Já era sexta-feira. Acordei antes mesmo do despertador tocar. Me arrumei para a escola antes que minha mãe precisasse chamar meu nome três vezes pelo corredor. Eu estava ansiosa demais para que o dia passasse rápido. A festa era amanhã.
— Bom dia. Acho que vou planejar uma dessas festas toda semana — minha mãe disse, rindo enquanto mexia o café.
— Bom dia. Não tem graça — respondi, tentando parecer emburrada, mas sem conseguir esconder o sorriso.
Peguei minha mochila e fui para a sala esperar ela terminar de se arrumar para me levar.
Na escola, a manhã foi como qualquer outra. Mesmas aulas, mesmas conversas paralelas, mesmos olhares impacientes para o relógio. A única novidade foi uma aluna nova na minha sala. Ela parecia quieta, sentada na primeira fileira, postura reta demais para alguém que tinha acabado de chegar.
No intervalo, respirei fundo e fui até ela. Eu era presidente de sala. Sentia que precisava dar o primeiro passo.
— Oi, meu nome é Laura — puxei a cadeira atrás dela e sentei.
Ela virou só o suficiente para me olhar.
— Oi. Eu sou a Bianca.
— Quer fazer o trabalho de História comigo?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Por que eu iria querer?
A resposta veio seca, direta. Sem esforço para parecer simpática.
Senti meu rosto esquentar.
— Eu só quis ser legal com você, porque você é nova. Mas tá tudo bem, esquece.
Levantei antes que ela respondesse qualquer coisa. Voltei para o meu lugar com aquela sensação desagradável de ter sido pequena por tentar ser gentil. O sinal tocou logo em seguida, e eu saí ainda irritada.
Atravessei a rua e fui para o muro da faculdade, onde sempre esperava a Raiana. Como todos os dias, vários meninos de outra escola estavam ali, encostados, rindo alto demais, ocupando espaço demais.
Sentei um pouco afastada, tentando organizar meus pensamentos.
— E aí, você é a amiga da Raiana, né?
Levantei os olhos. Um menino com um sorriso bonito estava parado na minha frente.
— Sou — respondi, curta.
Ele inclinou a cabeça.
— Já vi que não tem só cara de patricinha. Deve ser insuportável também.
Revirei os olhos.
— E você deve ser inconveniente mesmo.
Ele riu de lado e saiu andando.
Nesse momento, a Raiana chegou.
— Ei! Ela não é insuportável, não, Patrick! — ela gritou, jogando uma pedrinha nas costas dele.
Ele fez um gesto dramático de dor e continuou andando, fingindo que não ligava.
— Obrigada — murmurei.
— O que foi? Você não costuma ser tão ácida assim — ela disse, rindo.
— Acordei com o pé esquerdo. Fui tentar ser legal com uma menina nova e ela foi grossa comigo. Fiquei com vontade de perder a classe.
— Ah, então é isso. — Ela entrelaçou o braço no meu. — Vem, vou te apresentar o pessoal. Já devia ter feito isso antes.
— Calma, eu vou cair — reclamei enquanto ela me puxava.
Paramos no meio do grupo.
— Gente, essa é a Laura. E ela não é patricinha insuportável, tá, Patrick? Só tá tendo um dia r**m.
Alguns riram.
Eu sorri, meio sem jeito.
Patrick me olhou de cima a baixo. Eu estava de calça jeans, All Star branco e a camiseta do uniforme. Nada demais. Mas, quando finalmente olhei direto nos olhos dele, percebi o que chamava atenção: ele era alto, loiro, olhos verdes muito claros. O tipo de olhar que parece sempre saber mais do que você.
— Foi m*l por antes? — perguntei, inclinando a cabeça.
— Depende — ele respondeu, com um meio sorriso provocador.
— Nem começa, Patrick — Raiana interrompeu. — A Laura não é dessas que você coleciona.
Ele levantou as mãos, como se estivesse se rendendo, e saiu andando. Antes de chegar ao fim do grupo, esbarrou em uma menina. Ele a puxou pela cintura, levantou no colo e ela entrelaçou as pernas na cintura dele. Começaram a se beijar ali mesmo.
Fiquei olhando, surpresa demais para disfarçar.
— Não precisa fazer essa cara — Raiana disse. — Ela é só a peguete dele.
— Achei que eles tinham acabado de se conhecer.
A roda inteira riu.
— Então você é a famosa Laura.
Olhei para o lado. Um menino de olhos verdes, mas com traços mais suaves, tinha acabado de chegar. Demorei alguns segundos para reconhecer. Era ele. O que estava com o Guilherme naquele dia.
— Laura eu sou. Famosa, não sei de onde.
— Todo mundo já ouviu falar de você, Laurinha — Raiana provocou.
Eu fiquei quieta. Aquela sensação estranha voltou. De ser observada sem saber exatamente por quê.
— Eu não aguentava mais aquela professora — uma loira se aproximou, reclamando.
— Laura, essa é a Jhenifer. Terceiro ano.
— Oi — sorri.
— Eu te reconheço. Você não estava no Grêmio?
— Estava. Sou presidente da minha sala.
Ela assentiu, como se isso explicasse alguma coisa.
Ficamos ali conversando por um bom tempo. Eu não tinha pressa de chegar em casa. Naquele horário, ninguém estaria lá para controlar a hora da minha chegada.
Aos poucos fui me sentindo confortável. Mesmo sendo mais velhos, os assuntos não eram tão diferentes. Falavam de festas, professores, pequenas rebeldias. Eu ouvia mais do que falava, mas absorvia tudo.
Depois de quase uma hora, fomos embora.
Cheguei em casa, fiz o que precisava fazer e fui direto para o computador. Aquele era o meu momento preferido do dia. Silêncio. Liberdade. Nenhuma regra imediata. Nenhuma voz chamando meu nome.
Como sempre, desliguei trinta minutos antes da minha mãe chegar. O computador precisava esfriar. Era meu pequeno segredo.
Quando ela chegou, foi direto para a cozinha. Iríamos buscar a Raiana para dormir lá em casa. O pai dela era tranquilo, mas não deixava ela dormir fora com qualquer pessoa. Como conhecia meu padrasto há anos, confiava.
Enquanto minha mãe preparava o jantar, fui tomar banho. Fiquei alguns minutos a mais debaixo do chuveiro, pensando na festa do dia seguinte. Pensando nas roupas. Pensando em como eu queria me sentir diferente.
Depois fui arrumar o quarto. Ou pelo menos tentar. Meu quarto sempre parecia entrar em guerra comigo. Cada vez que eu procurava alguma coisa, bagunçava três.
Enquanto dobrava uma camiseta, me peguei pensando em como aquela semana tinha sido estranha. A menina nova. O Patrick. O grupo. A sensação de estar entrando em algo maior do que eu.
Talvez eu estivesse mudando.
Ou talvez estivesse apenas começando a descobrir que não precisava ser sempre a menina certinha que todo mundo já conhecia.
E, pela primeira vez, essa ideia não me assustou.