A casa estava silenciosa quando Laura chegou.
O carro parou em frente ao portão, e por alguns segundos ela permaneceu sentada no banco de trás, olhando para a fachada que conhecia tão bem, aquela casa tinha sido refúgio, campo de batalha, lugar de reconstrução, ali ela tinha chorado, lutado, descoberto quem era.
Agora parecia diferente.
Como se ela não pertencesse mais totalmente ali.
Eduardo desceu primeiro, contornou o carro e abriu a porta para ela, Laura saiu segurando a bolsa com força demais, como se precisasse de algo físico para se manter firme.
— Quer que eu entre com você? — ele perguntou.
Laura balançou a cabeça devagar.
— Não… eu consigo.
Eduardo a observou por um momento, avaliando se aquilo era verdade.
— Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar.
Ela assentiu.
— Obrigada… por hoje.
Eduardo apenas inclinou levemente a cabeça antes de voltar para o carro, quando o veículo desapareceu na esquina, Laura respirou fundo e caminhou até a porta.
Assim que abriu, sentiu o cheiro familiar da casa.
E ouviu os passos rápidos vindo da cozinha.
— Laura?
Sônia apareceu no corredor com um pano de prato nas mãos, no instante em que viu a filha, seus olhos se encheram de preocupação.
— Meu Deus, filha… você chegou.
Laura forçou um pequeno sorriso.
— Cheguei.
Sônia caminhou até ela, segurando seus braços.
— O que aconteceu? O Henrique ligou desesperado ontem à noite dizendo que você tinha sumido.
Laura desviou o olhar por um segundo.
— A gente brigou.
Sônia suspirou.
— De novo?
Laura deu um meio sorriso cansado.
— Dessa vez foi pior.
Ela caminhou até o sofá e se sentou devagar, como se o corpo estivesse mais pesado que o normal.
Sônia sentou ao lado dela.
— Quer me contar?
Laura ficou alguns segundos em silêncio.
Não podia.
Ainda não.
— Não tem muito o que contar.
Ela respirou fundo antes de continuar:
— Eu só… preciso mudar um pouco as coisas.
Sônia franziu a testa.
— Como assim?
Laura finalmente olhou diretamente para a mãe.
— Nós vamos nos mudar para o Rio de Janeiro.
O silêncio caiu imediatamente na sala.
Sônia piscou algumas vezes.
— O quê?
Laura manteve a voz calma.
— As empresas de lá precisam de mim, eu tenho que começar a administrar tudo de perto.
Sônia a observava atentamente agora.
— Isso é por causa do Henrique?
Laura desviou o olhar novamente.
— Não.
Sônia sabia que aquela resposta era apenas metade da verdade.
Mas também conhecia a filha.
Quando Laura tomava uma decisão, discutir raramente mudava algo.
— Quando?
— O mais rápido possível.
Sônia respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos.
— E a escola?
— Eu termino o ano no Rio.
— As empresas?
— Eu aprendo lá.
Ela fez uma pausa.
— Eu preciso disso, mãe.
Sônia a estudou por alguns segundos.
Havia algo no olhar da filha que ela não via há algum tempo.
Determinação.
Mas também cansaço.
E uma tristeza silenciosa.
Sônia passou a mão pelo cabelo de Laura com carinho.
— Se é isso que você quer…
Ela suspirou.
— Então vamos.
Laura pareceu aliviada.
— Obrigada.
Sônia se levantou.
— Bom… então acho que temos malas para arrumar.
Laura deu um pequeno sorriso.
— Muitas.
Durante as horas seguintes, a casa virou um caos organizado.
Malas abertas.
Roupas dobradas.
Documentos separados.
Sônia não fez mais perguntas.
Laura também não ofereceu explicações.
Mas a tensão silenciosa entre as duas era quase palpável.
No meio da tarde, a campainha tocou.
Laura estava no quarto quando ouviu.
— Eu atendo! — gritou Sônia da sala.
Poucos segundos depois, uma voz conhecida ecoou pelo corredor.
— Laura?!
Tereza.
Laura fechou os olhos por um segundo.
