Eu sou lógica, cê sabe. Se ele te deu a pista, ele tá agindo pra que a missão continue. Se ele te traiu, ele é um gênio, porque o Arsénico tá contigo, a Máfia tá no seu rastro, e ele tá fora do radar. Se ele te ama, ele é burro, e tá te protegendo à distância. Mas, em qualquer cenário, a única coisa certa é que ele se tornou um Isco Humano pra você poder caçar A Pessoa Que Sabe Mais sem ser o foco."
Ela se levantou, batendo a poeira da calça. "Vamos lá. O tempo de pensar acabou, Executora. Entramos pela adega. Eu cuido dos alçapões, você me guia pro bunker. Você conhece cada palmo desse lugar, e isso é a nossa única vantagem real."
Caminhamos no meio das oliveiras. O silêncio da Mansão era profundo.
"Serafiny, fala a verdade. Na boa. Você conviveu com meu pai mais que eu nos últimos anos," eu insisti, sem conseguir me segurar. "Existia alguém que ele temia de verdade? Não um inimigo bobo, mas alguém que o fizesse tremer?"
Ela parou. "Seu pai temia o caos, Íris. Ele era um homem de regras rígidas. E ele temia quem estivesse disposto a quebrar todas as regras e sacrificar tudo, inclusive a própria vida, pra vencer. Ele chamava essa gente de 'o caos'."
Serafiny balançou a cabeça. "Sebastian agiu por desespero, não por caos. Desespero é medo. Caos é intenção pura, sem freio. Seu pai não temia o Sebastian. Ele o punia. O caos, Íris... você sabe quem é. A gente só não quer acreditar."
"E o que você sabe, afinal?"
Ela suspirou de novo. "Eu só sei que o caos nos esperava em Odessa, e tá nos esperando aqui. Vamos resolver isso."
Chegamos à base da colina. O acesso à adega estava escondido por uma parede de hera bem densa. Usei a chave mestra, e a porta de aço reforçado se abriu com um clique seco. Entramos e fechamos a porta.
O cheiro de vinho, terra molhada e mofo antigo me atingiu. Era um cheiro familiar, de infância.
Enquanto caminhávamos pelas prateleiras empoeiradas, Serafiny parou no meio do corredor principal, a mão na minha frente.
"Não pisa ali. Detector de pressão eletrônico. Sensor de última geração," ela alertou.
"Não tava nos mapas do Capo. A segurança foi atualizada. E não foi ele quem fez isso."Eu me agachei. O sensor era quase invisível.
"Isso aqui é tecnologia , nível de agência de governo. Quem fez isso? Meu pai só confiava na equipe dele pra fazer isso, e eles estão todos mortos ou em fuga."
"Ou a Mente Mestra sabia dos seus passos antes de você os dar. E isso nos leva ao mesmo lugar, Íris quem tinha acesso total aos protocolos de segurança do Capo? Quem tinha as senhas e a liberdade pra chamar a equipe de segurança mais cara do mundo?" Serafiny me perguntou, enquanto tirava seu kit de desativação, um conjunto minúsculo de ferramentas.
"Eu," eu respondi, fria. "Só eu. O Capo e eu. E Sebastian, que tinha acesso indireto."
"Exatamente. Se você não foi, o Sebastian é o traidor, ou A Pessoa Que Sabe Mais é alguém que tem o Sebastian na coleira, ou, pior, alguém que tinha acesso físico à nossa vida," ela disse, concentrada nos fios. "Eu vou desativar. Você me cobre. Olho nos corredores superiores. Fica atenta à casa principal."
Eu fiquei de guarda. O silêncio era ensurdecedor, quebrado só pelo clique dos instrumentos da Serafiny.
"Serafiny, se essa Pessoa Que Sabe Mais tiver me monitorado por anos... por que ela me deixaria viva? Por que me deixaria assumir o Trono? Pra me dar poder pra lutar contra ela?"
"Pra te dar corda, Executora. Pra te dar poder o suficiente pra você cair no jogo dela, mas não o suficiente pra vencer. É a velha tática de dar ao inimigo a ilusão de controle. Ela quer que você se sinta forte, mas a cada passo, você tá mais perto da armadilha," ela explicou, sem desviar os olhos do sensor.
"E você. Como é que você sabe tanto sobre as táticas dela? Você nunca erra um passo. Você é a Executora perfeita," eu disse, sem medo.
Serafiny parou, o alicate suspenso. "Eu sou a Executora porque o Capo me treinou pra sobreviver a qualquer traição, até mesmo à minha. Eu sigo as regras dele pra proteger o clã. Se eu fosse a Sombra, o braço direito da Mente Mestra, eu já teria te matado em Odessa e voltado pra casa com o Arsénico. O fato de a gente estar juntas aqui é a única prova de que eu sigo as regras."
