Céu frio

885 Words
O frio foi a primeira coisa que os recebeu. Assim que atravessaram as portas do aeroporto em Massachusetts, o ar gelado bateu no rosto de Laura como um aviso: você está longe de casa. Ela puxou o cachecol mais para perto do pescoço e olhou em volta com os olhos brilhando. — A gente está aqui — ela disse, quase sussurrando. Henrique soltou uma risada leve, girando a própria mala. — Oficialmente. Nada de empresários. Nada de diretora. Nada de família observando cada passo. Só dois jovens, em outro país, com duas malas e um mundo inteiro pela frente. O carro que Eduardo havia organizado já os esperava. Laura ainda se surpreendia com a organização dele, O apartamento tinha sido alugado semanas antes, perto do centro, com fácil acesso ao transporte público e à universidade. — Ele pensou em tudo — Henrique comentou enquanto observava a cidade pela janela. Prédios de tijolos aparentes, árvores secas pelo inverno, bandeiras americanas nas portas, estudantes andando apressados com mochilas pesadas. Parecia cenário de filme universitário. — Eu acho que ele está realizando o sonho dele através de mim — Henrique murmurou. Laura segurou a mão dele. — Ou só está garantindo que você não precise se preocupar com nada além de viver. A frase ficou. Viver. O conselho de Sônia ecoou na cabeça dela como se estivesse sendo dito naquele instante: "Viva intensamente, porque você nunca mais terá uma oportunidade igual a essa." Laura fechou os olhos por um segundo. Ela prometeu a si mesma que faria exatamente isso. O prédio do apartamento era elegante, mas discreto. Nada extravagante. Seguro, aconchegante. Quando a porta se abriu, Laura ficou parada na entrada. O espaço já estava completamente mobiliado. Sofá claro, mesa de jantar para quatro lugares, cozinha equipada, quadros minimalistas nas paredes. Cheiro de limpeza. Cheiro de novo. Henrique entrou primeiro, deixando a mala perto do sofá. — Laura… Ela caminhou devagar até a cozinha. Abriu a geladeira. Abastecida. Frutas, sucos, ovos, manteiga, até chocolate. Abriu a despensa. Massas, arroz, café, biscoitos, tudo organizado. Os olhos dela marejaram. — Ele fez compra pra mim. Henrique encostou no balcão, sorrindo. — Ele sabia que você ia esquecer de comer no primeiro dia. Ela riu entre a emoção. Caminhou até a janela da sala. A vista dava para uma rua arborizada, com uma pequena cafeteria na esquina. — Esse é meu lar agora — ela disse, quase incrédula. Henrique se aproximou por trás e a abraçou pela cintura. — Seu primeiro lar longe de casa. Ela se virou para ele. — Você vai dormir no campus hoje? — Vou. — Estranho? — Um pouco. Mas não parecia doloroso. Parecia… certo. Eles deixaram as malas no quarto, testaram a cama, riram do aquecedor fazendo barulho, exploraram cada detalhe como duas crianças descobrindo um esconderijo novo. Era deles. A fase deles. Algumas horas depois, já mais aquecidos e com as malas parcialmente abertas, decidiram ir conhecer o campus. O trajeto até a universidade foi feito quase em silêncio — não por tensão, mas por encantamento. E então eles viram. Os prédios históricos de tijolos vermelhos. Os portões imponentes. A movimentação de estudantes com livros debaixo do braço. Henrique parou no meio da calçada. — É aqui. Laura olhou para ele. Nunca tinha visto aquele brilho tão puro no olhar dele. Não era ambição. Era realização. — Você conseguiu! — ela disse. Ele respirou fundo. — Eu consegui. Mas então ele virou para ela. — Nós conseguimos. Caminharam pelo campus devagar, lendo placas, observando bibliotecas, auditórios, jardins. Henrique parecia absorver cada detalhe como se estivesse gravando na memória. — Eu sempre imaginei esse momento — ele confessou. — Mas nunca imaginei que você estaria aqui comigo. Laura sorriu. — Nem eu. Ela segurou a mão dele. — Vamos fazer uma promessa? — Qual? — Aqui, a gente vive como adolescente. Henrique arqueou a sobrancelha. — Explique. — A gente estuda, de dedica, constrói o futuro, mas também faz besteira leve, ri alto, come comida barata, vai a festas, erra sem culpa. Ele começou a sorrir devagar. — Sem peso de sobrenome? — Sem peso de expectativa. — Sem competição? — Sem provar nada pra ninguém. Henrique parou diante de um dos prédios principais. — Só viver. O vento frio passou entre eles. Laura lembrou novamente da voz de Sônia. "Viva intensamente…" Ela apertou a mão dele. — Eu quero que essa fase seja leve. — Vai ser — ele respondeu. Um grupo de estudantes passou correndo, rindo alto, jogando uma bola improvisada de papel. Henrique olhou para eles. — Você percebe que agora a gente é só mais dois estudantes aqui? Laura riu. — Finalmente. Ele a puxou pela mão. — Vem! Quero ver a biblioteca. — Claro que quer. — E depois a gente toma café naquela lanchonete ali na esquina. — E faz o quê? Henrique deu de ombros. — Nada importante. Ela sorriu. Nada importante. E, ao mesmo tempo, tudo. Enquanto atravessavam o campus, lado a lado, Laura sentiu algo novo. Não era ansiedade. Não era medo. Era liberdade. Pela primeira vez, o futuro não parecia uma cobrança. Parecia uma aventura. E ali, em Massachusetts, sob o céu frio de um novo começo, eles não eram herdeiros, nem promessas, nem expectativas. Eram apenas Henrique e Laura. Jovens. Apaixonados. Prontos para viver.
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