Ela sabia que aquele momento chegaria.
Desceu as escadas devagar.
Assim que apareceu na sala, Tereza caminhou até ela em passos largos.
— O que aconteceu?!
Laura piscou.
— Oi pra você também.
Tereza cruzou os braços.
— Não tenta fugir, o Henrique está surtando, meu pai recebeu três ligações dele, ele disse que você simplesmente desapareceu!
Laura suspirou.
— A gente brigou.
Tereza estreitou os olhos.
— Laura, vocês brigam toda semana, isso nunca fez você pegar um avião e sumir.
Laura não respondeu imediatamente.
Sônia percebeu o clima e pegou a bolsa.
— Eu vou ao mercado comprar algumas coisas.
Ela olhou para Laura.
— Volto em uma hora.
Laura assentiu.
Assim que a porta se fechou, Tereza voltou a encarar a amiga.
— Agora fala.
Laura caminhou até o sofá e se sentou.
Tereza sentou ao lado dela.
— Eu estou esperando.
Laura respirou fundo.
— Eu e o Henrique terminamos.
Tereza arregalou os olhos.
— O quê?!
— Terminamos.
— Como assim terminaram?!
Laura passou a mão pelo rosto.
— Foi uma briga, uma briga feia, a gente disse coisas que não devia.
Tereza parecia completamente perdida.
— Mas vocês…
Ela gesticulou, procurando palavras.
— Vocês eram vocês.
Laura soltou uma pequena risada triste.
— Acho que até as histórias mais bonitas têm rachaduras.
Tereza ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou mais baixo:
— Foi por causa da faculdade?
Laura assentiu.
— Em parte, ele vai embora, pra Nova York — ela olhou no no relógio.— A essa hora já deve ter ido, e eu… não conseguia ver um caminho onde a gente não acabasse se machucando.
Tereza observou a amiga com atenção.
Algo ali não estava completamente explicado.
— E então você decidiu fugir?
— Eu não fugi.
Laura respondeu.
— Eu só… mudei o rumo.
Ela respirou fundo.
— Eu vou me mudar para o Rio.
Tereza piscou.
— O quê?
— As empresas, eu preciso aprender a administrar, e lá vai ser mais fácil.
Tereza passou a mão pelos cabelos, tentando processar tudo.
— Então deixa eu ver se entendi, você terminou com o Henrique, vai se mudar de cidade, e acha que eu vou acreditar que isso é só sobre empresas?
Laura não respondeu.
Porque, de certa forma, Tereza estava certa.
Mas não podia contar tudo.
Ainda não.
Tereza suspirou.
— Você está escondendo alguma coisa.
Laura levantou os olhos.
— Não estou.
Era mentira.
Mas uma mentira necessária.
Tereza ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois segurou a mão da amiga.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa.
Laura apertou a mão dela de volta.
— Eu sei.
E era verdade.
Mas algumas verdades ainda estavam pesadas demais para dividir.
Especialmente aquela que crescia silenciosamente dentro dela.
Tereza respirou fundo.
— O Henrique está destruído.
Laura desviou o olhar.
— Eu imaginei.
— Ele acha que fez alguma coisa horrível.
Laura engoliu em seco.
— Talvez tenha feito.
Tereza franziu a testa.
— Laura…
Mas Laura se levantou.
— Eu só preciso de um tempo, para organizar a cabeça, para começar de novo.
Tereza também se levantou.
— Você sempre faz isso.
Laura ergueu uma sobrancelha.
— Isso o quê?
— Carrega o mundo inteiro sozinha.
Laura sorriu de lado.
— Alguém precisa.
Tereza puxou a amiga para um abraço apertado.
— Só promete uma coisa.
— O quê?
— Que você não vai desaparecer da minha vida também.
Laura fechou os olhos por um instante.
— Nunca.
Mas enquanto abraçava a amiga, uma única pergunta ecoava silenciosamente dentro dela:
Quanto tempo conseguiria esconder a verdade?
Porque, em poucos meses, seu segredo não poderia mais ser guardado.
E quando esse momento chegasse…
Tudo mudaria novamente.