Ela terminou de cortar o fio. "Pronto. Desativado. Vamos. Bunker."
Eu respirei fundo. A lógica dela era irrefutável, e isso me assustava. Se eu não podia confiar na lógica, o que me restava?
«O Bunker de Emergência»
Chegamos à entrada do bunker, atrás de uma prateleira de vinhos falsa. A porta era de aço maciço, e só abria com a minha impressão digital e um código de acesso de emergência.
"O que significa isso, exatamente?" Serafiny perguntou.
"Significa que o Capo sempre dizia que a minha filha era o único tesouro que ele não podia negociar. É o toque humano dele, o único código que ele confiava. Eu chamo de 'Chave Alice'," eu revelei.
Eu me aproximei do cofre, que tinha um teclado numérico e uma leitura de íris. Coloquei o meu olho e digitei o código. O Cofre Corleone se abriu.
Lá dentro, não havia dinheiro. Não havia ouro. Não havia documentos. Havia apenas um único caderno de capa de couro. Velho, gasto.
"O que é isso?" Serafiny perguntou, tensa.
Eu peguei o caderno. Era o diário da minha mãe. O diário da Senhora Corleone.
"O diário dela... O Capo nunca deixou ninguém tocar nisso," eu disse, a voz quase sumindo. "Sebastian sabia disso. Ele me mandou pra cá pra pegar a verdade que meu pai escondeu."
Eu abri na primeira página. A caligrafia da minha mãe, elegante e delicada. Mas não falava de flores ou de amor. Falava de segredos. Eu folheei as páginas, até que uma data me chamou a atenção, um dia antes da data da suposta morte dela.
14 de janeiro. O Capo acha que me engana. Ele acha que eu sou a esposa submissa. Ele não sabe que a Sicília é pequena demais para a minha ambição. Ele não sabe que os acordos com o Leste foram feitos por mim, não por ele. Ele não sabe que... Eu pulei uma linha e li o que me fez gelar até os ossos. ... eu vou fugir com a minha outra filha. A segunda Executora.
Meu sangue congelou. A garganta fechou. Eu não consegui respirar. tudo ao redor parou. Eu tinha uma irmã. O Capo tinha mentido sobre tudo.
"O que tá escrito, Íris? Fala! você tá pálida!" Serafiny exigiu, com urgência.
Eu li em voz alta, a voz trêmula. "Outra filha."
Neste exato momento, antes que eu pudesse processar o choque da irmã desconhecida, um estrondo ensurdecedor rasgou o ar. Não veio de dentro do bunker, mas da área da adega, lá em cima. O chão tremeu.
"EMP reativado! m***a! Eles nos rastrearam, eles sabem que a gente tá aqui!" Serafiny gritou.
Eu estava paralisada
Minha irmã ¿?
Outra filha ¿?
ha mais uma Corleone !?
O choque me imobilizou no lugar.
"Íris! Sai daí! Agora!" Serafiny gritou, a voz desesperada.
O teto do bunker começou a estalar com a pressão da explosão. Serafiny agiu num flash. Ela me empurrou com força, me jogando pra frente, em direção à porta de saída. O diário da minha mãe escorregou das minhas mãos paralisadas. Ele caiu, fazendo um barulho oco, e aterrissou num barril de água que meu pai usava para manutenção de emergência no canto do bunker.
"d***a! O diário!" eu gritei, tentando voltar para pegá-lo, mas o medo da explosão me segurava.
Serafiny me agarrou pelo braço, arrastando-me para fora do bunker. "Esquece o diário! Eles vão nos explodir aqui! A prova física da Sombra se foi! Sebastian te deu a pista, agora ele quer que você use o cartão de memória! Anda!"
Eu cambaleei, tossindo com a fumaça que já invadia o túnel. O mundo tinha acabado de virar de cabeça para baixo: eu tinha uma irmã desconhecida e a única prova que poderia revelar o nome da Pessoa Que Sabe Mais foi destruída.
A água escura do barril engoliu o caderno de couro, a única chance de saber a verdade agora estava destruída
Eu voltei ao modo Executora. Zero emoção. Só a missão.
"O cartão! Aonde o Sebastian se escondeu? O que tem aqui que ele não queria que eu visse?" eu exigi, olhando para o pequeno cartão de memória na minha mão.
Serafiny já estava correndo em direção à saída, verificando o corredor. "Ele está te esperando no lugar mais seguro e mais improvável. O cartão vai nos dar o endereço. Mas a gente tem que sair daqui antes que a Mansão caia na cabeça da gente!"