A Cerimônia de Mentira

1231 Words
O salão era elegante, mas discreto. Um casarão antigo no Jardim Europa, alugado por algumas horas. Nem flores em excesso, nem músicas românticas. Apenas o som suave de um piano ao fundo, o cheiro leve de lavanda no ar e uma decoração sóbria que gritava silêncio. Era o casamento de Leonardo Alcântara e Isadora Ferreira Costa. Mas ninguém ali ousaria chamar aquilo de um casamento de verdade. Isadora se olhava no espelho do camarim há longos minutos. O vestido branco, de seda minimalista com mangas delicadas e corte reto, contrastava com o nó em sua garganta. Estava linda. Intocável. Mas sentia como se fosse uma boneca vestida para um papel que não escolheu. — Está pronta? — perguntou Beatriz, a assessora de eventos, com um sorrisinho neutro. Isadora respirou fundo. — Tão pronta quanto uma mulher vendida pode estar. Beatriz fingiu não ouvir. Enquanto caminhava pelo corredor estreito que a levaria até o pequeno altar montado no centro do jardim, Isadora sentiu o estômago revirar. A cada passo, a certeza de que estava fazendo parte de algo irreal aumentava. Aquilo não era amor. Era um contrato. Um papel com cláusulas e prazos. Mas então ela o viu. Leonardo estava de pé, vestindo um terno preto impecável. Os olhos fixos nela, como se cada detalhe de sua aparência estivesse sendo registrado. Ele não sorriu. Não piscou. Não fez nenhum gesto romântico. Mas havia algo no modo como a observava que fez os passos dela hesitarem. Um olhar orgulhoso. Desafiador. E levemente... ferido. Ele também não queria estar ali. Ao lado dele, estavam o pai de Leonardo, o velho Augusto Alcântara — que, apesar de tudo, sorria satisfeito —, e dois advogados que mais pareciam carcereiros legais daquele acordo matrimonial. Do lado de Isadora, apenas seu pai, Mário Costa, com os olhos marejados e expressão de culpa m*l disfarçada. A mãe dela se recusara a comparecer. Dissera que não assistiria à filha se casar por obrigação. Mas ele fora. O homem que a entregaria para um futuro que ela não escolheu, em troca de dinheiro. O juiz de paz pigarreou. — Estamos aqui reunidos para celebrar a união civil entre Leonardo Luiz Alcântara e Isadora Ferreira Costa... A voz dele soava como um zumbido aos ouvidos de Isadora. Cada palavra parecia selar sua prisão. Leonardo não tirava os olhos dela. Quando o juiz o convidou a repetir os votos, ele fez com frieza calculada: — Eu, Leonardo Luiz Alcântara, aceito Isadora Ferreira Costa como minha esposa legal, comprometendo-me com os deveres previstos em lei... e em contrato. Algumas risadinhas discretas se espalharam entre os poucos convidados — todos sócios, testemunhas ou funcionários da empresa. Isadora estreitou os olhos. Quando chegou sua vez, respirou fundo, engolindo o orgulho e o desejo de fugir: — Eu, Isadora Ferreira Costa, aceito Leonardo Luiz Alcântara como meu... esposo, e me comprometo a cumprir o que for necessário — disse com voz firme. O juiz não hesitou. Terminou os trâmites, e com um sorriso mecânico, declarou: — Pelo poder a mim concedido, declaro vocês marido e mulher. Aplausos mornos ecoaram. Nenhuma lágrima. Nenhum abraço. Nenhuma troca de promessas doces. Apenas formalidade. Leonardo se aproximou. Ela esperava um beijo no rosto, ou um aperto de mãos. Mas ele surpreendeu. Tocou levemente o queixo dela, ergueu o rosto e encostou os lábios nos dela com suavidade. Isadora congelou. O beijo durou segundos. Suficientes para embaralhar seus sentidos. Não foi apaixonado. Nem desejoso. Mas teve algo... perigoso. Um aviso silencioso. “Estamos presos nisso. Agora é real.” O jantar foi servido em mesas longas e discretas. O