O frio foi a primeira coisa que os recebeu.
Assim que atravessaram as portas do aeroporto em Massachusetts, o ar gelado bateu no rosto de Laura como um aviso: você está longe de casa.
Ela puxou o cachecol mais para perto do pescoço e olhou em volta com os olhos brilhando.
— A gente está aqui — ela disse, quase sussurrando.
Henrique soltou uma risada leve, girando a própria mala.
— Oficialmente.
Nada de empresários.
Nada de diretora.
Nada de família observando cada passo.
Só dois jovens, em outro país, com duas malas e um mundo inteiro pela frente.
O carro que Eduardo havia organizado já os esperava.
Laura ainda se surpreendia com a organização dele, O apartamento tinha sido alugado semanas antes, perto do centro, com fácil acesso ao transporte público e à universidade.
— Ele pensou em tudo — Henrique comentou enquanto observava a cidade pela janela.
Prédios de tijolos aparentes, árvores secas pelo inverno, bandeiras americanas nas portas, estudantes andando apressados com mochilas pesadas.
Parecia cenário de filme universitário.
— Eu acho que ele está realizando o sonho dele através de mim — Henrique murmurou.
Laura segurou a mão dele.
— Ou só está garantindo que você não precise se preocupar com nada além de viver.
A frase ficou.
Viver.
O conselho de Sônia ecoou na cabeça dela como se estivesse sendo dito naquele instante:
"Viva intensamente, porque você nunca mais terá uma oportunidade igual a essa."
Laura fechou os olhos por um segundo.
Ela prometeu a si mesma que faria exatamente isso.
O prédio do apartamento era elegante, mas discreto.
Nada extravagante.
Seguro, aconchegante.
Quando a porta se abriu, Laura ficou parada na entrada.
O espaço já estava completamente mobiliado.
Sofá claro, mesa de jantar para quatro lugares, cozinha equipada, quadros minimalistas nas paredes.
Cheiro de limpeza.
Cheiro de novo.
Henrique entrou primeiro, deixando a mala perto do sofá.
— Laura…
Ela caminhou devagar até a cozinha.
Abriu a geladeira.
Abastecida.
Frutas, sucos, ovos, manteiga, até chocolate.
Abriu a despensa.
Massas, arroz, café, biscoitos, tudo organizado.
Os olhos dela marejaram.
— Ele fez compra pra mim.
Henrique encostou no balcão, sorrindo.
— Ele sabia que você ia esquecer de comer no primeiro dia.
Ela riu entre a emoção.
Caminhou até a janela da sala.
A vista dava para uma rua arborizada, com uma pequena cafeteria na esquina.
— Esse é meu lar agora — ela disse, quase incrédula.
Henrique se aproximou por trás e a abraçou pela cintura.
— Seu primeiro lar longe de casa.
Ela se virou para ele.
— Você vai dormir no campus hoje?
— Vou.
— Estranho?
— Um pouco.
Mas não parecia doloroso.
Parecia… certo.
Eles deixaram as malas no quarto, testaram a cama, riram do aquecedor fazendo barulho, exploraram cada detalhe como duas crianças descobrindo um esconderijo novo.
Era deles.
A fase deles.
Algumas horas depois, já mais aquecidos e com as malas parcialmente abertas, decidiram ir conhecer o campus.
O trajeto até a universidade foi feito quase em silêncio — não por tensão, mas por encantamento.
E então eles viram.
Os prédios históricos de tijolos vermelhos.
Os portões imponentes.
A movimentação de estudantes com livros debaixo do braço.
Henrique parou no meio da calçada.
— É aqui.
Laura olhou para ele.
Nunca tinha visto aquele brilho tão puro no olhar dele.
Não era ambição.
Era realização.
— Você conseguiu! — ela disse.
Ele respirou fundo.
— Eu consegui.
Mas então ele virou para ela.
— Nós conseguimos.
Caminharam pelo campus devagar, lendo placas, observando bibliotecas, auditórios, jardins.
Henrique parecia absorver cada detalhe como se estivesse gravando na memória.
— Eu sempre imaginei esse momento — ele confessou. — Mas nunca imaginei que você estaria aqui comigo.
Laura sorriu.
— Nem eu.
Ela segurou a mão dele.
— Vamos fazer uma promessa?
— Qual?
— Aqui, a gente vive como adolescente.
Henrique arqueou a sobrancelha.
— Explique.
— A gente estuda, de dedica, constrói o futuro, mas também faz besteira leve, ri alto, come comida barata, vai a festas, erra sem culpa.
Ele começou a sorrir devagar.
— Sem peso de sobrenome?
— Sem peso de expectativa.
— Sem competição?
— Sem provar nada pra ninguém.
Henrique parou diante de um dos prédios principais.
— Só viver.
O vento frio passou entre eles.
Laura lembrou novamente da voz de Sônia.
"Viva intensamente…"
Ela apertou a mão dele.
— Eu quero que essa fase seja leve.
— Vai ser — ele respondeu.
Um grupo de estudantes passou correndo, rindo alto, jogando uma bola improvisada de papel.
Henrique olhou para eles.
— Você percebe que agora a gente é só mais dois estudantes aqui?
Laura riu.
— Finalmente.
Ele a puxou pela mão.
— Vem! Quero ver a biblioteca.
— Claro que quer.
— E depois a gente toma café naquela lanchonete ali na esquina.
— E faz o quê?
Henrique deu de ombros.
— Nada importante.
Ela sorriu.
Nada importante.
E, ao mesmo tempo, tudo.
Enquanto atravessavam o campus, lado a lado, Laura sentiu algo novo.
Não era ansiedade.
Não era medo.
Era liberdade.
Pela primeira vez, o futuro não parecia uma cobrança.
Parecia uma aventura.
E ali, em Massachusetts, sob o céu frio de um novo começo, eles não eram herdeiros, nem promessas, nem expectativas.
Eram apenas Henrique e Laura.
Jovens.
Apaixonados.
Prontos para viver.