Entre perdões e vitrines

1144 Words
Os pais de Henrique ainda estavam no Japão, mergulhados em reuniões e compromissos que atravessavam fusos horários, e o vazio da casa parecia maior quando não havia barulho algum. Laura estava sentada no sofá, um livro aberto no colo, mas sem ler de verdade. Pensava no pai de Henrique. Pensava nos dois meses. Pensava no peso que começava a existir mesmo quando ninguém dizia nada. A campainha tocou. Laura franziu o cenho. Não esperava ninguém. Quando abriu a porta, o ar pareceu mudar. Raiana estava ali. Sem maquiagem exagerada. Sem postura defensiva. Sem ironia. Só Raiana. — Oi — ela disse, insegura. Laura demorou meio segundo, absorvendo a presença. — Oi. Houve um silêncio estranho, como se as duas estivessem medindo a distância que surgiu entre elas nos últimos meses. — Posso entrar? — Raiana perguntou. Laura abriu espaço. — Pode. Elas sentaram uma de frente para a outra. Não tão perto quanto antes. Mas não tão distantes quanto poderiam estar. Raiana entrelaçou os dedos, claramente nervosa. — Eu devia ter vindo antes. Laura manteve o olhar tranquilo. — Devia. Raiana respirou fundo. — Eu sumi. Depois da festa… depois do hospital… eu não soube como lidar. Eu me senti culpada. O nome da festa pairou no ar como uma memória que ainda ardia. — A culpa não foi sua — Laura disse. — Foi sim. Eu insisti. Eu te levei. Eu devia ter percebido que algo estava errado antes. A voz dela falhou levemente. Laura observou a amiga com mais atenção. Raiana parecia menor. Não fisicamente. Mas emocionalmente. — Você não colocou nada no meu copo — Laura disse, firme. — Mas eu estava lá. E depois… eu não tive coragem de te procurar. Laura suspirou. — Eu também me afastei. Raiana balançou a cabeça. — Não. Você ficou mais forte. Eu que fiquei com vergonha. O silêncio agora era diferente. Menos pesado. Mais honesto. — Eu senti sua falta — Laura admitiu. Raiana ergueu os olhos, surpresa. — Sério? — Você sempre foi impulsiva. Mas sempre esteve do meu lado. Raiana soltou uma risada fraca. — Eu ainda estou. Elas ficaram em silêncio por alguns segundos, absorvendo o que aquilo significava. — Eu vi você com o Henrique — Raiana disse, com um meio sorriso. — Ele olha pra você como se tivesse encontrado alguma coisa que não sabia que precisava. Laura sentiu o rosto esquentar levemente. — A gente está bem. — Eu sei. E eu queria dizer… eu estou feliz por você. Aquilo era importante. Não havia inveja na voz. Nem provocação. Só verdade. — Obrigada. Raiana levantou-se depois de alguns minutos. — Eu só precisava dizer isso olhando pra você. Laura caminhou até a porta com ela. — A gente ainda é amiga? Raiana sorriu. — Se você quiser. Laura abraçou-a sem hesitar. Quando Raiana saiu pelo portão… Tereza estava chegando. E viu. O olhar dela estreitou imediatamente. — O que ela estava fazendo aqui? — perguntou, entrando sem cerimônia. Laura fechou a porta devagar. — Veio pedir desculpa. — Depois de meses? — Sim. Tereza cruzou os braços. — Eu não confio nela. — Eu confio. Tereza suspirou, mas não insistiu. Ela caminhou pela sala como se estivesse avaliando possíveis danos invisíveis. — Só toma cuidado — murmurou. Laura sorriu leve. — Eu sei me cuidar. Tereza olhou para ela por um segundo a mais. — Você mudou. — Pra melhor? — Mais firme. Laura não respondeu. Mas sabia que sim. — Aliás — Tereza disse de repente, mudando o tom — eu vim te buscar. — Pra quê? — Compras. Laura arqueou a sobrancelha. — Eu não preciso de nada. — Precisa sim. Evento beneficente dos Gates esse fim de semana. E você vai. Laura congelou. — Eu vou? — Henrique não te contou? O coração dela acelerou. — Não. Tereza abriu um sorriso contido. — Ele vai representar os pais. E quer te apresentar oficialmente como namorada. Oficialmente. A palavra teve peso. Laura sentiu o estômago revirar levemente. — Eu não tenho roupa pra isso. — Por isso eu estou aqui. O shopping parecia outro universo. Vitrines impecáveis. Luzes estrategicamente posicionadas. Perfume caro no ar. Laura entrou na loja indicada por Tereza e imediatamente sentiu que estava no lugar errado. Vestidos delicadamente expostos. Tecidos que pareciam intocáveis. Etiquetas discretas — mas com números altos demais. — Tê… — Laura começou. — Nem começa. — Eu não tenho dinheiro pra isso. Tereza virou-se para ela, séria. — Você acha que eu trouxe você aqui pra olhar? Laura cruzou os braços, desconfortável. — Eu não posso deixar você pagar tudo. — Pode sim. — Não é justo. Tereza aproximou-se. — Justo é você não se sentir menor por causa de etiqueta. Laura desviou o olhar. — Eu não me sinto menor. — Sente sim. Silêncio. Porque era verdade. Não era inveja. Era desconforto. Ela nunca precisou competir financeiramente com ninguém. Mas naquele ambiente, tudo parecia medir valor. — Henrique não está com você por causa de vestido — Tereza disse mais suave. — Eu sei. — Então deixa eu fazer isso por você. A vendedora trouxe algumas opções. Vestido azul profundo. Um vinho elegante. Um preto minimalista, perfeito. Laura experimentou o azul primeiro. Quando saiu do provador, Tereza ficou em silêncio por dois segundos. — É esse. Laura se olhou no espelho. O vestido abraçava o corpo com elegância, sem exagero. Delicado. Forte. Ela quase não se reconheceu. — É caro demais — murmurou. Tereza já estava no caixa. Além do vestido, escolheu sapatos. Uma bolsa. Um conjunto discreto de joias. — Tereza… para. — Não. Laura sentiu um nó na garganta. — Eu não quero depender de ninguém. Tereza caminhou até ela depois de pagar. — Isso não é dependência. É amizade. Laura segurou as sacolas como se pesassem mais do que tecido. Não pelo valor. Mas pelo significado. Aceitar ajuda sempre foi difícil. Porque ajuda às vezes parece dívida. — Obrigada — disse por fim. Tereza sorriu. — Um dia você me paga com outra coisa. Lealdade, talvez. Laura riu. — Isso eu já te dou. Na volta para casa, o céu começava a escurecer. Laura segurava as sacolas no colo, pensativa. — Você está com medo? — Tereza perguntou. — Um pouco. — Do evento? — Do que ele representa. Tereza entendeu. Não era só uma festa beneficente. Era exposição. Era apresentação. Era mundo dos Gates. — Você é suficiente — Tereza disse. Laura olhou pela janela. Talvez fosse. Mas naquele fim de tarde, entre perdões sinceros e vitrines luxuosas, ela percebeu que amar Henrique significava entrar num universo que exigia mais do que sentimento. Exigia postura. E pela primeira vez, ela se perguntou se estava pronta. Mas então lembrou do jeito que ele segurava sua mão. Sem hesitar. Sem esconder. E decidiu que, se fosse para atravessar aquele mundo… Ela atravessaria de cabeça erguida.
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