O convite chegou na manhã de terça-feira: um coquetel de gala promovido por investidores e empresários do setor imobiliário — um dos braços do império Alcântara. Era o primeiro evento social de Isadora como esposa de Leonardo. A esposa de contrato. A mulher que, agora, seria observada, medida, avaliada… e julgada.
Beatriz, sempre precisa, foi quem trouxe o vestido à cobertura. Um modelo preto justo, com decote elegante nas costas e uma f***a lateral que beirava o indecente — se não fosse sustentado pelo corte refinado.
— O senhor Alcântara prefere um visual que passe confiança e feminilidade — disse Beatriz, sem encarar Isadora.
— O senhor Alcântara pode ficar tranquilo. Eu sei muito bem como parecer algo que não sou — respondeu ela, com um sorriso ácido.
Horas depois, quando Leonardo a viu pronta, demorou um segundo a mais do que devia para responder. A f***a deixava uma provocação em cada passo. O cabelo solto deslizava pelos ombros. E os olhos, pintados com delineador sutil, tinham a audácia de uma mulher que sabia o efeito que causava.
Mas ele fingiu indiferença.
— Vai causar um acidente — murmurou, antes de abrir a porta do carro.
— Melhor causar um acidente do que passar despercebida.
— Acha mesmo que alguém ali não vai te notar?
Ela não respondeu. E isso o incomodou mais do que deveria.
O salão do evento era todo feito em vidro e mármore. O som do piano ao vivo ecoava entre as taças de champanhe e as conversas em tom baixo. Fotógrafos estavam presentes, discretos. E todos notaram quando o casal Alcântara entrou.
Leonardo caminhava com a postura de um homem que dominava qualquer espaço. Isadora, ao seu lado, segurava seu braço com leveza ensaiada, o rosto elegante, mas os olhos atentos.
— Sorria, Isadora — ele murmurou no ouvido dela, inclinando-se levemente. — Pelo menos para as câmeras.
Ela forçou um sorriso que parecia natural. — Estou sorrindo, marido. Por fora.
Durante a primeira hora, a fachada funcionou. Conversaram com empresários, cumprimentaram autoridades e brindaram com falsos amigos de Leonardo. Mas foi quando ela ficou sozinha por alguns minutos no salão, enquanto ele falava com um investidor, que tudo mudou.
Um homem se aproximou.
Alto, cabelos castanho-claros, terno azul-marinho, sorriso confiante. Um típico predador social.
— Me desculpe, mas você é… a nova Sra. Alcântara? — perguntou ele, com uma taça nas mãos.
Isadora o olhou de cima abaixo antes de responder.
— Depende. Isso é um elogio ou uma ameaça?
Ele riu.
— Definitivamente, um elogio. Mas também uma surpresa. Esperava algo mais… conservador.
— Decepções são inevitáveis quando se tem expectativas demais.
— Eu sou Daniel Amaral. Trabalho com investimento privado. E você é... ainda mais bonita ao vivo do que nas colunas sociais.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você pesquisa as esposas dos CEOs com frequência?
— Só quando são irresistíveis.
Antes que ela pudesse responder, a presença de Leonardo surgiu ao lado dos dois como uma nuvem carregada. Ele se interpôs de forma natural, mas seu olhar estava longe de calmo.
— Daniel — disse Leonardo, com um aperto de mão firme demais. — Não sabia que você colecionava esposas alheias agora.
Daniel riu, desconcertado.
— Só estava elogiando sua... esposa. Ela é encantadora.
— Eu sei. — Leonardo passou o braço pela cintura de Isadora, puxando-a para mais perto. — E é só minha.
Daniel percebeu o recado e se afastou, murmurando desculpas. Isadora, por outro lado, continuou imóvel, mas seus olhos ardiam.
— O que foi aquilo? — ela perguntou, assim que ficaram sozinhos no canto do salão.
— Aquilo foi um babaca tentando flertar com minha esposa.
— Então? Qual o problema?
— O problema, Isadora, é que você está comprometida.
Ela riu, sarcástica.
— Comprometida por cláusulas, Leonardo. Não por sentimento.
— E ainda assim, você é minha esposa.
Ela se afastou dele, irritada.
— Não me trate como posse. Isso não faz parte do acordo.
Ele a olhou com intensidade.
— Não sei o que mais me irrita. O olhar dele sobre você... ou o fato de você ter gostado.
— Eu não gostei! — rebateu, sentindo o coração acelerar. — Mas você gostou de fingir que se importa. Isso sim é preocupante.
Leonardo não respondeu. Apenas desviou o olhar por um momento. E depois murmurou:
— Talvez fingir esteja ficando mais difícil do que eu pensava.
A frase ficou entre eles, suspensa no ar como uma bomba prestes a explodir.
De volta à cobertura, o silêncio reinou durante o trajeto inteiro. Isadora tirou os saltos no elevador. Quando entraram no apartamento, ela seguiu direto para o quarto.
Mas Leonardo a seguiu.
— Por que está tão incomodado? — ela perguntou, virando-se com raiva. — Porque alguém olhou pra mim? Porque me viu como mulher?
— Porque ele te viu de um jeito que eu ainda não permiti.
Ela piscou, sem entender.
— Permitido? Eu não sou uma funcionária sua, Leonardo. E definitivamente não sou seu brinquedo.
Ele deu um passo à frente.
— Não é isso que eu quis dizer. Eu só... — parou, respirando fundo. — Eu não sou bom com esse tipo de coisa.
— Com o quê? Emoções?
— Com sentimentos que não estavam no contrato.
A confissão pairou no ar como uma ferida exposta.
— Eu também não estou sabendo lidar — ela admitiu, mais baixo do que gostaria. — Mas isso não te dá o direito de me cercar como se eu fosse sua propriedade.
— E se eu estiver com medo de te perder?
Ela o encarou, surpresa. Pela primeira vez, Leonardo não parecia o CEO inabalável. Parecia um homem confuso, tentando entender o próprio coração.
— Você nem me tem, Leonardo. Como pode ter medo de perder o que nunca quis de verdade?
— Porque talvez agora eu queira.
O silêncio caiu de novo. Mas não era frio.
Era quente. Tenso. Vivo.
Isadora se aproximou. Um passo. Dois. Estava perto o suficiente para sentir a respiração dele. O peito dele subia e descia rápido. Os olhos mergulhados nos dela.
— Então prova.
— O quê?
— Que o que você quer não é só controle... ou posse.
Ela ergueu o rosto. Ele hesitou. Mas então, os lábios se tocaram. Foi diferente do beijo do casamento. Não havia platéia. Nem contrato. Nem dever.
Só desejo.
Só verdade.
O beijo começou lento, mas cresceu com urgência. Como se fosse a única maneira de calar tudo o que não conseguiam dizer em palavras. As mãos dele deslizaram pela cintura dela. As dela subiram pelo pescoço dele. E quando se afastaram, ofegantes, sabiam que algo havia mudado.
Para sempre.
— Isso... — ele murmurou. — Isso estava no contrato?
— Não — ela sussurrou, encostando a testa na dele. — Mas talvez esteja no coração.