Laura ainda sentia o peso da noite anterior quando acordou.
O vestido estava pendurado atrás da porta do quarto, como uma lembrança silenciosa de tudo que tinha acontecido: o discurso de Henrique, os olhares, Augusto Villar… o perigo velado.
Mas agora ela estava em casa.
O cheiro de café fresco vinha da cozinha.
Ali, o mundo era simples.
Ela desceu descalça, encontrando a mãe mexendo a panela no fogão.
— Bom dia, filha.
A voz era leve, acolhedora.
Laura abraçou a mãe por trás.
— Mãe… você não faz ideia da noite que eu tive.
A mãe riu.
— Imagino que tenha sido chique.
Laura sentou à mesa e começou a contar, falou do salão enorme, das pessoas importantes, do discurso de Henrique. Os olhos dela brilhavam ao falar dele.
— Ele parecia tão seguro, mãe, tão diferente… mas ao mesmo tempo o mesmo.
A mãe observava cada detalhe.
— Você fala dele com orgulho.
Laura sorriu.
— Eu tenho.
Ela hesitou antes de mencionar Augusto.
Mas decidiu contar.
— Teve um momento estranho também… um cara, filho de senador, meio invasivo.
A mãe parou de mexer a panela.
— Ele encostou em você?
— Foi só… insistente, a Tereza me tirou da situação.
A mãe respirou fundo.
— Filha, o mundo dessas pessoas é diferente, tem poder, tem ego, você precisa estar forte.
Laura assentiu.
— Eu estou aprendendo.
A mãe sentou à frente dela.
— Só não esquece quem você é.
Laura segurou a mão dela.
— Nunca.
E foi naquele instante que uma ideia surgiu.
Ela estava entrando no mundo de Henrique todos os dias.
Talvez estivesse na hora de fazer o contrário.
Henrique atendeu no terceiro toque.
— Bom dia, linda.
A voz rouca fez ela sorrir.
— Tenho um convite.
— Gosto quando começa assim.
— Quero te levar num lugar hoje.
— Qual?
— Surpresa. Mas você precisa confiar em mim.
Ele riu baixo.
— Eu subiria numa moto sem freio se você pedisse.
— Ótimo, e chama a Tereza também.
Houve um pequeno silêncio.
— Isso eu não esperava.
— Confia.
Uma hora depois, o carro preto de Henrique estacionava na rua simples da casa de Laura.
Ele desceu de camiseta branca e bermuda, informal, diferente do herdeiro impecável da noite anterior.
Tereza saiu logo atrás, de óculos escuros e expressão curiosa.
— Estou oficialmente fora do meu habitat natural — ela comentou.
Laura apareceu sorrindo.
— Então hoje é dia de adaptação.
Henrique a puxou para um beijo rápido.
— Aonde vamos?
Ela apontou para o fim da rua.
— A pé.
Henrique arqueou a sobrancelha.
— A pé?
Tereza riu.
— Eu acho que vou gostar disso.
Caminharam alguns quarteirões até uma trilha simples que descia por entre árvores.
O som do mar começou a surgir antes mesmo de aparecer no horizonte.
Quando finalmente a vista se abriu, Henrique parou.
Não era uma praia turística, não tinha estrutura sofisticada.
Era quase selvagem, areia clara, algumas pedras, mar aberto e poucas pessoas espalhadas.
— Esse é o meu lugar favorito no mundo — Laura disse.
Henrique olhou para ela, depois para o mar.
— Agora é um dos meus também.
Tereza tirou os óculos lentamente.
— Isso é… lindo.
Laura saiu correndo em direção à água, tirando a sandália no caminho.
Henrique a seguiu, rindo.
Ela entrou no mar sem hesitar.
Ele foi atrás.
A água fria arrancou um xingamento baixo dele.
— Você quer me matar?
— Eu quero te acordar!
Ela mergulhou, reaparecendo com o cabelo molhado, rindo.
Henrique observava como se estivesse vendo algo raro.
Ali, ela não estava tentando provar nada.
Não estava elegante, nem contida.
Estava livre.
E aquilo o desarmava.
Ele a puxou pela cintura dentro da água.
— Eu gosto de você assim.
— Assim como?
— Sem armadura.
Ela tocou o rosto dele.
— Esse é o meu mundo, não tem protocolo, não tem sobrenome.
Ele a beijou ali mesmo, com gosto de sal e sol.
Na areia, Tereza caminhava sozinha, observando o ambiente.
Até ouvir uma voz atrás dela.
— Tereza?
Ela virou.
Um rapaz moreno, cabelo bagunçado pelo vento, sorriso aberto, pele queimada de sol.
— Caio?
Ela tirou os óculos, surpresa.
— Você sumiu depois do primeiro ano.
Ele riu.
— Eu que digo isso, agora você está toda… executiva.
— E você continua parecendo que saiu de uma propaganda de surf.
Ele inclinou a cabeça.
— Faço estágio com biologia marinha agora, fico mais aqui do que na cidade.
Tereza cruzou os braços, mas o sorriso escapou.
— Interessante.
Laura saiu da água e correu até eles.
— Você conhece o Caio?
— Conheço — Tereza respondeu antes dele. — Estudamos juntos quando eu ainda era obrigada a conviver com pessoas normais.
Caio riu alto.
— Ela sempre foi assim.
Henrique se aproximou, observando a cena.
Laura fez as apresentações.
Henrique avaliou Caio por alguns segundos — não como ameaça, mas como curiosidade.
E algo curioso aconteceu.
Tereza, que normalmente analisava todos ao redor com frieza, estava… leve.
Conversando.
Rindo.
Sem postura calculada.
Passaram o dia ali.
Comeram peixe frito numa barraca simples.
Sentaram na areia falando sobre nada importante.
Henrique ouviu histórias da infância de Laura, as vezes que ela vinha escondida quando estava triste, as vezes que sonhava alto olhando o mar.
Ele percebeu algo naquele dia:
Ela não queria o mundo dele por ambição.
Ela queria crescer.
Era diferente.
No fim da tarde, sentaram todos na areia observando o pôr do sol.
O céu pintado de laranja refletia no mar.
Tereza estava um pouco afastada, conversando com Caio.
Laura observava de longe.
— Ela está diferente — comentou.
Henrique seguiu o olhar dela.
— Está.
— Você já viu sua irmã sorrir assim?
Ele demorou um pouco para responder.
— Poucas vezes.
Laura apoiou a cabeça no ombro dele.
— Às vezes o mundo precisa ser menor pra gente respirar.
Henrique passou o braço por ela.
— Eu gosto quando você me tira do controle.
Ela riu.
— Eu gosto quando você aprende a relaxar.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Obrigado por me trazer aqui.
— Obrigada por vir.
Tereza voltou alguns minutos depois, com o cabelo bagunçado pelo vento e um brilho diferente no olhar.
— Vamos antes que eu resolva largar tudo e virar bióloga marinha.
Henrique arqueou a sobrancelha.
— Isso seria um escândalo na família.
Ela deu de ombros.
— Talvez eu precise de um.
No caminho de volta, Laura percebeu algo importante:
Ela não estava mais tentando se encaixar no mundo deles.
Estava criando um ponto de encontro.
E, pela primeira vez, Henrique parecia confortável fora do palco.
Mas enquanto o carro se afastava da praia, um pensamento cruzou a mente dela:
Se Augusto representava o perigo do mundo dele…
O mundo dela também tinha histórias m*l resolvidas.
E nem todas eram tão leves quanto o mar naquele fim de tarde.
O equilíbrio estava começando.
Mas toda história de poder cobra um preço.
E ele ainda não tinha sido pago.