A Primeira Noite na Cama Errada

1025 Words
A noite caiu sobre São Paulo como um cobertor cinzento, abafado. A cobertura silenciosa refletia o clima entre os recém-casados, que seguiam vivendo como dois estranhos educados, mantidos por um contrato e separados por uma muralha invisível de orgulho. Isadora se recolheu cedo naquela noite. O vestido do casamento já havia sido guardado num canto do closet, como se fosse apenas uma peça de teatro que precisava esquecer. Um banho quente e um roupão macio depois, ela deitou-se na cama de casal espaçosa de seu novo quarto, tentando assimilar tudo. Casada. Por obrigação. Com um homem que a confundia mais do que gostaria de admitir. Virou-se de lado. Olhou para o celular desligado, e depois para a janela. Pensou na mãe, em silêncio. Em como tudo poderia ser diferente. Mas ali, entre lençóis de algodão egípcio e paredes decoradas por designers caríssimos, ela se sentia sozinha. Como se sua alma não coubesse naquele lugar. Do outro lado da cobertura, Leonardo também não dormia. De pé diante da janela de vidro, camisa aberta, copo de uísque na mão, ele observava as luzes da cidade que governava com frieza. Tentava ignorar a imagem de Isadora naquele vestido branco. A forma como ela manteve o queixo erguido diante de todos. A maneira como ela resistia a tudo — até mesmo a ele. E isso... o instigava. Mas não era o momento. Ainda era cedo. E ele não sabia se queria envolvimento ou controle. A madrugada avançava quando o destino resolveu brincar. Isadora, sonolenta e com a cabeça pesada pela insônia, levantou para beber água. Seus pés descalços cruzaram o corredor. O apartamento era grande demais para alguém perdido no próprio pensamento. E no escuro... qualquer porta parecia a certa. Quando voltou do corredor, entrou no quarto errado. Sem perceber, deitou-se na cama que não era a sua. O corpo mergulhou no colchão macio, e o cheiro — amadeirado, quente, masculino — não a alertou de imediato. Pelo contrário. A tranquilizou. Leonardo entrou no quarto minutos depois, os olhos cansados, já sem o copo na mão. A luz fraca do corredor o guiou até a cama, onde se jogou sem olhar. Mas assim que seu braço tocou outro corpo, rígido e quente, ele congelou. — O que...? Isadora acordou no susto, com o som grave da voz dele. — Leonardo?! — O que você está fazendo na minha cama? — Sua cama? — Ela se ergueu num pulo. — Essa é minha cama! Ele se sentou, acendendo a luz do abajur. O quarto, claramente dele, revelava o erro. O tapete escuro, os quadros abstratos, o perfume no ar. Tudo gritava “Leonardo”. Isadora arregalou os olhos. — Droga. Entrei na porta errada. Leonardo a olhou por um segundo. Ela usava apenas um roupão branco. Os cabelos bagunçados, o rosto corado. Aquilo não ajudava. Nada ali ajudava. — Calma. Não precisa fugir como se eu fosse te devorar. — Mas você é perigoso — ela rebateu, enrolando o robe com mais força no corpo. — Você vive esperando uma brecha pra dominar o território. Ele arqueou uma sobrancelha, divertido. — Engraçado. Porque você invadiu o meu. Ela bufou. — Só me diga onde está a saída, por favor. Ele se encostou na cabeceira, cruzando os braços. — O corredor está escuro. Pode tropeçar. Sente-se. Respira. E só depois volta. — Você quer que eu fique aqui? — Não quero que você desmaie no caminho. E também... não quero brigar. Hoje não. Ela hesitou. Mas sentou-se na beirada da cama. O silêncio entre eles era desconfortável. Mas também... íntimo. — Está arrependida? — ele perguntou, de repente. — Do casamento? — De tudo. Ela o olhou por um instante longo demais. — Não sei. Ainda é cedo pra saber se estou presa ou aprendendo a sobreviver. Leonardo respirou fundo. — Eu não sou um monstro, Isadora. — Mas também não é fácil de decifrar. — Talvez porque ninguém realmente tentou. Ela se virou de lado, olhando-o sob a luz suave do quarto. — Por que você aceitou isso? Esse contrato, esse casamento? Ele demorou para responder. — Porque era isso... ou perder o que me resta da empresa da minha família. Meu pai fez questão de me colocar contra a parede. E eu odeio perder. — E se eu resolver desistir? — Você não vai. — A certeza dele a irritava. — Porque apesar de tudo, você tem mais coragem do que imagina. E você odeia dar o braço a torcer. Ela sorriu de canto. — Talvez você me conheça mais do que eu gostaria. — Ou talvez estejamos nos conhecendo agora. Isadora deitou-se de costas na cama, olhando o teto. — Esse casamento está nos matando lentamente. — Ou nos transformando — ele disse, deitando-se ao lado dela, sem tocar. O silêncio voltou. Mas dessa vez... era diferente. Ambos encaravam o teto, com as respirações sincronizadas. Duas almas obrigadas a dividir espaço, tempo e um futuro que nenhum deles planejou. E mesmo ali, tão próximos, havia um abismo entre seus dedos. Um abismo prestes a ser atravessado. A manhã seguinte chegou com luz dourada filtrando pelas janelas amplas da cobertura. Isadora acordou primeiro. E por um segundo, sentiu paz. Até virar o rosto e ver Leonardo ali, dormindo ao seu lado. A lembrança da noite anterior veio em flashes. A conversa. O cansaço. O adormecer... juntos. Ela se levantou devagar, sem fazer barulho, e saiu do quarto antes que ele acordasse. Mas ao cruzar o corredor, ouviu a voz rouca dele: — Isadora? Ela parou. Olhou por cima do ombro. — Dormiu bem? Ela mordeu o lábio. — Dormi. O colchão é confortável. Ele sorriu, ainda deitado. — Pode voltar quando quiser. — Foi um acidente — ela rebateu, secando qualquer afeto na voz. — Claro. Um acidente... curioso. Ela fechou a porta sem responder. Mas ao se deitar novamente na sua cama, sozinha, sentiu falta de algo. Ou alguém. E mesmo que tentasse negar, a primeira noite que dividiram — mesmo sem se tocarem — tinha deixado uma marca invisível. Não no corpo. Mas no vínculo que começava a se formar. Um vínculo que nenhum contrato previa.
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