Não só de amor

1105 Words
O assunto começou pequeno. Quase casual. Era uma tarde de domingo, Laura estava sentada no chão do quarto de Henrique, com vários panfletos de universidades espalhados ao redor. Ele estava deitado na cama, mexendo no celular, enquanto ela explicava animada: — Olha essa grade curricular, eles têm intercâmbio no terceiro ano. E o campus é enorme. Henrique sorriu. — No Brasil? — Claro — ela respondeu, como se fosse óbvio. — Eu quero fazer Direito aqui, já falei isso mil vezes. Ele apoiou o celular no peito. — Você nunca pensou em tentar fora? Laura levantou os olhos devagar. — Fora… tipo? — Estados Unidos. Silêncio. Ela voltou a olhar para os papéis. — Eu não tenho vontade. Ele se sentou. — Nem se eu fosse? Ela ergueu o rosto. — Você vai. — Eu posso não ir. Ela soltou um meio riso. — Henrique, você vai, isso nunca esteve em discussão. Ele ficou sério. — Não para mim. Laura percebeu algo diferente no tom. — O que você quer dizer? Ele respirou fundo. — Eu aceitei o plano, eu vou fazer a faculdade lá, vou seguir o que meu pai quer, mas isso não significa que eu quero fazer isso sozinho. Ela demorou dois segundos para entender. E quando entendeu… o ar mudou. — Você acha que eu vou com você. Não era pergunta. Era constatação. Henrique passou a mão pelo cabelo. — Eu achei que… se eu te chamasse… você iria. O coração dela apertou. — Você já estava contando com isso? — Eu confiava em nós. Laura levantou devagar. — Confiar em nós é diferente de decidir por mim. Ele também se levantou. — Eu não decidi por você. — Decidiu sim, na sua cabeça, o plano já inclui eu largando tudo. — Largando o quê? — ele rebateu. — Você pode estudar lá também. Ela riu, incrédula. — Você acha que é simples assim? Mudar de país? De idioma? De sistema? De vida? — Para mim nunca foi opção ficar. — Para mim nunca foi opção ir. O silêncio ficou pesado. Henrique não tinha pensado nisso dessa forma. Na mente dele, amor era prioridade, e prioridade se encaixava. Na dela, amor era escolha, mas sonho também era. — Eu tenho meus planos, Henrique — ela disse, mais baixa agora. — Eu quero construir minha carreira aqui, quero passar numa federal. Quero fazer estágio no tribunal daqui. Eu tenho metas. — E eu não faço parte delas? A pergunta saiu mais vulnerável do que ele pretendia. Ela fechou os olhos por um segundo. — Faz, mas não como única direção da minha vida. Aquilo doeu. — Então eu sou secundário? — Não coloca desse jeito. — É o jeito que parece. Laura cruzou os braços, tentando conter a emoção. — Você sempre soube que iria embora. Eu entrei na sua vida já com data de validade. — Não fala assim. — É verdade. Ele se aproximou. — Eu achei que a gente decidiria isso juntos quando chegasse a hora. — Você já decidiu. — Eu decidi seguir o plano, mas imaginei que você estaria comigo. — Imaginou, não perguntou. Silêncio. Ela estava certa. Mas admitir isso significava aceitar que ele tinha sido egoísta. — Eu pensei que você acreditasse na gente o suficiente para arriscar. Ela sentiu a frase como um golpe. — E você acredita na gente o suficiente para ficar? A pergunta ficou suspensa no ar. Ele não respondeu. Porque ele não podia responder. O plano não era só uma escolha, era uma estrutura inteira construída desde que ele era criança. — Viu? — ela sussurrou. Henrique passou a mão no rosto, frustrado. — Não é justo você me colocar contra tudo que eu cresci para fazer. — E é justo você esperar que eu abandone tudo que eu cresci sonhando? O tom dela quebrou no final. Agora não era mais discussão. Era medo. — Eu não quero te perder — ele disse. — Eu também não. Eles estavam frente a frente, mas parecia haver um oceano entre eles. — Então a gente dá um jeito — ele insistiu. — Dar um jeito como? Relacionamento à distância? Fuso horário? Pressão dos seus pais? Minha faculdade aqui? Ele não tinha respostas práticas. Só sentimento. — Eu achei que amor fosse suficiente. Laura sentiu os olhos arderem. — Amor não paga passagem emocional, Henrique. Ele riu sem humor. — Desde quando você ficou tão racional? — Desde que percebi que amar você pode significar me perder. Aquilo o atingiu de verdade. Ele segurou os braços dela. — Você nunca vai se perder comigo. Ela o encarou. — Você não sabe disso. O silêncio que veio depois foi mais doloroso que qualquer grito. Henrique soltou devagar. — Então o que você está dizendo? Ela demorou para responder. — Que eu não posso prometer que vou. Ele engoliu em seco. — E eu não posso prometer que fico. Pronto. Ali estava a verdade nua. Nenhum dos dois era vilão. Nenhum dos dois estava errado. Mas os caminhos não coincidiam. Laura respirou fundo. — Talvez a gente esteja tentando viver para sempre algo que ainda é agora. Ele fechou os olhos por um segundo. — Eu não quero que a gente vire “foi bonito enquanto durou”. — Nem eu. — Então luta comigo. — Eu estou lutando. Só não vou lutar contra mim. O quarto parecia pequeno demais para tanta coisa não dita. Henrique pegou a jaqueta. — Eu preciso pensar. Ela assentiu, segurando as lágrimas. — Eu também. Ele saiu. E pela primeira vez desde que estavam juntos, não houve beijo de despedida. Naquela noite, Laura ficou olhando para o teto do quarto, sozinha. Ela o amava. Mas também amava quem estava se tornando. Será que amar alguém significava moldar os próprios sonhos ao formato do outro? Ou amar era justamente permitir que cada um crescesse, mesmo que em direções diferentes? Do outro lado da cidade, Henrique dirigia sem destino. Ele sempre teve tudo planejado. Faculdade. Empresa. Futuro. Mas Laura não estava no plano original. E agora ele não conseguia imaginar o plano sem ela. Ele tinha assumido que ela iria. Porque, no fundo, ele sempre esteve acostumado com o mundo se ajustando ao sobrenome Gates. Mas Laura não se ajustava. Ela escolhia. E isso era exatamente o que ele mais admirava nela. E o que mais o assustava. A primeira briga não terminou com reconciliação. Terminou com reflexão. E, talvez, com o primeiro teste real do amor deles. Porque agora não era mais sobre ciúmes. Nem sobre Gabriela. Nem sobre fofocas. Era sobre futuro. E futuro não aceita improviso eterno.
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