som ambiente preenchia o silêncio desconfortável. Isadora manteve-se longe de Leonardo a maior parte do tempo, conversando pouco, apenas o suficiente para parecerem educados. Quando finalmente se encontraram na varanda de pedra do casarão, estavam a sós pela primeira vez desde o “sim”. — Parabéns, esposa — disse ele, com um copo de uísque nas mãos. — Se for ironia, está soando mais amarga do que deveria. — Na verdade, é um brinde à sobrevivência. Você passou pela primeira fase do nosso jogo. Ela cruzou os braços, encarando-o. — E você faz tudo parecer um tabuleiro. Alguma estratégia específica agora que estamos “casados”? Leonardo deu de ombros. — Apenas manter as aparências. As visitas ao meu pai serão quinzenais. Eventos sociais nos próximos meses. Teremos que morar juntos. — O quê? — Ela se endireitou. — Isso não estava no contrato! — Estava. Cláusula sete. "Residência conjunta em endereço definido pelo cônjuge contratante." Você devia ter lido as entrelinhas. Ela bufou. — E onde seria essa “residência conjunta”? — Cobertura no Itaim. Ampla, silenciosa... e com quartos separados. Acha mesmo que eu quero dividir cama com alguém que me odeia? — Eu não te odeio — ela disse, sem pensar. — Só não confio em você. E não gosto de ser tratada como propriedade. Ele se aproximou devagar, olhando-a de cima, como sempre fazia. — Você me conhece tão pouco quanto eu conheço você. E estamos condenados a fingir i********e diante do mundo. Vai ser um desafio. Mas eu gosto de desafios. Ela engoliu em seco. O cheiro do perfume dele, a proximidade, o modo como ele invadia o espaço dela... tudo aquilo era uma armadilha emocional. — Acha que vai conseguir me dobrar, Leonardo? — Não. Mas acho que você vai acabar se dobrando sozinha. Ela o empurrou de leve, afastando-se, o rosto corado de raiva e confusão. — Cuidado com a confiança excessiva. Ela costuma levar à queda. Ele sorriu de lado. — E cuidado com a resistência. Às vezes, ela esconde uma atração que ninguém quer admitir. Na saída, já dentro do carro que os levaria até o novo lar temporário, Isadora permaneceu em silêncio. O motorista seguia pela avenida Paulista iluminada, mas o verdadeiro caminho perigoso era o que se desenhava entre ela e Leonardo no banco de trás. — Está nervosa? — ele perguntou, como se a tensão entre eles não fosse palpável. — Estou calculando minha nova prisão. — Não precisa ser uma prisão. Pode ser só... um campo de batalha. Ela o encarou. — E você vai lutar comigo ou contra mim? Leonardo virou o rosto para a janela. Seus olhos perderam o brilho debochado por um segundo. — Ainda não decidi. O carro estacionou na frente de um prédio luxuoso. A cobertura tinha pé-direito alto, janelas imensas e uma vista deslumbrante. Era moderna, fria, como ele. Ela caminhou pelos cômodos sentindo-se deslocada, como uma estranha no palácio do inimigo. Leonardo mostrou os quartos. — Esse é o seu. E o meu é no outro corredor. A casa é grande. Podemos nos evitar se quiser. Ela largou a bolsa em cima da cama. — Que alívio saber disso. Antes de sair, ele parou na porta. — Boa noite, Isadora. Ela hesitou. — Boa noite... marido. O som dessa palavra soou estranho nos lábios dela. Ainda mais estranho foi o modo como ele a olhou após ouvi-la. Como se aquele jogo, finalmente, tivesse começado de verdade. E no olhar que ele lançou antes de fechar a porta, havia mais do que frieza ou arrogância. Havia algo que ela não soube identificar... mas que queimava. Como se, de algum modo, aquele casamento de mentira fosse muito mais real do que qualquer um dos dois estava disposto a admitir..
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